No primeiro semestre de 2025, o café se consolidou como o terceiro produto mais exportado pelo Brasil para os Estados Unidos, com um total de US$ 1,16 bilhão em receitas. Agora, diante do aumento recorde no preço do café no mercado americano e dos acenos diplomáticos recentes, o produto pode ganhar um status estratégico nas negociações comerciais entre Brasil e EUA, e tornar-se a chave para a remoção de barreiras tarifárias.
Café entra na pauta Brasil-EUA como item estratégico para livrar tarifas
Brasil tenta isenção do café nos EUA após queda de 23% nas exportações; produto pode destravar novos acordos comerciais.
A queda de 23% nas exportações de café para os Estados Unidos em outubro, impulsionada pelas tarifas adicionais de 40%, gerou preocupação em Brasília. Mas também abriu espaço para uma oportunidade: recolocar o café como símbolo da reaproximação econômica entre os dois países.
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Café como “bola da vez” nas negociações comerciais
Interlocutores do setor agroexportador e do Itamaraty revelam que o governo Lula preparou duas propostas formais para a isenção de tarifas sobre o café, que serão apresentadas aos negociadores norte-americanos. A ideia é aproveitar o momento de inflação alta no setor cafeeiro nos EUA para argumentar que a abertura ao café brasileiro pode aliviar a pressão sobre o consumidor americano.
Segundo fontes diplomáticas, o Ministério das Relações Exteriores enxerga no produto um “ponto de intersecção” entre os interesses brasileiros e americanos. O próprio governo tem reforçado aos produtores que essa pode ser a “melhor janela de negociação desde 2021”.
Encontro entre chanceler Mauro Vieira e Marco Rubio marca ofensiva diplomática
Na quinta-feira, 13 de novembro, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, se reuniu com o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, para avançar na pauta comercial. Ambos estarão acompanhados de negociadores comerciais de alto escalão e discutirão, entre outros temas, a situação do café.
A reunião ganha relevância estratégica após os acenos feitos pelo ex-presidente Donald Trump — atual favorito na corrida republicana — ao presidente Lula, durante encontro informal na Malásia. Trump afirmou que está “avaliando a redução das tarifas de importação de café”, sem, no entanto, especificar os países beneficiados.
🇺🇸 Cenário favorável: O Brasil responde por cerca de 30% do volume total de café importado pelos EUA, o que o coloca em posição privilegiada para ser incluído em eventual corte tarifário.
EUA enfrentam escalada nos preços e escassez de oferta
Inflação do café afeta consumidor americano
Nos últimos 12 meses, o preço médio do café nos Estados Unidos saltou 41%, alcançando R$ 106 por quilo (equivalente a cerca de US$ 20), segundo dados de mercado. O aumento foi impulsionado por:
- Tarifas de 40% sobre importações brasileiras, aplicadas em 2021
- Dependência quase total de café importado (os EUA não têm produção interna relevante)
- Problemas climáticos em outros países fornecedores, como Vietnã e Etiópia
Essa combinação tem pressionado o consumidor americano e alimentado pressões internas para reavaliar barreiras comerciais que afetam produtos de consumo cotidiano.
Impactos para o Brasil: entre perdas e oportunidades
Exportações caíram, mas receita geral do setor subiu
Embora as exportações totais de café tenham crescido ao serem redirecionadas para novos mercados como Alemanha, Coreia do Sul e Arábia Saudita, os embarques para os Estados Unidos caíram 23% apenas em outubro, indicando que as tarifas seguem sendo um entrave importante para o principal destino da commodity.
Apesar disso, o Brasil segue como:
- Maior produtor mundial de café
- Segundo maior exportador por valor, atrás apenas do Vietnã
- Referência em cafés especiais e orgânicos, cada vez mais valorizados nos EUA
☕ Retomar o mercado americano com tarifas zero pode gerar um salto adicional de 20% na exportação em 2026, segundo estimativas da Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café).
O histórico das tarifas americanas sobre o café brasileiro
As tarifas adicionais de 40% sobre o café brasileiro foram implementadas em 2021, durante a gestão de Joe Biden, como parte de uma política de proteção a produtores locais e de retaliação a subsídios agrícolas brasileiros.
Desde então, diversas tentativas de negociação esbarraram em impasses técnicos e políticos. Com a mudança no cenário de preços e a aproximação eleitoral nos EUA, o tema volta ao radar com nova força.
Os dois cenários de isenção propostos pelo Brasil:
- Isenção total para café verde (em grão cru), não torrado – voltado à indústria americana de torrefação
- Isenção parcial para cafés processados e especiais – com tarifas reduzidas para produtos de maior valor agregado
Ambas as propostas seriam implementadas por um período de 12 meses, com possibilidade de renovação e revisão.
Café como porta de entrada para acordos mais amplos
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Repercussão política nos dois lados
A sinalização de isenção do café pode abrir espaço para discussões mais amplas sobre:
- Redução de tarifas sobre aço e alumínio brasileiros
- Cooperação bilateral em temas de segurança alimentar
- Participação do Brasil em cotas preferenciais de exportação agrícola para os EUA
- Discussões sobre energia limpa e bioeconomia, já que o café é símbolo da agricultura de baixo carbono
O Instituto Pensar Agro, ligado à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), já defendeu que o café pode ser “produto âncora” de uma nova fase comercial com os EUA, abrindo caminho para outros itens, como frutas tropicais e açúcar.
Visão dos produtores e do mercado interno
Expectativa positiva, mas com cautela
Produtores brasileiros acompanham com otimismo as movimentações diplomáticas, mas ainda tratam a possibilidade de isenção com cautela. Segundo a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), o ideal seria um acordo permanente e institucionalizado, com previsibilidade para investimentos.
🎙️ “O café já tem competitividade natural. Com tarifas menores, nossa vantagem só aumenta”, diz Paulo Andrade, produtor do Cerrado Mineiro.
A preocupação maior está em garantir que eventuais cotas não limitem os embarques e que os padrões fitossanitários exigidos pelos EUA não sejam usados como barreiras técnicas.
Reações internacionais e concorrência global
Vietnã e Colômbia acompanham negociações
Outros países exportadores de café, como Vietnã, Colômbia e Etiópia, observam com atenção os desdobramentos. A possível redução de tarifas para o Brasil pode alterar a competitividade do mercado mundial e forçar ajustes nos acordos bilaterais desses países com os EUA.
No entanto, o Brasil lidera em volume, diversidade e qualidade, o que o coloca em posição privilegiada para ocupar espaço.
Imagem: Freepik
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