Desde que a China passou a ser reconhecida oficialmente pelo Brasil como uma economia de mercado, no início dos anos 2000, os laços comerciais entre os dois países não pararam de se fortalecer. Hoje, mais de um quarto de tudo o que o Brasil vende ao exterior vai para o país asiático, uma realidade que representa ganhos expressivos, mas também riscos relevantes.
Brasil e China: quais os riscos da dependência econômica?
Especialistas avaliam os riscos da dependência do Brasil da China e os impactos de um eventual choque na economia chinesa.
Durante visita oficial à China em maio de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva relembrou sua decisão de 2004, ainda no primeiro mandato, de reconhecer a China como uma economia de mercado. “Não me arrependo”, afirmou Lula, destacando o potencial da parceria. À época, ele previa que o comércio entre os dois países poderia mais que dobrar. O que aconteceu, na verdade, foi uma multiplicação ainda maior: de US$ 9,1 bilhões em 2004 para US$ 35 bilhões em 2009.
Atualmente, a China representa o maior mercado para os produtos brasileiros, superando até mesmo os Estados Unidos. Mas essa concentração vem despertando preocupações crescentes entre economistas, diplomatas e produtores.
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Crescimento da parceria e aumento da exposição

O comércio entre Brasil e China saltou de forma exponencial nos últimos 20 anos, impulsionado especialmente pelas exportações de commodities brasileiras como soja, minério de ferro e petróleo. Em 2024, a China foi responsável por 28% das exportações brasileiras, mais que o dobro do segundo maior comprador, os EUA.
De 2004 a 2024, o superávit comercial com a China somou US$ 315 bilhões, contribuindo significativamente para as reservas internacionais brasileiras. No entanto, especialistas alertam que essa forte concentração em um único parceiro comercial pode deixar o Brasil vulnerável a choques externos.
Especialistas divergem: dependência ou complementaridade?
A leitura sobre o grau de dependência do Brasil em relação à China varia. Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), não há dúvida: “Nós somos muito dependentes da China e, a cada dia que passa, ela ocupa mais espaço nas exportações do Brasil.”
Já o pesquisador Lívio Ribeiro, da Fundação Getulio Vargas, prefere o termo “complementaridade”. Ele compara a relação Brasil-China à do México com os EUA, mas ressalta que o México tem 80% do seu comércio atrelado aos norte-americanos, enquanto o Brasil mantém 30% com os chineses. “Brasil e China são parceiros complementares como poucos países são”, avalia.
Na mesma linha, o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral destaca que o superávit com a China é crucial para a estabilidade da economia brasileira. “É esse superávit que dá segurança à balança comercial […] permite o controle da inflação e segurança das nossas reservas internacionais.”
Riscos de uma concentração excessiva
Apesar dos ganhos, os riscos são reais. Um deles é a vulnerabilidade a crises na economia chinesa. “Se houver uma crise econômica naquele país, a sua economia vai ser muito afetada”, aponta Barral, que cita como exemplo a crise do setor imobiliário chinês, iniciada em 2022, que reduziu a demanda por minério de ferro brasileiro.
Outro risco está no tipo de produto exportado. Commodities, por sua natureza, têm preços voláteis e são mais suscetíveis às oscilações do mercado internacional. “Quando você tem muita dependência de commodities, não controla o preço. Se há uma queda, sua balança é afetada”, alerta Barral.
A fragilidade do agro diante de uma crise chinesa
O agronegócio brasileiro, principal responsável pelas exportações para a China, é um dos setores mais expostos. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2024, 75% do que o Brasil exportou para a China se concentrou em soja, petróleo e minério de ferro.
Maurício Buffon, presidente da Aprosoja (Associação Brasileira dos Produtores de Soja), reconhece a relevância do mercado chinês. “Se não tiver o mercado chinês, o que fazer com tanta soja?”, questiona. Em Tocantins, onde ele atua, 47% das exportações em 2024 foram direcionadas à China.
Buffon acredita em uma relação de interdependência, mas admite que uma queda na demanda ou nos preços internacionais poderia provocar desemprego e desestruturação de toda a cadeia produtiva.
Uma relação assimétrica?
Para o cientista político Maurício Santoro, do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, a relação é claramente desequilibrada. “O Brasil depende muito mais da China do que a China depende do Brasil. Eu diria que é uma dependência para setores como o agronegócio ou empresas como a Vale.”
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Essa assimetria também se reflete nas importações brasileiras. Em 2024, o Brasil comprou US$ 63 bilhões em produtos chineses, a maioria composta por bens de alto valor agregado como painéis solares e veículos elétricos.
Alternativas e diversificação: um desafio para o Brasil

Apesar da intensificação da relação com a China, especialistas apontam a necessidade urgente de diversificação de mercados. José Augusto de Castro destaca que, atualmente, o Brasil não conseguiria substituir o mercado chinês de forma rápida, sem alterações estruturais internas.
“Hoje, a dependência que o Brasil tem da China é porque você não consegue, de uma hora para a outra, criar um novo mercado que permita a você exportar um certo produto sem fazer muita alteração interna”, explica.
Além disso, o ex-chanceler Celso Amorim, hoje assessor especial da Presidência, alerta: “Não queremos depender só da China. Nem é bom para a China.”
Entre o pragmatismo e o risco estratégico
A parceria comercial entre Brasil e China trouxe benefícios inegáveis, mas também expôs vulnerabilidades estruturais. A busca por novos mercados, o estímulo à industrialização e a valorização de cadeias produtivas internas aparecem como caminhos para diminuir os riscos de uma dependência excessiva.
Mais do que classificar a relação como dependência ou complementaridade, o importante é que o Brasil desenvolva políticas para ampliar seu leque de parceiros e produtos exportados. O fortalecimento de uma economia menos concentrada é, no fim das contas, uma estratégia de soberania.
Com informações de: G1
