O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) iniciou, nesta terça-feira (24.02), em Brasília, um curso estratégico de formação para agentes estaduais responsáveis pela implementação do Protocolo Brasil Sem Fome. A capacitação segue até quinta-feira (26.02) e marca mais uma etapa na consolidação de uma política pública que busca identificar, priorizar e acompanhar famílias em risco de insegurança alimentar em todo o país.
Brasil Sem Fome entra em nova fase e pode apertar fiscalização; entenda
MDS capacita agentes estaduais para aplicar o protocolo Brasil sem fome e integrar SUS, SUAS e Sisan no combate à insegurança alimentar.
A iniciativa reforça o papel do governo federal na articulação entre diferentes sistemas públicos, promovendo integração de dados, padronização de fluxos e atuação coordenada nos territórios.
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O que é o protocolo Brasil sem fome
O Protocolo Brasil Sem Fome é um instrumento de gestão pública que organiza procedimentos e define responsabilidades entre três grandes estruturas do Estado brasileiro:
- Sistema Único de Saúde (SUS)
- Sistema Único de Assistência Social (SUAS)
- Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan)
Na prática, o protocolo estabelece fluxos integrados de atendimento e determina como os órgãos devem compartilhar informações para localizar famílias em situação de vulnerabilidade alimentar.
Segundo a secretária extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do MDS, Valéria Burity, o diferencial do protocolo está na metodologia estruturada. A identificação das famílias ocorre por meio da Triagem para Risco de Insegurança Alimentar (Tria), aplicada dentro do SUS.
Como funciona a triagem pelo SUS
A Triagem para Risco de Insegurança Alimentar (Tria) é aplicada nas unidades de saúde, especialmente na atenção primária. Profissionais do SUS fazem perguntas padronizadas que avaliam se a família enfrenta dificuldade de acesso regular e suficiente a alimentos.
Cruzamento com o cadastro único
O ponto central da estratégia é o cruzamento das informações da Tria com o Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico). Esse banco de dados reúne informações socioeconômicas das famílias de baixa renda no Brasil.
Quando o sistema identifica uma família com risco alimentar e que ainda não está inserida em políticas públicas prioritárias, o protocolo permite:
- Priorizar o acesso a benefícios sociais
- Direcionar atendimento pelo SUAS
- Integrar ações de segurança alimentar pelo Sisan
- Avaliar inclusão ou atualização no Bolsa Família
De acordo com o MDS, a Tria já foi aplicada a mais de 24 milhões de famílias no país. Os dados estão sendo cruzados com o CadÚnico para permitir identificação objetiva dos casos mais urgentes.
Brasil fora do mapa da fome: o que isso significa
O Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Isso significa que menos de 2,5% da população está em situação de subalimentação crônica.
A saída do mapa não elimina o problema, mas indica melhora nos indicadores nacionais. O desafio atual é localizar grupos específicos que permanecem invisíveis nas estatísticas agregadas, especialmente em áreas periféricas urbanas, comunidades rurais isoladas e populações tradicionais.
Nesse contexto, o Protocolo Brasil Sem Fome atua como ferramenta de focalização.
Estrutura do curso de formação
A capacitação promovida pelo MDS foi estruturada em três dias, com abordagem técnica e operacional.
Primeiro dia: fundamentos e instrumentos
No primeiro dia, os agentes debateram:
- Estrutura do Sisan
- Marcos de referência do protocolo
- Papel da participação social
- Funcionamento da Tria no SUS
- Uso do Cadastro Único
- Portfólio da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sesan)
O objetivo foi alinhar conceitos e padronizar procedimentos entre os estados.
Segundo dia: programas integrados
No segundo dia, os participantes conheceram programas federais que podem ser acionados após a identificação do risco alimentar, como:
- Bolsa Família
- Acredita no Primeiro Passo
- Pé-de-Meia
Também foram discutidas estratégias de trabalho social com famílias em situação de vulnerabilidade.
Um dos destaques foi a construção da Cartografia de Respostas Locais, ferramenta que mapeia serviços públicos disponíveis em cada território, como restaurantes populares, cozinhas solidárias, bancos de alimentos e centros de referência da assistência social (CRAS).
Terceiro dia: fluxo integrado e priorização
No último dia, o foco foi a construção do fluxo de atendimento integrado. Os agentes trabalharam:
- Estratégias de priorização
- Integração entre SUS, SUAS e Sisan
- Uso do sistema CadInsan
- Procedimentos de adesão e permanência no Sisan
- Planejamento de implementação nos estados
Essa etapa é considerada crucial para evitar fragmentação de políticas públicas.
Impacto direto para estados e municípios
O protocolo não é apenas uma diretriz federal. Ele depende da adesão e operacionalização por estados e municípios.
Na prática, quando um agente de saúde identifica uma família com insegurança alimentar:
- A informação é registrada na Tria.
- O dado é cruzado com o CadÚnico.
- A assistência social é acionada.
- Programas complementares são avaliados.
- A rede de segurança alimentar é mobilizada.
Esse fluxo reduz o risco de que famílias fiquem sem atendimento por falta de comunicação entre órgãos.
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Para municípios menores, a padronização ajuda a organizar melhor recursos já existentes, como cestas emergenciais, cozinhas comunitárias e programas de transferência de renda.
Integração como estratégia de política pública
Especialistas em políticas sociais apontam que um dos principais gargalos históricos no combate à fome é a fragmentação de dados. Saúde, assistência social e segurança alimentar muitas vezes operam com sistemas distintos.
O Protocolo Brasil Sem Fome atua justamente nessa lacuna, criando interoperabilidade entre bases de dados e definindo responsabilidades claras.
Essa abordagem fortalece a lógica intersetorial prevista na Constituição Federal e na Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional.
Desafios na erradicação da fome
Apesar dos avanços, o cenário exige atenção constante. A insegurança alimentar pode ser agravada por:
- Desemprego ou informalidade
- Endividamento das famílias
- Aumento no custo de alimentos
- Eventos climáticos extremos
A focalização é essencial para alcançar grupos invisíveis, como pessoas em situação de rua, migrantes internos e comunidades isoladas.
A secretária Valéria Burity destacou que o protocolo oferece método, informação e capacidade de direcionamento, mas depende de execução efetiva nos territórios.
O que muda para a população
Para o cidadão, o impacto pode ser percebido de forma indireta, mas concreta. A aplicação da Tria no SUS amplia a chance de que a vulnerabilidade alimentar seja identificada mesmo quando a família não procura diretamente a assistência social.
Exemplo prático: uma mãe que leva o filho à unidade básica de saúde pode, durante o atendimento, responder à triagem e ter sua situação registrada. Se o sistema identificar risco alimentar, a rede de assistência pode ser acionada automaticamente.
Essa integração reduz barreiras burocráticas e amplia o acesso a direitos.
Perspectivas para os próximos meses
Com a capacitação dos agentes estaduais, a expectativa do MDS é acelerar a implementação do protocolo nos territórios. O planejamento inclui:
- Expansão da aplicação da Tria
- Ampliação da integração de dados
- Monitoramento contínuo pelo CadInsan
- Fortalecimento da participação social no Sisan
O objetivo declarado é avançar não apenas na redução, mas na erradicação da fome no país.
A estratégia combina transferência de renda, articulação intersetorial e mapeamento territorial, reforçando a capacidade do Estado de atuar de forma preventiva e direcionada.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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