Seu Crédito Digital
Seu Crédito Digital

Brasil abre discursos da ONU há mais de 70 anos; entenda como nasceu a tradição

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 8 min de leitura
Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abre nesta terça-feira (22) o Debate Geral da 81ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em Nova York. A programação começou às 9h no horário local, e o discurso brasileiro ocorre na abertura da sessão, seguido pela participação dos Estados Unidos, país-sede.

A posição do Brasil na programação não é uma escolha feita a cada ano. O país ocupa tradicionalmente o primeiro lugar na lista de discursos do Debate Geral desde 1955, uma das tradições mais conhecidas da diplomacia das Nações Unidas.

Mas por que justamente o Brasil fala primeiro? A resposta envolve uma tradição diplomática que começou nos primeiros anos da organização e que, ao longo das décadas, passou a fazer parte do protocolo da Assembleia Geral.

Leia mais:

Setor produtivo aposta em mais consumo com reajuste do Bolsa Família e restrições às bets

O que é a Assembleia Geral da ONU?

Brasil
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A Assembleia Geral é o principal órgão de formulação de políticas das Nações Unidas e reúne os 193 Estados-membros da organização. Cada país possui direito a um voto, independentemente de seu tamanho ou população.

O encontro anual reúne chefes de Estado e de governo para apresentar posições sobre questões internacionais e discutir desafios que envolvem a comunidade internacional.

Em 2026, o Debate Geral ocorre de 22 a 26 de setembro e em 28 de setembro. O tema escolhido para a 81ª sessão é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.

A programação faz parte da chamada Semana de Alto Nível da ONU, que concentra uma série de reuniões e eventos diplomáticos em Nova York.

Por que o Brasil fala primeiro na Assembleia Geral da ONU?

A tradição de o Brasil abrir o Debate Geral remonta a 1955. Desde então, o país passou a ocupar regularmente a primeira posição na programação, antes dos Estados Unidos, que normalmente aparecem logo depois por serem o país anfitrião.

A origem exata desse costume não está registrada de forma única como uma regra formal da ONU. Por isso, diferentes explicações históricas surgiram ao longo dos anos.

Uma das versões associa a escolha à disposição brasileira de assumir o primeiro discurso quando outros países não demonstravam interesse em abrir os trabalhos. Com o passar do tempo, a prática teria se consolidado como tradição diplomática.

A própria ONU trata atualmente a posição do Brasil como uma tradição estabelecida. Em sua página dedicada à Assembleia Geral de 2026, a organização afirma que, desde 1955, o Brasil abre o Debate Geral com o discurso de seu presidente.

O Brasil sempre foi o primeiro?

Não.

Apesar de a tradição ter se consolidado a partir de 1955, houve algumas exceções ao longo das décadas. Em determinadas ocasiões, mudanças na programação fizeram com que os Estados Unidos ou outro país aparecessem antes do Brasil.

Isso mostra que a posição não funciona como uma regra absoluta e imutável do regulamento da Assembleia Geral.

As regras oficiais da ONU determinam, de maneira geral, que o presidente da Assembleia concede a palavra aos representantes conforme a ordem estabelecida para os trabalhos. A tradição brasileira está incorporada à organização do Debate Geral, mas não corresponde a uma regra da Carta das Nações Unidas que obrigue o Brasil a falar primeiro em todas as circunstâncias.

O que acontece depois do discurso de Lula?

A abertura do Debate Geral segue um protocolo específico.

Na programação tradicional, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apresenta a mensagem inicial e, depois, ocorre a participação do presidente da Assembleia Geral. Na sequência, vem o discurso do Brasil e, normalmente, o dos Estados Unidos, como país anfitrião.

A partir daí, outros chefes de Estado e de governo assumem a tribuna de acordo com a programação definida para o Debate Geral.

A sessão de 2026 é presidida por Khalilur Rahman, de Bangladesh, que ocupa a presidência da 81ª Assembleia Geral.

Existe um debate entre os países?

Apesar do nome Debate Geral, o formato não é semelhante a um debate político com perguntas, réplicas e tréplicas.

Cada delegação tem a oportunidade de apresentar um discurso. Os líderes utilizam o espaço para expor prioridades de seus governos, defender posições diplomáticas e abordar conflitos, questões econômicas, desenvolvimento, mudanças climáticas, segurança internacional e outros temas.

