Enquanto milhões de aposentados e pensionistas brasileiros sofriam com descontos indevidos em seus benefícios, um dos principais beneficiários do esquema de corrupção no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) aproveitava a vida em alto estilo.
Careca do INSS fez 20 viagens internacionais enquanto esquema de fraudes corria solto
Enquanto milhões de aposentados e pensionistas brasileiros sofriam com descontos indevidos em seus benefícios, um dos principais beneficiários do esquema de cor
O empresário e lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o Careca do INSS, realizou ao menos 20 viagens internacionais entre 2023 e 2025, cruzando a Europa, os Estados Unidos e a América Latina.
Os detalhes dessas movimentações vieram à tona após a quebra de sigilo do passaporte de Antunes, autorizada a pedido da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. O levantamento, obtido com exclusividade pela imprensa, mostra um padrão de viagens que coincide com a ampliação de negócios no exterior, aquisição de imóveis de luxo e movimentações financeiras suspeitas.
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Primeiras saídas do Brasil
A primeira viagem internacional de Antonio Antunes foi registrada em maio de 2023, poucos meses após a abertura de uma de suas empresas no setor de cannabis medicinal. Na ocasião, ele permaneceu nove dias fora do Brasil.
A última saída foi em 17 de abril de 2025, rumo a Lisboa, apenas cinco dias antes da deflagração da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal (PF). O retorno aconteceu em 26 de abril, já após a operação ter exposto o esquema de fraudes.
Destinos preferidos
De acordo com os registros, os principais destinos de Antunes foram:
- Estados Unidos: Miami, Orlando e Newark.
- Europa: Lisboa, Madrid e Frankfurt.
- América Latina: Lima (Peru), Bogotá (Colômbia) e Panamá.
Lisboa se tornou um ponto recorrente, sugerindo não apenas turismo, mas também a estruturação de negócios no continente europeu.
O elo entre viagens e patrimônio oculto
Apartamento em Miami
Em fevereiro de 2024, no auge das investigações sobre fraudes no INSS, Antunes comprou um apartamento de US$ 610 mil (cerca de R$ 3,3 milhões) na Flórida, em área nobre à beira-mar.
O imóvel de pouco mais de 100 m² possui vista privilegiada para o Atlântico e fica em uma península urbana. Essa compra não havia sido identificada no relatório da Polícia Federal, o que reforça indícios de ocultação de patrimônio.
Empresas e offshores
Além do apartamento, Antunes expandiu sua rede empresarial:
- Word Cannabis: aberta em abril de 2023 em Brasília, com filiais em São Paulo, Bogotá, Miami e Lisboa.
- Candango Consulting: registrada em Porto (Portugal), em 2024, com capital de € 50 mil. O lobista detém 80% das cotas, enquanto seu filho, Romeu Antunes, controla 20% e figura como gerente.
- Dau&be Investments LLC: offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, um conhecido paraíso fiscal utilizado para esconder ativos e reduzir tributos.
Operação Sem Desconto: a queda do Careca do INSS
Prisão preventiva
No dia 12 de setembro de 2025, Antonio Antunes foi preso preventivamente. O pedido da PF apontava risco “latente” de fuga aos Estados Unidos, além de ameaças de morte a testemunhas e ocultação de bens.
A prisão ocorreu em meio ao avanço da CPMI, que já havia solicitado a quebra de diversos sigilos do lobista — bancário, fiscal e telefônico.
A CPMI do INSS
A CPMI investiga a chamada “Farra do INSS”, esquema que teria gerado bilhões em prejuízo aos cofres públicos. Entre as descobertas estão:
- uso de associações fictícias para impor descontos ilegais em benefícios;
- atuação de lobistas e políticos no controle de verbas;
- lavagem de dinheiro por meio de imóveis, empresas de fachada e viagens internacionais.
Como funcionava o esquema do INSS
Descontos ilegais em massa
A fraude consistia em descontos mensais automáticos nos benefícios de aposentados e pensionistas, sem autorização prévia. Esses valores eram direcionados a sindicatos e associações de fachada, que, por sua vez, repassavam parte dos recursos a intermediários como Antunes.
O papel de Antonio Antunes
Conhecido como “Careca do INSS”, o lobista era peça-chave no repasse dos valores desviados. Ele atuava como ponte entre associações, empresas prestadoras de serviços e políticos que davam sustentação ao esquema.
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Os impactos sobre aposentados e a economia
Milhares de vítimas
Segundo estimativas da Polícia Federal, mais de 1 milhão de aposentados e pensionistas foram atingidos pelos descontos indevidos. Muitos sequer tinham conhecimento da origem da cobrança.
O resultado foi o endividamento de famílias de baixa renda, que dependiam do benefício como principal — e muitas vezes única — fonte de sustento.
Prejuízo aos cofres públicos
Além do drama social, a fraude custou bilhões ao INSS e gerou instabilidade nas contas públicas. O esquema também provocou desconfiança generalizada nos canais de atendimento do instituto, exigindo reformas urgentes de transparência.
O futuro das investigações

Internacionalização das apurações
Com a revelação das viagens internacionais, a CPMI e a Polícia Federal devem ampliar as investigações para incluir cooperação jurídica internacional. Países como Portugal, Espanha e Estados Unidos já podem ser acionados para fornecer informações sobre empresas e imóveis ligados ao lobista.
Possíveis desdobramentos
- Confisco de bens: imóveis e contas em paraísos fiscais podem ser alvo de bloqueio.
- Novos indiciamentos: políticos e empresários que se beneficiaram do esquema podem ser responsabilizados.
- Pressão política: a CPMI deve apresentar relatório final com recomendações ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas da União (TCU).
Considerações finais
O caso do Careca do INSS simboliza um dos maiores escândalos recentes envolvendo a Previdência Social. Enquanto milhões de aposentados sofriam descontos indevidos, Antonio Antunes viajava o mundo, comprava imóveis de luxo e expandia negócios em vários continentes.
As revelações sobre suas 20 viagens internacionais reforçam a necessidade de cooperação entre países para rastrear fluxos financeiros ilícitos e responsabilizar não apenas lobistas, mas também agentes públicos e privados que deram sustentação ao esquema.
O avanço da Operação Sem Desconto e os trabalhos da CPMI do INSS devem marcar os próximos meses, revelando até onde a corrupção corroeu o sistema previdenciário brasileiro.
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