O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, afirmou nesta quinta-feira que o governo brasileiro deveria adotar um tom mais brando nas discussões sobre o Brics e o dólar.
Líder da Fiemg defende postura mais suave do Brasil sobre Brics e dólar
Presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, pede tom mais brando do Brasil sobre Brics e dólar e defende foco interno para enfrentar tarifas dos EUA.
Segundo ele, a medida é importante para preservar relações comerciais e evitar retaliações que possam afetar a indústria nacional.
Em declarações após uma reunião com o vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, Roscoe alertou para os riscos econômicos e diplomáticos decorrentes de uma postura mais agressiva por parte do Brasil no debate sobre a desdolarização.
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Crise diplomática entre EUA e Brics acende sinal de alerta no setor industrial

A tensão com os Estados Unidos
Recentemente, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que voltou a ser figura central nas discussões eleitorais do país, intensificou a retórica contra os países do Brics — bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
Trump sugeriu a imposição de uma tarifa de 10% sobre produtos originários do grupo.
Trump acusa os membros do Brics de estarem articulando para enfraquecer a dominância global do dólar nas transações internacionais, especialmente após os anúncios de acordos de comércio intrabloco em moedas locais.
Impacto das ameaças comerciais
A ameaça de tarifas punitivas a partir de 1º de agosto preocupa setores produtivos brasileiros, principalmente indústrias exportadoras de aço, minério de ferro, alimentos e produtos manufaturados.
Caso implementada, a medida pode impactar bilhões em receitas de exportação, além de comprometer investimentos e postos de trabalho.
Fiemg pede cautela e moderação diplomática
Roscoe critica discurso isolado do Brasil
Segundo Flávio Roscoe, enquanto países como Índia e China têm mantido uma postura discreta sobre o tema, o Brasil continua emitindo sinais que podem ser interpretados como hostis por Washington.
“O Brasil pode adotar eventualmente um tom mais brando com relação ao Brics, com relação ao dólar, e isso é determinante”, afirmou o presidente da Fiemg, alertando que a diplomacia econômica deve ser guiada pelo pragmatismo, não pela ideologia.
Custo do embate pode recair sobre a indústria
Roscoe defende que o governo federal aja com mais estratégia para evitar consequências econômicas graves. “Nossa preocupação é com a manutenção dos mercados internacionais e com a proteção da nossa indústria. Um discurso mal calibrado pode custar caro para o país”, declarou.
Medidas paliativas para enfrentar possível tarifa dos EUA
Governo e setor privado em diálogo
A Fiemg informou que já discute com o governo medidas paliativas para enfrentar os efeitos de uma eventual tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos EUA. Embora ainda se espere uma reversão ou adiamento da medida, Roscoe admite que o cenário exige ações imediatas.
Fortalecimento do mercado interno como alternativa
Para o dirigente industrial, uma das saídas viáveis é fortalecer o consumo interno. “O crédito é relevante, mas o que resolve o problema é mercado.
E nós temos um importante mercado aqui no Brasil. É mais rápido você agir em cima do mercado brasileiro do que conquistar mercado lá fora, que são negociações de longo prazo”, explicou.
Propostas para proteger a indústria nacional
Combate à concorrência desleal e ao dumping
Roscoe destaca a entrada massiva de produtos importados com preços abaixo do praticado no Brasil como uma ameaça adicional à indústria nacional.
“Não estamos solicitando nenhuma medida unilateral. Se há uma invasão de produtos com dumping, você impõe uma sobretaxa. Essa é uma ação efetiva e prevista nas regras internacionais de comércio”, afirmou.
Exemplo do setor siderúrgico
Um dos setores mais afetados é o do aço. Segundo a Fiemg, produtos siderúrgicos estão sendo importados por preços inferiores ao custo de produção nacional, colocando em risco a competitividade de empresas brasileiras.
A entidade defende a aplicação de salvaguardas comerciais nesses casos, conforme as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Brics, dólar e o novo papel do Brasil na geopolítica comercial
Crescente pressão por transações em moedas locais
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Desde 2023, os países do Brics têm intensificado debates sobre aumentar as transações comerciais entre si utilizando moedas locais, como o yuan chinês ou o real brasileiro, como forma de reduzir a dependência do dólar.
Embora o movimento tenha apoio de países como Rússia e China, a resistência dos Estados Unidos gerou tensões diplomáticas e econômicas.
Oportunidades e riscos para o Brasil
Para especialistas em relações internacionais, o Brasil pode se beneficiar ao diversificar suas parcerias comerciais e reduzir a dolarização, mas o processo exige cautela para não romper com mercados tradicionais.
“A neutralidade pragmática é a melhor estratégia neste momento. O Brasil deve defender seus interesses econômicos sem provocar choques geopolíticos”, avalia o economista Bruno Cosenza, professor da USP.
O desafio de conciliar política externa com interesses industriais

A diplomacia deve servir ao desenvolvimento econômico
O recado da Fiemg é claro: o setor produtivo espera que a política externa seja utilizada como instrumento de promoção do crescimento e não de tensionamento desnecessário com grandes potências.
“Não estamos pedindo submissão, mas racionalidade. O foco tem que ser em empregos, produção e segurança jurídica para os investimentos”, reforçou Roscoe.
Papel do governo federal será decisivo
Com a aproximação do prazo para implementação das tarifas norte-americanas, o papel do governo brasileiro será decisivo.
A capacidade de negociar, propor alternativas e preservar mercados será posta à prova, especialmente diante da crescente complexidade do cenário global, marcado por protecionismo, reorganização de cadeias produtivas e volatilidade monetária.
Conclusão: equilíbrio é a palavra-chave
O Brasil caminha em uma encruzilhada entre o fortalecimento da cooperação com os países emergentes e a preservação de laços históricos com parceiros tradicionais, como os Estados Unidos.
A defesa de um “tom mais brando” nas negociações sobre Brics e dólar, como propõe a Fiemg, aponta para uma abordagem mais equilibrada, orientada pela lógica econômica.
Neste momento delicado para o comércio internacional, a capacidade do país de dialogar com diferentes blocos e adaptar sua estratégia às realidades geopolíticas será determinante para evitar perdas econômicas significativas.
Como afirmou Flávio Roscoe, proteger o mercado interno e agir com pragmatismo é mais urgente do que confrontar gigantes em nome de discursos simbólicos.
