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Brics discute integração de pagamentos e projeto já é comparado ao Pix

Brics avalia conectar pagamentos instantâneos e moedas digitais de bancos centrais para reduzir custos em transferências internacionais.

Jessica CassanaPor Jessica Cassana··10 min de leitura
Brics discute integração de pagamentos e projeto já é comparado ao Pix

Os países que integram o Brics estão discutindo novas formas de conectar seus sistemas financeiros para facilitar pagamentos internacionais. Entre as possibilidades estão a integração de sistemas de pagamentos instantâneos e a utilização das moedas digitais emitidas pelos próprios bancos centrais, conhecidas pela sigla CBDC.

As discussões foram confirmadas pelo presidente do Reserve Bank of India (RBI), Sanjay Malhotra, durante evento realizado em Mumbai. Segundo ele, pagamentos transfronteiriços são uma área de interesse comum entre os integrantes do bloco devido ao potencial para reduzir os custos das operações internacionais.

As alternativas, entretanto, ainda estão em fase de discussão. Portanto, não existe neste momento um novo sistema de pagamentos do Brics pronto para substituir os mecanismos utilizados atualmente.

A pauta ganha relevância em 2026 porque a Índia exerce a presidência rotativa do Brics e deverá conduzir parte das discussões sobre maior integração financeira entre seus membros.

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O que o Brics está discutindo?

pagamentos
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

Uma das principais questões envolve a conexão entre os sistemas de pagamentos rápidos já utilizados pelos diferentes países.

O Brasil possui o Pix, enquanto a Índia conta com a Unified Payments Interface (UPI). Outros integrantes do Brics desenvolveram suas próprias infraestruturas e soluções para transferências eletrônicas.

A ideia em discussão é encontrar maneiras de aumentar a interoperabilidade entre esses sistemas, principalmente nas operações que atravessam fronteiras.

Segundo Malhotra, existem várias possibilidades sendo avaliadas.

Entre elas estão tanto a integração dos sistemas de pagamentos rápidos quanto o uso de moedas digitais de bancos centrais.

O objetivo é tornar as transferências internacionais mais eficientes e reduzir custos.

O que isso poderia significar para o Pix?

Para o brasileiro, uma das primeiras dúvidas é se as discussões poderiam levar o Pix a funcionar diretamente em outros países do Brics.

Essa possibilidade não deve ser tratada como algo já aprovado.

O que está em debate é a integração entre sistemas nacionais de pagamentos rápidos. Dependendo do modelo escolhido no futuro, isso poderia facilitar operações internacionais utilizando infraestruturas semelhantes às empregadas em transferências instantâneas domésticas.

Isso é diferente de simplesmente afirmar que o Pix passará a funcionar na Índia, China ou Rússia.

Qualquer integração desse porte depende de acordos, padrões tecnológicos, regras cambiais, mecanismos de liquidação e exigências regulatórias.

Por que integrar sistemas de pagamentos?

Transferir dinheiro entre países costuma ser mais complexo do que realizar uma operação doméstica.

Uma transferência internacional pode envolver bancos correspondentes, conversão cambial, diferentes sistemas de compensação e outras etapas.

Cada intermediário pode acrescentar custos e aumentar o tempo necessário para concluir a operação.

Uma infraestrutura mais integrada poderia diminuir algumas dessas etapas.

Esse é um dos motivos pelos quais sistemas de pagamentos instantâneos despertam interesse crescente para operações internacionais.

No Brasil, o Pix demonstrou como uma infraestrutura digital pode permitir transferências e pagamentos em poucos segundos durante 24 horas por dia.

O desafio é reproduzir parte dessa eficiência quando pagador e recebedor estão em países diferentes.

O que são as CBDCs discutidas pelo Brics?

CBDC é a sigla em inglês para Central Bank Digital Currency, ou moeda digital de banco central.

Trata-se de uma representação digital da moeda oficial emitida ou respaldada pela autoridade monetária de determinado país.

Ela não deve ser confundida automaticamente com criptomoedas como Bitcoin.

Criptomoedas descentralizadas não possuem um banco central responsável por sua emissão. Uma CBDC, por outro lado, integra a infraestrutura monetária oficial de um país.

Diferentes bancos centrais vêm pesquisando e testando modelos de moedas digitais.

A Índia, por exemplo, possui um projeto de rupia digital desenvolvido pelo Reserve Bank of India.

