Nos últimos meses, empresas como iFood e Nubank passaram a ocupar um papel incomum no debate público brasileiro: o de antagonistas em discursos políticos e econômicos.
Governo amplia atenção sobre iFood e Nubank
Entenda por que empresas como iFood e Nubank viraram alvo político e o impacto disso na economia brasileira.
De um lado, o ministro Guilherme Boulos criticou o modelo de negócios do iFood, associando a empresa a problemas estruturais nas relações de trabalho. De outro, o ex-ministro Fernando Haddad apontou as fintechs como o Nubank como exemplos de empresas que, supostamente, pagariam menos tributos que bancos tradicionais — uma afirmação que especialistas do setor consideram controversa.
Mas o que há em comum entre essas empresas? Ambas são brasileiras, cresceram com base em tecnologia, ganharam escala rapidamente e possuem potencial de internacionalização. Em outro momento da história econômica, seriam chamadas de “campeões nacionais”.
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O que foram os “campeões nacionais”
Política econômica baseada em apoio estatal
O conceito de campeões nacionais ganhou força no Brasil principalmente entre os anos 2000 e início da década de 2010. A ideia era simples: o governo escolheria empresas estratégicas para apoiar, com o objetivo de transformá-las em grandes multinacionais brasileiras.
Esse apoio ocorria por meio de:
- Crédito subsidiado via BNDES
- Benefícios fiscais
- Regulação favorável
- Proteção contra concorrência internacional
Empresas como JBS e Odebrecht tornaram-se símbolos dessa política.
Inspiração internacional
O modelo teve forte inspiração em países como a Coreia do Sul, onde conglomerados industriais (chaebols) foram impulsionados pelo Estado e se tornaram líderes globais.
A expectativa era que o sucesso dessas empresas gerasse empregos, inovação e crescimento econômico sustentável no Brasil.
Da valorização à desconfiança
Mudança de narrativa
O cenário atual mostra uma inflexão importante: empresas que poderiam ser vistas como novos campeões nacionais passaram a ser tratadas com desconfiança ou até como problemas estruturais.
No caso do iFood, o foco recai sobre:
- Relações de trabalho com entregadores
- Debate sobre vínculo empregatício
- Impactos na informalidade
Já no caso do Nubank, o debate envolve:
- Tributação de fintechs
- Concorrência com bancos tradicionais
- Regulação do sistema financeiro
Essa mudança de percepção levanta uma questão central: por que empresas inovadoras passaram a ser vistas como “vilãs”?
O conceito de “perdedores nacionais”
Uma inversão de lógica
O termo “perdedores nacionais” surge como uma provocação: em vez de promover empresas com potencial global, o ambiente regulatório e político pode acabar limitando seu crescimento.
Isso ocorre quando:
- Há aumento de carga regulatória sem adaptação ao modelo digital
- A tributação se torna um desincentivo à inovação
- O discurso público gera insegurança jurídica
Na prática, o risco é transformar empresas competitivas em negócios menos eficientes ou menos inovadores.
Contradições no ambiente econômico
Abertura seletiva ao capital estrangeiro
Um dos pontos mais debatidos é a aparente contradição entre criticar empresas nacionais e, ao mesmo tempo, abrir espaço para concorrentes estrangeiros.
No setor de delivery, por exemplo, empresas internacionais vêm entrando no mercado brasileiro, muitas vezes com práticas agressivas de expansão. Algumas já realizaram cortes de pessoal pouco tempo após iniciar operações.
Isso levanta um questionamento relevante: o Brasil está criando barreiras para seus próprios players enquanto facilita a entrada de competidores externos?
Impactos no emprego e nos juros
As decisões regulatórias podem ter efeitos indiretos importantes:
- Regulamentação mais rígida de aplicativos pode afetar a geração de renda para milhões de trabalhadores
- Mudanças na tributação de fintechs podem impactar a concorrência bancária e, potencialmente, o custo do crédito
Segundo dados do Banco Central do Brasil, a entrada de fintechs aumentou a competitividade no setor financeiro, contribuindo para a redução de tarifas e ampliação do acesso a serviços bancários.
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Tecnologia, inovação e resistência estrutural
Empresas digitais enfrentam mais resistência?
Há uma hipótese recorrente no debate: empresas baseadas em tecnologia enfrentam maior resistência por desafiarem modelos tradicionais.
Diferentemente das indústrias clássicas, essas empresas:
- Operam com ativos digitais
- Escalam rapidamente
- Redefinem relações de trabalho e consumo
Isso pode gerar conflitos com estruturas regulatórias pensadas para outro contexto econômico.
Concorrência com setores tradicionais
Outro fator relevante é o impacto dessas empresas sobre setores já estabelecidos. Aplicativos de entrega, por exemplo, competem indiretamente com:
- Varejo físico
- Restaurantes tradicionais
- Setores intensivos em mão de obra formal
Essa competição pode intensificar pressões por regulação mais rígida.
O desafio de equilibrar regulação e inovação
Nem vilãs, nem intocáveis
O debate sobre iFood e Nubank revela um dilema clássico: como regular novas tecnologias sem sufocar a inovação?
Por um lado, há demandas legítimas por:
- Proteção trabalhista
- Equidade tributária
- Regras claras de mercado
Por outro, medidas mal calibradas podem:
- Reduzir investimentos
- Frear a inovação
- Limitar o crescimento econômico
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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