A percepção de que o Brasil terá mais café disponível mudou o humor do mercado internacional. Em 10 de setembro de 2026, os contratos futuros do arábica voltaram a cair na bolsa de Nova York, pressionados por uma revisão positiva da safra nacional e pelo avanço dos embarques brasileiros.
O contrato para dezembro, usado como uma das principais referências globais, recuou 1,34% e encerrou o pregão a US$ 2,8815 por libra-peso — o equivalente a 288,15 centavos de dólar por libra.
A queda merece atenção porque o Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café. Quando o mercado identifica uma oferta brasileira maior, compradores, fundos de investimento e indústrias ajustam suas expectativas para os próximos meses.
Isso não significa, porém, que o café ficará imediatamente mais barato nos supermercados. Entre a cotação internacional e o preço encontrado pelo consumidor existem custos de câmbio, torrefação, embalagem, transporte, distribuição e impostos.
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Por que o preço do café caiu em Nova York?

A principal pressão veio da expectativa de aumento da oferta de café arábica no Brasil. Com a colheita avançada, o mercado passou a receber informações mais concretas sobre a produtividade das lavouras.
A consultoria NRP Agro elevou sua estimativa para a produção brasileira de arábica no ciclo 2026/27. A projeção passou de 44,2 milhões para 45,4 milhões de sacas de 60 quilos.
O novo número representa uma recuperação expressiva em relação às 37,5 milhões de sacas atribuídas à temporada anterior pela consultoria. Essa diferença significa que um volume maior de café poderá chegar ao mercado interno e às exportações.
A revisão foi motivada pelo desempenho acima do esperado em importantes regiões produtoras. Entre os destaques aparecem a Alta Mogiana, que abrange áreas de São Paulo e Minas Gerais, e o Cerrado Mineiro.
Quando a produtividade surpreende positivamente, o produtor colhe mais sacas em uma mesma área. Esse aumento melhora a disponibilidade do produto e reduz parte do receio de escassez que sustentava as cotações.
O que a safra brasileira representa para o mercado mundial?
O Brasil ocupa uma posição determinante na formação dos preços internacionais. Qualquer mudança relevante na produção nacional pode alterar as expectativas de oferta global.
Isso acontece porque compradores de diferentes países dependem do café brasileiro para abastecer torrefadoras, cafeterias e indústrias. Uma quebra de safra no Brasil tende a elevar os preços. Uma colheita maior, por outro lado, pode trazer alívio.
A Companhia Nacional de Abastecimento havia projetado uma safra brasileira total de 66,7 milhões de sacas em seu segundo levantamento de 2026. Esse número reúne o arábica e o café canéfora, grupo ao qual pertence o conilon.
A projeção da Conab indicava crescimento de aproximadamente 18% sobre a temporada anterior. Apenas o arábica foi estimado inicialmente em cerca de 44 milhões de sacas, beneficiado pela bienalidade positiva e pela recuperação da produtividade.
As estimativas não são necessariamente iguais porque cada instituição utiliza metodologia, período de avaliação e fontes próprias. Por isso, o mercado compara números oficiais, levantamentos privados, informações de cooperativas e dados observados durante a colheita.
O que é a bienalidade do café?
A bienalidade é uma característica comum dos cafezais, principalmente do arábica. Depois de um ano de produção elevada, a planta pode produzir menos na temporada seguinte porque utilizou grande parte de sua energia no ciclo anterior.
Em condições favoráveis, o movimento se alterna: um ano mais forte é seguido por outro mais fraco. Manejo, irrigação, podas, nutrição e novas tecnologias podem reduzir essa diferença, mas não eliminam completamente o fenômeno.
O ciclo de 2026 foi marcado por uma bienalidade considerada positiva para o arábica. Isso ajudou a sustentar a expectativa de recuperação após o desempenho mais limitado da safra anterior.
Ainda assim, a bienalidade não funciona de maneira isolada. Chuvas, temperatura, geadas, floradas e condições de desenvolvimento dos grãos podem ampliar ou reduzir o potencial produtivo.
