A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS retomou nesta segunda-feira (09), às 16h, uma de suas oitivas mais aguardadas: o depoimento do ex-ministro da Previdência Social Carlos Lupi, que chefiava a pasta quando a operação “Sem Desconto” foi deflagrada pela Polícia Federal (PF) em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), revelando um esquema milionário de fraudes em descontos associativos aplicados a aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Depoimento explosivo: ex-ministro revela o que sabia das fraudes no INSS
Ex-ministro Carlos Lupi depõe na CPMI do INSS sobre fraudes em descontos a aposentados investigadas na operação Sem Desconto.
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Contexto da operação “Sem Desconto”
O que revelou a investigação
Deflagrada em abril de 2024, a operação Sem Desconto teve como foco principal o desvio de valores descontados diretamente dos benefícios previdenciários de milhares de segurados do INSS. As investigações apontam que entidades sindicais e associativas cadastradas junto ao INSS realizavam cobranças indevidas por serviços não contratados, como contribuições a associações, revistas, seguros e convênios médicos.
Segundo dados da CGU, estima-se que mais de R$ 2 bilhões tenham sido desviados em uma década. Muitos beneficiários sequer sabiam que autorizavam os débitos mensais, já que as autorizações eram forjadas ou obtidas mediante fraudes.
Envolvimento de entidades e intermediários
A rede de fraudes envolveria:
- Associações de aposentados que formalmente existiam, mas funcionavam como fachada;
- Sindicatos com histórico de vínculos políticos;
- Instituições financeiras conveniadas com o INSS;
- Servidores públicos e ex-servidores, que facilitavam o registro das cobranças fraudulentas no sistema da Previdência.
O papel de Carlos Lupi no período
Declarações antes da saída do ministério
Poucos dias antes de deixar o comando do Ministério da Previdência Social, Carlos Lupi foi questionado, em audiência da Comissão de Previdência da Câmara dos Deputados, sobre o escândalo. Na ocasião, ele afirmou:
“Sabia que tinha algum descontrole, mas não conhecia a dimensão do problema.”
A declaração foi interpretada por parlamentares como uma admissão de omissão, ainda que parcial. Lupi alegou que determinou a suspensão de novas adesões de entidades suspeitas ao sistema de consignados e ordenou auditorias internas, mas a operação da PF ocorreu antes que providências mais amplas fossem adotadas.
Troca no comando da Previdência
Após a repercussão das fraudes e em meio a uma pressão política crescente, Lupi deixou o cargo em julho de 2024. Ele foi substituído pelo deputado federal Wolney Queiroz (PDT-PE), seu correligionário no PDT.
A mudança foi tratada como uma tentativa de estancar o desgaste do governo federal diante do escândalo, que abalou a confiança dos aposentados no sistema previdenciário e nas instituições que deveriam protegê-los.
Convocação pela CPMI: o que se espera do depoimento

Pedido do relator Alfredo Gaspar
O convite para o depoimento de Lupi partiu do relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), que justificou a convocação com firmeza:
“O ex-ministro detém informações imprescindíveis para ajudar no esclarecimento dos fatos, especialmente no que tange às medidas políticas e administrativas adotadas ou não pelo MPS.”
Segundo o relator, há suspeitas de falhas sistêmicas no Ministério da Previdência que permitiram a perpetuação dos descontos indevidos, e a presença de Lupi será crucial para entender quais alertas foram ignorados e quais medidas deixaram de ser tomadas.
Ponto-chave: a omissão do Estado
A CPMI busca apurar:
- Se o Ministério da Previdência já tinha sido alertado por órgãos de controle antes da operação;
- Quais relatórios internos apontavam irregularidades no sistema de consignações;
- Por que o sistema não foi reformulado, mesmo após denúncias de beneficiários.
Além disso, haverá questionamentos sobre a eventual participação de lideranças sindicais aliadas politicamente ao ex-ministro, o que poderia indicar favorecimento.
Impacto da operação nos aposentados e pensionistas
Descontos sem consentimento
A maior parte dos relatos apurados pela CGU e pela CPI do INSS envolve descontos mensais de R$ 8 a R$ 35, valores aparentemente pequenos, mas que, somados em milhões de benefícios, geravam lucros milionários para as associações envolvidas.
Em muitos casos:
- Os beneficiários não se recordavam de autorizar nenhum desconto;
- Quando procuravam o INSS, eram informados de que haviam assinado contratos;
- As supostas adesões foram feitas via biometria falsificada, contratos genéricos ou até por telefone.
Medidas de correção em curso
O Ministério da Previdência e o INSS, após a repercussão do caso, cancelaram dezenas de convênios com entidades suspeitas, e o MPF iniciou ações civis públicas para tentar recuperar os valores.
Além disso, foi lançado um canal para contestação dos descontos no aplicativo Meu INSS, mas há queixas de lentidão no processo e pouca transparência nas respostas.
Quem é Carlos Lupi?
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Trajetória política
Carlos Lupi é presidente nacional do Partido Democrático Trabalhista (PDT), tendo comandado a legenda desde 2004. Foi ministro do Trabalho entre 2007 e 2011 nos governos Lula e Dilma e, posteriormente, ocupou o Ministério da Previdência Social no terceiro governo Lula.
Conhecido por seu perfil sindicalista e alinhamento com centrais de trabalhadores, Lupi tem longa trajetória ligada às causas trabalhistas, o que torna ainda mais sensível sua convocação para esclarecer fraudes que atingem justamente aposentados — base histórica de apoio ao trabalhismo.
Polêmicas anteriores
Em 2011, Lupi foi forçado a deixar o Ministério do Trabalho após denúncias de irregularidades envolvendo ONGs conveniadas com a pasta. Agora, uma década depois, volta ao centro de outro escândalo relacionado à má gestão de recursos públicos.
O que esperar da oitiva desta segunda-feira?
Possíveis questionamentos
Durante a audiência, os parlamentares devem abordar temas como:
- Quando o Ministério teve conhecimento das denúncias?
- Por que medidas de bloqueio dos descontos não foram implementadas antes da operação da PF?
- Havia relação política com as entidades investigadas?
- Por que foi mantida a autorização automática de descontos via consignado?
- Qual o papel dos servidores do MPS e do Dataprev no processo?
Participação popular
A sessão será transmitida ao vivo pela TV Câmara e pelas redes sociais do Congresso Nacional, e poderá ser acompanhada por cidadãos interessados, especialmente por aposentados que se sentiram lesados.
Repercussões no governo e no Congresso

Pressão sobre a base aliada
O escândalo gerou críticas até de parlamentares da base governista, que consideram inaceitável que entidades vinculadas ao governo tenham se beneficiado de forma ilegal. Há também movimentações para endurecer as regras de consignações no INSS.
Propostas em tramitação
Diversos projetos de lei foram apresentados no Congresso para:
- Exigir autorização expressa e digitalizada para descontos associativos;
- Proibir descontos automáticos para serviços não previdenciários;
- Criar punições administrativas severas para entidades e servidores envolvidos.
Imagem: Wilson Dias / Agência Brasil
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