Índia quer colocar integração de CBDCs na agenda

A possibilidade de conectar moedas digitais de bancos centrais já vinha sendo discutida antes das declarações de Malhotra.

Informações divulgadas pela Reuters no início de 2026 apontaram que o banco central indiano recomendou ao governo incluir uma proposta de interligação das CBDCs dos países do Brics na agenda da cúpula realizada sob a presidência da Índia.

A proposta estaria relacionada principalmente à utilização das moedas digitais em pagamentos internacionais.

Agora, as declarações do presidente do RBI reforçam que diferentes alternativas continuam sendo avaliadas, mas sem uma definição final.

Brics vai criar uma moeda única?

As discussões sobre CBDCs e pagamentos rápidos não significam que o Brics esteja criando uma moeda única.

Essa distinção é fundamental.

Uma eventual integração permitiria que moedas nacionais continuassem existindo, mas fossem utilizadas de maneira mais eficiente nas transações entre os países.

Brasil poderia continuar utilizando o real; Índia, a rupia; China, o yuan; e assim por diante.

A integração tecnológica de meios de pagamento é diferente da criação de uma moeda comum.

Uma moeda única exigiria um grau muito maior de coordenação monetária e econômica.

Uso de moedas locais também está no radar

Além das CBDCs, a Índia pretende continuar estimulando a utilização de moedas nacionais em operações internacionais.

Malhotra afirmou que o Reserve Bank of India continuará trabalhando para ampliar a internacionalização da rupia e incentivar o uso de moedas locais no comércio e em pagamentos transfronteiriços.

Esse movimento acompanha uma discussão mais ampla entre economias emergentes sobre como reduzir custos e diversificar os instrumentos disponíveis nas transações comerciais.

Imagine uma empresa indiana comprando mercadorias de uma companhia de outro país.

Em determinados modelos tradicionais, a operação pode utilizar uma moeda intermediária para posteriormente realizar as conversões necessárias.

Sistemas que permitam maior utilização das moedas locais podem mudar parte dessa dinâmica.

Integração não significa fim do dólar

Outro cuidado necessário está na interpretação das discussões.

Projetos destinados a ampliar pagamentos em moedas locais ou integrar infraestruturas financeiras não significam automaticamente o abandono do dólar nas relações comerciais.

A moeda norte-americana continua exercendo papel central no sistema financeiro internacional, incluindo reservas, comércio, investimentos e operações cambiais.

Os países do Brics podem buscar alternativas para determinadas transações sem que isso represente a substituição imediata da moeda americana.

O impacto dependerá da escala, adesão e funcionamento dos mecanismos que eventualmente forem implementados.

Por que a Índia tem interesse nessa integração?

A Índia possui uma das infraestruturas de pagamentos digitais mais desenvolvidas do mundo.

O país utiliza a UPI, sistema de pagamentos instantâneos que alcançou grande escala no mercado doméstico e vem sendo utilizado em iniciativas internacionais.

A internacionalização dessa infraestrutura pode facilitar pagamentos de turistas, empresas e cidadãos que realizam transações com outros países.

Além disso, ampliar o uso da rupia em operações internacionais faz parte da estratégia mencionada pelo próprio presidente do banco central indiano.

Com a Índia na presidência do Brics em 2026, o país ganha espaço para colocar essas discussões na agenda do bloco.

Brasil possui experiência com pagamentos instantâneos

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

O Brasil também chega às discussões com uma infraestrutura consolidada.

O Pix foi lançado pelo Banco Central em novembro de 2020 e rapidamente se tornou um dos principais meios de pagamento utilizados no país.

O sistema permite transferências instantâneas entre pessoas, empresas e instituições financeiras.

Essa experiência coloca o Brasil entre os países que possuem tecnologia e escala relevantes para discussões internacionais sobre pagamentos rápidos.

Uma eventual conexão com outros sistemas, porém, exigiria soluções específicas para questões que não existem em uma transferência doméstica.

Câmbio é um dos desafios

Quando duas pessoas transferem reais dentro do Brasil, não existe necessidade de converter moedas.

Uma operação internacional é diferente.

Se uma empresa brasileira paga uma companhia indiana, por exemplo, surge a necessidade de determinar como ocorrerá a conversão entre real e rupia.

