O cenário econômico brasileiro ficou mais complexo após a atualização das projeções do BTG Pactual para os próximos anos. O banco revisou para cima suas estimativas de inflação e dívida pública, ao mesmo tempo em que reduziu a expectativa de crescimento da economia para 2027. As mudanças refletem um ambiente marcado por pressões inflacionárias persistentes, desafios fiscais e incertezas no cenário internacional.
A nova avaliação chama a atenção porque reúne alguns dos principais fatores que influenciam o dia a dia dos brasileiros: juros, preços dos alimentos, custo do crédito, crescimento econômico e capacidade do governo de administrar as contas públicas.
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A principal revisão realizada pelo BTG ocorreu nas projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação brasileira calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo o banco, a inflação deverá encerrar 2026 em 5,3%, acima da estimativa anterior de 4,9%.
Para 2027, a projeção também foi elevada, passando de 4,2% para 4,5%.
O que está pressionando os preços?
De acordo com o relatório, um dos principais fatores por trás da revisão é a alta recente do petróleo no mercado internacional.
Quando o petróleo sobe, os impactos se espalham por diversos setores da economia:
- Aumento dos custos de transporte;
- Pressão sobre o preço do diesel;
- Elevação dos custos logísticos;
- Enc encarecimento de produtos industrializados;
- Reajustes indiretos nos preços dos alimentos.
Na prática, um caminhão mais caro para transportar mercadorias significa produtos mais caros nas prateleiras dos supermercados.
Além disso, o banco destaca que a inflação de serviços continua resistente, dificultando o retorno dos índices para patamares mais próximos da meta estabelecida pelo Banco Central.
Expectativas seguem preocupando o mercado
Outro ponto destacado é a chamada “desancoragem das expectativas”.
Esse fenômeno ocorre quando empresas, investidores e consumidores passam a acreditar que a inflação permanecerá elevada por mais tempo. Como consequência, salários, contratos e preços passam a incorporar essa expectativa, tornando o combate à inflação mais difícil.
Segundo o BTG, os riscos continuam concentrados na possibilidade de novas pressões inflacionárias tanto em 2026 quanto em 2027.
Selic pode ter apenas mais um corte
Mesmo diante da piora do cenário inflacionário, o banco manteve a expectativa de um último corte na taxa básica de juros durante a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
A previsão é de redução de 0,25 ponto percentual.
Caso isso ocorra, a taxa Selic passará para 14,25% ao ano.
Juros devem permanecer elevados por mais tempo
Após esse possível ajuste, o BTG acredita que o Banco Central deverá interromper o ciclo de cortes e manter os juros estáveis até o final de 2026.
A justificativa é simples: reduzir os juros em um ambiente de inflação persistente pode aumentar ainda mais a percepção de risco e dificultar o controle dos preços.
Para famílias e empresas, isso significa que o crédito pode continuar caro por um período mais longo, afetando financiamentos imobiliários, empréstimos pessoais e investimentos produtivos.
Dívida pública continua avançando
Além da inflação, a situação fiscal também preocupa.
O BTG revisou para cima sua estimativa para a dívida bruta do governo geral.
Agora, o banco projeta:
- Dívida equivalente a 80,9% do PIB em 2026;
- Dívida equivalente a 85% do PIB em 2027.
A revisão ocorre em meio ao aumento dos gastos parafiscais anunciados desde 2025.
O impacto dos estímulos fiscais
Segundo os cálculos da instituição, os programas e medidas adotados recentemente devem injetar aproximadamente R$ 142 bilhões na economia apenas em 2026.
Considerando todas as iniciativas anunciadas desde meados de 2025, o valor acumulado chega perto de R$ 275 bilhões.
Embora esses recursos possam estimular o consumo e sustentar a atividade econômica no curto prazo, eles também ampliam as preocupações com o equilíbrio das contas públicas.
Déficit nominal segue elevado
O banco também elevou sua preocupação com o resultado fiscal brasileiro.
A projeção indica déficit nominal equivalente a:
- 8,9% do PIB em 2026;
- 8,4% do PIB em 2027.
O déficit nominal inclui tanto as despesas do governo quanto os gastos com juros da dívida pública.
Com juros elevados e dívida crescente, a tendência é que o custo de financiamento do setor público continue pressionando as contas nacionais.
PIB deve crescer mais em 2026
Nem todas as revisões foram negativas.
O BTG elevou ligeiramente sua estimativa para o crescimento da economia brasileira em 2026.
A projeção do Produto Interno Bruto (PIB) passou de 1,9% para 2%.
O que explica a melhora?
A revisão foi motivada principalmente por:
- Resultado mais forte do primeiro trimestre;
- Mercado de trabalho resiliente;
- Consumo ainda aquecido;
- Indicadores preliminares acima do esperado.
Mesmo com juros altos, a atividade econômica brasileira tem demonstrado capacidade de resistência superior à esperada por parte dos analistas.
Crescimento deve perder força em 2027
O cenário muda quando o foco se volta para 2027.
Nesse caso, o banco reduziu a projeção de crescimento do PIB de 1,6% para apenas 1,1%.
A expectativa reflete dois fatores principais:
Juros elevados por mais tempo
Com a inflação persistente, o Banco Central teria menos espaço para reduzir a Selic.
Menor impulso fiscal
O efeito dos estímulos econômicos tende a diminuir ao longo do tempo, reduzindo a força de sustentação da atividade econômica.
Como resultado, a economia pode entrar em um período de expansão mais moderada.
Petróleo e Oriente Médio seguem no radar
O cenário internacional continua sendo uma importante fonte de preocupação para economistas e investidores.
O BTG destaca que os conflitos no Oriente Médio permanecem entre os principais riscos globais.
Especial atenção é dada ao Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de petróleo mundial.
Qualquer restrição significativa na região pode provocar novos aumentos nos preços da energia e elevar os custos de transporte em escala global.
Alta do petróleo também traz benefícios ao Brasil
Apesar dos efeitos negativos sobre a inflação, o aumento dos preços do petróleo possui um lado positivo para a economia brasileira.
Como o Brasil é um importante exportador de commodities, preços mais elevados podem ampliar a entrada de dólares no país.
Superávit comercial robusto
O BTG manteve sua previsão de superávit comercial de US$ 90 bilhões tanto para 2026 quanto para 2027.
A combinação entre exportações fortes, preços favoráveis das commodities e fluxo comercial consistente ajuda a sustentar o setor externo brasileiro.
Câmbio permanece relativamente estável

Mesmo diante das incertezas, o banco manteve sua projeção para o dólar em R$ 4,90 ao final de 2026.
A expectativa está baseada em três fatores principais:
- Forte geração de divisas pelas exportações;
- Termos de troca favoráveis;
- Diferencial de juros ainda elevado em relação a outras economias.
Para investidores, empresários e consumidores, esse cenário indica que a volatilidade cambial continuará sendo um ponto de atenção, mas sem sinalizar uma deterioração abrupta no curto prazo.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