Como funciona o preço do café na bolsa de Nova York?
Os contratos de café negociados na ICE Futures U.S., em Nova York, servem como referência internacional para o arábica.
A cotação é apresentada em centavos de dólar por libra-peso. Uma libra equivale a aproximadamente 453,6 gramas.
Quando o contrato de dezembro aparece a 288,15 centavos de dólar por libra, isso significa que o preço de referência é de US$ 2,8815 por libra-peso. Esse valor não corresponde diretamente ao preço de uma saca entregue em uma propriedade brasileira.
Para chegar ao valor recebido pelo produtor, o mercado considera outros elementos, como:
- cotação do dólar;
- qualidade e tipo do grão;
- região de produção;
- custo do transporte;
- disponibilidade local;
- diferença entre o café brasileiro e o padrão negociado na bolsa;
- prazo de pagamento;
- necessidade de compra das indústrias e exportadoras.
Por isso, duas fazendas podem receber ofertas diferentes no mesmo dia, mesmo que estejam acompanhando a mesma cotação internacional.
Por que os investidores vendem contratos quando a oferta aumenta?
Fundos e outros participantes financeiros compram e vendem contratos de acordo com suas expectativas. Quando acreditam que haverá escassez, podem ampliar as posições compradas, apostando em valorização.
Se uma safra maior começa a se confirmar, parte desses investidores encerra as compras. Outros passam a vender contratos, esperando uma queda adicional.
O processo é chamado de desmontagem de posições compradas. Na prática, o investidor que havia apostado na alta decide sair da operação ou reduzir sua exposição.
Esse comportamento pode acelerar a queda durante alguns pregões. Entretanto, não significa que o mercado tenha oferta abundante em todas as regiões ou que os riscos para as próximas safras desapareceram.
Estoques baixos ainda podem limitar a queda
Apesar da perspectiva de uma colheita brasileira maior, os estoques certificados da bolsa de Nova York permaneciam em níveis historicamente baixos em setembro.
Esses estoques são formados por lotes de café que passaram pelos critérios de qualidade da ICE e podem ser usados na liquidação dos contratos. Eles funcionam como uma indicação da quantidade efetivamente disponível dentro do sistema da bolsa.
Em setembro, os estoques estavam próximos de 220 mil sacas, um dos menores patamares em décadas. Esse volume reduzido ajuda a explicar por que as cotações ainda permaneciam elevadas, mesmo com a expectativa de crescimento da produção brasileira.
Grandes empresas do setor preparavam embarques de café do Brasil para armazéns credenciados da ICE. Se os lotes forem aprovados e certificados, a recomposição dos estoques poderá aumentar a pressão sobre os preços.
Esse cenário mostra duas forças opostas. De um lado, a safra maior e a entrada de café brasileiro favorecem a queda. Do outro, estoques ainda apertados limitam movimentos mais intensos.
A queda em Nova York reduz o preço pago ao produtor?
A cotação internacional influencia o mercado brasileiro, mas a transmissão não é imediata nem uniforme.
No dia 10 de setembro, o indicador do café arábica do Cepea recuou 1,72%, para aproximadamente R$ 1.618,91 por saca de 60 quilos. O movimento acompanhou o enfraquecimento externo, embora preços regionais possam apresentar diferenças.
O dólar tem papel decisivo nessa relação. Como o café é negociado internacionalmente na moeda norte-americana, uma valorização cambial pode compensar parte da queda na bolsa.
Imagine que a cotação do arábica recue em Nova York, mas o dólar suba diante do real. Ao converter a receita de exportação para reais, o efeito negativo pode ser menor para o vendedor brasileiro.
Também existe o diferencial de preço, conhecido no mercado como “base”. Cafés de qualidade superior, com características específicas ou certificados, podem receber valores maiores que a referência internacional.
O produtor deve vender ou esperar?
Não existe uma única decisão válida para todas as propriedades. O melhor momento depende do custo de produção, da necessidade de caixa, da qualidade do café e do volume armazenado.