Também precisam ser definidos:

  • taxa de câmbio;
  • instituição responsável pela conversão;
  • momento da liquidação;
  • custos da operação;
  • regras para prevenção à lavagem de dinheiro;
  • identificação dos participantes;
  • tratamento de fraudes;
  • proteção de dados;
  • legislação aplicável.

Por isso, conectar tecnicamente dois sistemas é apenas uma parte do desafio.

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Segurança e regulação serão decisivas

Pagamentos internacionais precisam obedecer às regras financeiras dos países envolvidos.

Isso inclui mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento de atividades ilícitas, além de requisitos de identificação dos clientes.

As autoridades também precisam determinar como solucionar erros, fraudes e disputas.

Em um pagamento doméstico, normalmente existe uma estrutura regulatória única.

Quando a operação envolve dois países, diferentes legislações passam a interagir.

Uma eventual infraestrutura do Brics precisará encontrar soluções para essas diferenças.

Empresas podem ser beneficiadas

Caso as integrações avancem, empresas que mantêm relações comerciais com países do bloco podem estar entre as principais beneficiadas.

Pagamentos internacionais mais rápidos e baratos podem reduzir custos administrativos e financeiros.

Pequenas e médias empresas também poderiam se beneficiar caso os novos mecanismos tornem operações internacionais menos complexas.

Mas os efeitos dependerão do desenho final.

Não é possível afirmar que todas as transferências ficarão imediatamente mais baratas apenas porque dois sistemas estão conectados.

Taxas cambiais, impostos e custos das instituições participantes continuarão influenciando o preço final.

Turistas também poderiam sentir os efeitos

No futuro, uma integração entre sistemas de pagamentos rápidos também poderia facilitar gastos de turistas.

Um brasileiro viajando para outro país poderia, em um modelo hipotético, utilizar uma infraestrutura conectada ao sistema doméstico enquanto o comerciante recebe em sua moeda local.

Soluções semelhantes já estão sendo testadas ou implantadas em diferentes corredores internacionais de pagamentos.

No caso específico do Brics, entretanto, não existe ainda uma regra geral permitindo ao brasileiro simplesmente utilizar o Pix em todos os países integrantes.

Quais países fazem parte do Brics?

O grupo cresceu significativamente desde sua formação original.

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul deram origem à configuração conhecida pela sigla Brics, mas novos membros foram incorporados ao longo dos últimos anos.

A expansão aumentou a diversidade econômica e financeira do bloco.

Isso amplia o potencial de uma integração, mas também aumenta a complexidade.

Cada país possui sua própria moeda, legislação, infraestrutura bancária, política cambial e sistema de pagamentos.

Quanto maior o número de participantes, maior tende a ser a necessidade de criar padrões comuns.

O que falta para a integração acontecer?

As declarações do presidente do banco central indiano mostram que a discussão está ativa, mas ainda não há um modelo definitivo.

Os países precisam decidir, entre outros pontos, qual tecnologia utilizar, quais sistemas poderão participar e como ocorrerá a liquidação entre diferentes moedas.

Também será necessário definir responsabilidades das autoridades monetárias e instituições financeiras.

No caso das CBDCs, há outro desafio: os projetos encontram-se em diferentes estágios de desenvolvimento.

Portanto, uma conexão entre moedas digitais depende também da evolução das iniciativas nacionais.

Discussão pode mudar pagamentos internacionais

A integração financeira tornou-se uma das frentes mais relevantes de cooperação entre os países do Brics.

Ao colocar sistemas de pagamentos instantâneos e CBDCs entre as alternativas estudadas, o grupo busca soluções capazes de tornar transferências internacionais mais eficientes.

Para o Brasil, o debate chama atenção principalmente pela possibilidade futura de interoperabilidade envolvendo infraestruturas como o Pix.

Mas o cenário ainda exige cautela.

Não há um “Pix do Brics” oficialmente disponível, tampouco uma moeda única do bloco prestes a substituir as moedas nacionais.

O que existe em 2026 é uma discussão entre os países sobre diferentes modelos de integração, com foco declarado na redução dos custos dos pagamentos transfronteiriços.

A presidência indiana do Brics poderá determinar quanto essa agenda avançará ao longo do ano. Se as negociações evoluírem para acordos concretos, empresas, turistas e consumidores poderão futuramente encontrar formas mais rápidas e potencialmente mais baratas de movimentar dinheiro entre algumas das principais economias emergentes do mundo.

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