A relação entre grandes plataformas digitais e seus parceiros comerciais voltou ao centro do debate regulatório no Brasil. A Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) solicitou explicações ao iFood após denúncias de possíveis práticas anticompetitivas contra restaurantes que passaram a operar também em aplicativos concorrentes.
Cade pressiona iFood: investigação apura possível boicote a restaurantes no delivery
Cade cobra explicações do iFood sobre suposto boicote a restaurantes e uso de exclusividade na plataforma. Entenda o caso.
O movimento reforça a crescente preocupação das autoridades com a livre concorrência no setor de delivery, um mercado que cresceu de forma acelerada nos últimos anos e se tornou essencial para milhares de estabelecimentos — especialmente após a pandemia, quando o consumo por aplicativos se consolidou como hábito do brasileiro.
Segundo o órgão, o objetivo é entender se há mecanismos que prejudicam a competição e limitam a liberdade dos restaurantes de atuar em diferentes plataformas.
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Por que o Cade está investigando o iFood
O ofício enviado ao iFood teve origem em uma ação civil pública do Sindicato dos Bares, Restaurantes e Similares do Município de Goiânia. A entidade afirma que a empresa adotaria medidas retaliatórias contra estabelecimentos que aderem a apps concorrentes.
Entre as principais suspeitas estão:
- Ocultação do nome do restaurante nos resultados de busca
- Reclassificação indevida em categorias menos relevantes
- Desativação dentro da plataforma
- Identificação de alguns parceiros como “exclusivos”
Além disso, o Cade também citou reclamações registradas no site Reclame Aqui, onde parceiros relatam supostas punições após ingressarem em outros aplicativos.
Uso do selo “exclusivo” também entrou na mira
De acordo com o documento, ao menos duas redes — como Subway e QG Jeitinho Caseiro — teriam recebido a marcação de exclusividade no aplicativo.
Esse tipo de contrato é sensível do ponto de vista concorrencial porque pode dificultar a entrada ou expansão de rivais, especialmente em um mercado altamente concentrado.
O que diz o TCC assinado pelo iFood
O Cade monitora o cumprimento do Termo de Compromisso de Cessação (TCC) firmado com o iFood e homologado em fevereiro de 2023.
Esse acordo estabeleceu limites para contratos de exclusividade entre a plataforma e restaurantes, justamente para evitar concentração excessiva e garantir condições mais equilibradas para concorrentes.
O novo questionamento do órgão indica que o acompanhamento continua ativo — prática comum em mercados digitais, onde mudanças podem ocorrer rapidamente.
Mercado de delivery está mais competitivo
Em novembro de 2025, o Cade já havia instaurado um procedimento para observar a dinâmica competitiva do setor em cidades estratégicas, como:
- Goiânia (GO)
- Rio de Janeiro (RJ)
- Santos (SP)
- São Vicente (SP)
- São Paulo (SP)
A análise ganhou relevância com a entrada ou expansão de empresas como 99 e Keeta, que passaram a disputar espaço com o iFood.
Para especialistas em direito concorrencial, a chegada de novos players tende a beneficiar consumidores e restaurantes, desde que exista igualdade de condições.
O que o iFood respondeu
Em nota, o iFood afirmou estar em conformidade com todas as determinações do TCC e destacou que o ofício faz parte de um acompanhamento rotineiro do Cade.
A empresa também declarou que continuará à disposição para prestar esclarecimentos e reforçou seu compromisso com a transparência e o cumprimento das regras regulatórias.
Outro ponto levantado pela plataforma é que todos os restaurantes começam com acesso à base de cerca de 60 milhões de usuários.
Segundo o iFood, a visibilidade dentro do aplicativo depende de critérios objetivos, como:
- Nível de serviço
- Adequação ao perfil do consumidor
- Investimentos na plataforma
A companhia ainda afirmou que, em média, os restaurantes seguem crescendo em número de pedidos — inclusive aqueles que atuam simultaneamente em aplicativos concorrentes.
O que está em jogo para restaurantes e consumidores
O desfecho dessa apuração pode impactar diretamente o funcionamento do mercado de delivery no Brasil.
Para os restaurantes
Uma eventual confirmação de práticas anticompetitivas poderia resultar em:
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- Novas restrições contratuais
- Multas
- Mudanças no modelo de negócios
- Maior liberdade para atuar em múltiplas plataformas
Para pequenos empreendedores, essa discussão é ainda mais relevante. Muitos dependem dos aplicativos para manter o faturamento e reduzir custos com estrutura física.
Para os consumidores
Mais concorrência costuma gerar efeitos positivos, como:
- Taxas menores
- Mais promoções
- Melhor qualidade no serviço
- Maior variedade de restaurantes
Por outro lado, um mercado concentrado pode limitar escolhas e elevar custos ao longo do tempo.
Cade reforça vigilância sobre plataformas digitais
Nos últimos anos, autoridades antitruste no Brasil e no mundo passaram a observar com mais atenção o poder econômico das big techs e marketplaces.
O setor de delivery, por reunir milhões de consumidores e dados estratégicos, tornou-se uma área prioritária para fiscalização.
O pedido de explicações não significa, necessariamente, que houve irregularidade — trata-se de uma etapa inicial para coleta de informações.
Caso sejam identificados indícios mais fortes, o processo pode evoluir para uma investigação aprofundada.
O que esperar agora
O iFood deverá responder aos questionamentos do Cade dentro do prazo estabelecido. A partir dessa análise, o órgão decidirá se arquiva o caso ou se avança para novas medidas.
Enquanto isso, o episódio serve como sinal claro de que o ambiente digital brasileiro está sob vigilância regulatória crescente — especialmente quando há impacto direto na concorrência e no consumidor.
Para empresários do setor de alimentação, acompanhar essas movimentações é fundamental para entender possíveis mudanças nas regras do jogo.
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Imagem: Canva
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