Na prática, os discursos funcionam como uma espécie de apresentação pública das prioridades de cada país perante a comunidade internacional.

Em 2026, a ONU informa que os líderes deverão discutir desafios globais interligados e buscar soluções relacionadas à paz, à segurança e ao desenvolvimento sustentável.

Quanto tempo cada país pode falar?

A orientação geral é que cada Estado-membro tenha 15 minutos para seu pronunciamento. O limite, entretanto, é voluntário e pode ser ultrapassado.

A própria ONU observa que, historicamente, alguns discursos duraram poucos minutos, enquanto outros passaram de algumas horas.

Os pronunciamentos contam ainda com interpretação simultânea para as seis línguas oficiais das Nações Unidas: árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo.

Quantos países participam da Assembleia Geral?

A ONU possui atualmente 193 Estados-membros. Todos participam da Assembleia Geral e têm direito a voto.

Além dos Estados-membros, existem participantes com diferentes status dentro da organização. A Santa Sé e o Estado da Palestina, por exemplo, possuem status de observadores não membros.

A Assembleia Geral também recebe representantes de outras organizações e entidades autorizadas a participar de determinados trabalhos.

O que está em discussão na ONU em 2026?

O tema oficial da 81ª sessão é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.

A programação de alto nível inclui, além do Debate Geral, reuniões específicas sobre desenvolvimento, mudanças climáticas, elevação do nível do mar e prevenção e preparação para pandemias.

Também estão previstos encontros relacionados ao desenvolvimento sustentável e a outros temas de interesse internacional.

A agenda faz com que a semana em Nova York concentre uma série de negociações e encontros bilaterais paralelos aos discursos oficiais.

Por que o discurso do Brasil chama tanta atenção?

A abertura coloca o presidente brasileiro no primeiro grande pronunciamento de chefe de Estado do Debate Geral.

A tradição também dá ao discurso do Brasil uma posição simbólica dentro da cerimônia de abertura. Depois da participação brasileira, os Estados Unidos ocupam tradicionalmente a segunda posição por serem o país anfitrião.

Ao longo dos anos, presidentes brasileiros utilizaram a tribuna para tratar de temas que vão desde desenvolvimento econômico e combate à pobreza até conflitos internacionais, mudanças climáticas, comércio e reforma das instituições multilaterais.

O discurso, portanto, não é apenas uma cerimônia protocolar. Ele também serve para apresentar publicamente as prioridades da política externa brasileira diante de representantes de praticamente todo o sistema internacional.

Quando o Brasil deixou de falar primeiro?

A tradição brasileira teve exceções.

Em determinadas sessões, mudanças de programação alteraram a sequência habitual entre Brasil e Estados Unidos. A própria documentação histórica da ONU registra que o Brasil já era tratado como o primeiro orador do Debate Geral décadas atrás, demonstrando que o costume estava consolidado muito antes da atual sessão.

Por isso, dizer que o Brasil “sempre” falou primeiro deve ser entendido como referência à tradição desde 1955, e não como uma obrigação absoluta sem nenhuma exceção.

Como acompanhar o Debate Geral da ONU?

Brasil
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A programação oficial e as transmissões podem ser acompanhadas pelos canais das Nações Unidas.

A ONU disponibiliza os pronunciamentos e as reuniões por meio da UN Web TV, além de manter a programação do Debate Geral em seu site oficial.

O primeiro dia da 81ª sessão do Debate Geral ocorre nesta terça-feira (22), com continuidade até sábado (26) e encerramento na segunda-feira (28).

Conclusão

A abertura do Debate Geral da ONU pelo Brasil é resultado de uma tradição diplomática consolidada desde 1955. Embora a origem exata do costume seja cercada por diferentes versões históricas, a prática se tornou parte do protocolo das sessões da Assembleia Geral ao longo das décadas.

Nesta terça-feira (22), Lula mantém essa tradição ao abrir a sequência de discursos dos chefes de Estado. Depois do pronunciamento brasileiro, os Estados Unidos ocupam tradicionalmente a segunda posição, antes da participação dos demais países.

Mais do que uma formalidade de protocolo, a posição dá ao Brasil um dos primeiros espaços para apresentar suas prioridades diante das Nações Unidas. O discurso de abertura, por isso, costuma ser acompanhado de perto por governos, diplomatas e pela imprensa internacional.

Compartilhar