Depois de uma colheita maior, o produtor pode enfrentar pressão sazonal. É o período em que uma quantidade elevada de produto chega ao mercado, aumentando a concorrência entre vendedores.
Antes de decidir, é recomendável calcular o custo por saca e definir uma margem mínima. Comparar apenas o preço atual com as máximas anteriores pode levar a decisões pouco eficientes.
Entre as estratégias possíveis estão:
- vender uma parte para cobrir despesas imediatas;
- armazenar uma parcela quando houver estrutura adequada;
- negociar entregas futuras;
- travar preços por meio de instrumentos de proteção;
- escalonar as vendas ao longo dos meses;
- acompanhar simultaneamente bolsa, dólar e mercado regional.
A armazenagem também possui custos e riscos. Manter o produto esperando uma recuperação pode gerar despesas, perda de qualidade e necessidade de capital de giro.
O que é a proteção de preço no café?
A proteção de preço, também chamada de hedge, procura reduzir o impacto das oscilações sobre a receita do produtor ou o custo da indústria.
Um cafeicultor que teme novas quedas pode fixar antecipadamente parte do preço, utilizando contratos futuros, opções ou negociações diretamente com cooperativas e compradores.
Se as cotações recuarem, a proteção ajuda a compensar a desvalorização do produto físico. Caso o preço suba, porém, o produtor poderá deixar de aproveitar integralmente a valorização na quantidade protegida.
Por esse motivo, o hedge não deve ser tratado como uma aposta para descobrir o próximo movimento do mercado. Sua função é dar previsibilidade à margem.
Operações em bolsa envolvem ajustes financeiros, garantias e risco cambial. O produtor deve conhecer as regras e buscar orientação profissional antes de contratar instrumentos que não domina.
A queda já pode baratear o café no supermercado?
O consumidor não deve esperar uma redução imediata e proporcional nas prateleiras.
O grão verde é apenas um dos componentes do preço final. A indústria ainda precisa pagar pela torrefação, moagem, embalagem, energia, transporte, distribuição e comercialização.
Além disso, empresas costumam trabalhar com estoques comprados anteriormente. Assim, o café vendido hoje no supermercado pode ter sido adquirido pela indústria quando as cotações estavam em outro patamar.
Uma tendência prolongada de queda na matéria-prima pode aliviar os custos ao longo do tempo. Mesmo assim, o repasse dependerá da concorrência, dos contratos de fornecimento, do câmbio e das demais despesas da cadeia.
O contrário também acontece: altas na bolsa nem sempre chegam imediatamente ao consumidor, embora movimentos intensos e persistentes acabem pressionando os preços.
O suco de laranja também caiu com a previsão de safra
O aumento da oferta brasileira não afetou apenas o café no pregão de 10 de setembro. Os contratos futuros do suco de laranja concentrado e congelado, conhecido pela sigla FCOJ, também recuaram.
O vencimento para novembro caiu 1,78%, para US$ 1,4375 por libra-peso. O mercado reagiu a novas estimativas para a produção de laranja no Brasil, principal exportador mundial de suco.
A lógica é semelhante à observada no café. Quando a previsão de colheita sobe, o mercado entende que haverá mais matéria-prima disponível e ajusta os contratos futuros.
Outras commodities seguiram trajetórias diferentes no mesmo pregão. O açúcar subiu 1,86%, para 19,75 centavos de dólar por libra, enquanto o algodão avançou 1,08%, para 88,22 centavos.
Esses movimentos mostram que cada produto responde a fundamentos próprios. Uma melhora na oferta de café não determina automaticamente o comportamento do açúcar, do algodão ou do cacau.
Por que o petróleo influencia o preço do açúcar?
A alta do petróleo pode tornar o etanol mais atrativo. Como as usinas brasileiras conseguem direcionar parte da cana-de-açúcar para a produção de açúcar ou de combustível, a escolha interfere na oferta mundial do adoçante.
Quando o etanol oferece uma remuneração melhor, as unidades produtoras podem aumentar sua participação no chamado mix de produção. Isso deixa menos cana disponível para fabricar açúcar.
No pregão analisado, a forte valorização do petróleo ajudou a sustentar os contratos de açúcar. O mercado também considerava a possibilidade de déficit global na temporada 2026/27.
Essa relação não aparece no café, que possui outra cadeia produtiva. Ainda assim, custos de energia e combustíveis podem influenciar transporte, beneficiamento e exportação.
A queda do café pode continuar?
O aumento da safra e a possibilidade de recomposição dos estoques da ICE criam espaço para novas baixas. O mercado, porém, continuará sensível às condições climáticas e ao ritmo das vendas brasileiras.
Entre os fatores que devem ser acompanhados estão:
- volume efetivamente produzido no Brasil;
- qualidade dos grãos colhidos;
- ritmo das exportações;
- tamanho dos estoques certificados;
- posição dos fundos de investimento;
- comportamento do dólar;
- chuvas nas regiões cafeeiras;
- desenvolvimento da próxima florada;
- produção em outros países exportadores.
O café é uma cultura de ciclo longo e bastante dependente do clima. Uma estimativa positiva para a safra atual não garante que a oferta continuará confortável no ciclo seguinte.
Chuvas insuficientes, calor excessivo ou problemas durante a florada podem mudar rapidamente as expectativas. Por isso, as cotações tendem a permanecer voláteis mesmo quando a colheita atual apresenta bons resultados.
O que acompanhar a partir de agora?
Para o produtor, o principal cuidado é não analisar apenas a cotação de Nova York. O valor recebido em reais depende também do dólar, da qualidade do lote, do diferencial regional e das despesas comerciais.
O consumidor precisa observar que uma sessão de queda não é suficiente para reduzir os preços no varejo. Esse efeito, quando acontece, exige continuidade do movimento e tempo para alcançar os estoques da indústria.
Já o mercado acompanhará quanto café brasileiro será exportado e qual parcela conseguirá entrar nos armazéns certificados da ICE.
A revisão da produção para 45,4 milhões de sacas de arábica reforçou a percepção de oferta maior. Porém, os estoques internacionais ainda reduzidos e os riscos climáticos indicam que o cenário permanece sujeito a mudanças.
Perguntas frequentes sobre o preço do café

Por que o café caiu na bolsa de Nova York?
O preço recuou principalmente porque o mercado passou a esperar uma oferta maior do Brasil. A estimativa privada para a safra de arábica foi elevada para 45,4 milhões de sacas.
Quanto estava o café em Nova York em 10 de setembro?
O contrato do arábica para dezembro encerrou o pregão a 288,15 centavos de dólar por libra-peso, equivalente a US$ 2,8815 por libra, após queda de 1,34%.
A queda na bolsa deixa o café mais barato no supermercado?
Não imediatamente. O preço ao consumidor inclui custos de torrefação, embalagem, transporte, distribuição, impostos e estoques comprados anteriormente.
Por que a produção brasileira afeta os preços mundiais?
O Brasil é o maior produtor e exportador de café. Uma mudança relevante na safra brasileira altera a quantidade disponível para os compradores internacionais.
O que significa saca de café?
A unidade comercial usada no Brasil normalmente corresponde a uma saca de 60 quilos de café. Na bolsa de Nova York, porém, a cotação é apresentada em centavos de dólar por libra-peso.
A cotação de Nova York é o valor recebido pelo produtor?
Não. O preço brasileiro também depende do câmbio, da qualidade do grão, da região, dos custos de transporte e do diferencial aplicado ao café negociado.
O produtor deve vender café depois da queda?
A decisão depende do custo por saca, da necessidade de caixa, da capacidade de armazenagem e da margem pretendida. Uma alternativa é escalonar as vendas para reduzir a exposição a um único momento.
O preço do café pode voltar a subir?
Sim. Estoques internacionais baixos, problemas climáticos, valorização do dólar ou redução da oferta podem sustentar uma recuperação das cotações.
