Uniformes da Casas Bahia foram queimados em frente a uma loja da rede em Bonsucesso, na zona norte do Rio de Janeiro. O ato, realizado na terça-feira (8), reuniu ex-funcionários e representantes do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro.
A cena chamou atenção, mas a principal questão está além do protesto. Trabalhadores afirmam que não receberam verbas rescisórias, não conseguiram sacar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e enfrentam dificuldades para solicitar o seguro-desemprego.
O episódio ocorre durante a recuperação judicial do Grupo Casas Bahia e em meio a uma disputa na Justiça do Trabalho sobre a legalidade das demissões coletivas. Uma decisão provisória determinou a reintegração de parte dos empregados, mas o caso ainda não teve uma solução definitiva.
Entenda o que motivou a manifestação, quais direitos estão em discussão e como a recuperação judicial pode afetar quem foi dispensado.
Leia mais:
Tesouro IPCA+ 2032 mantém juro real em mínima desde maio e chama atenção do mercado
Por que ex-funcionários da Casas Bahia realizaram o protesto?

O protesto foi organizado para cobrar uma resposta da Casas Bahia sobre os pagamentos e a situação contratual dos funcionários desligados. Como gesto simbólico, participantes queimaram antigos uniformes da rede.
O Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro afirma que aproximadamente 1.900 trabalhadores abrangidos pelas demissões coletivas continuavam sem uma solução efetiva. Alguns deles estariam recorrendo a doações e “vaquinhas” para pagar despesas básicas.
A Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC) também informou ter recebido dezenas de denúncias. Entre os problemas relatados estão:
- falta de pagamento das verbas rescisórias;
- impossibilidade de sacar o FGTS;
- dificuldade para acessar o seguro-desemprego;
- ausência de restabelecimento do vínculo;
- interrupção do plano de saúde;
- falta de informações sobre a reintegração.
Esses relatos representam a versão apresentada pelas entidades sindicais. A existência de uma denúncia não significa, por si só, que a irregularidade já foi reconhecida de maneira definitiva pela Justiça.
Quantos trabalhadores foram demitidos pela Casas Bahia?
Os números divulgados se referem a recortes diferentes da reestruturação.
O Grupo Casas Bahia informou no processo de recuperação judicial a dispensa de aproximadamente 3 mil funcionários e o fechamento de quase 300 lojas. Antes da redução, o grupo declarava possuir pouco mais de 30 mil empregados.
Já a ação trabalhista que provocou a suspensão provisória das dispensas envolve cerca de 1.900 pessoas. Por isso, os dois números aparecem nas notícias, mas não representam necessariamente uma contradição.
As demissões ocorreram principalmente entre os dias 13 e 17 de agosto de 2026. Pouco depois, a companhia entrou com pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo.
Por que a Justiça suspendeu as demissões?
A controvérsia não está apenas na decisão empresarial de cortar postos de trabalho. O principal ponto discutido é a ausência de participação sindical antes de uma dispensa coletiva de grandes proporções.
O Supremo Tribunal Federal estabeleceu, no Tema 638 de repercussão geral, que a intervenção prévia do sindicato é obrigatória em demissões em massa. Isso significa que a empresa deve abrir um processo de diálogo coletivo antes dos desligamentos.
Essa exigência não dá ao sindicato poder para proibir definitivamente as dispensas. Também não obriga a empresa a obter autorização sindical. O objetivo é permitir que as partes negociem medidas capazes de reduzir os efeitos sociais da decisão, como indenizações adicionais, extensão do plano de saúde ou programas de recolocação.
No caso da Casas Bahia, a Justiça do Trabalho entendeu inicialmente que essa etapa não teria sido observada.
O que a liminar determinou?
A decisão provisória suspendeu os efeitos das demissões coletivas e determinou a reintegração dos trabalhadores alcançados pela ação. Também previu o restabelecimento de benefícios assistenciais e impediu novas dispensas em massa sem participação sindical.
O Grupo Casas Bahia recorreu. Em 2 de setembro, o Tribunal Superior do Trabalho manteve a liminar ao rejeitar um pedido da companhia para suspender imediatamente seus efeitos.
Isso não significa que o processo terminou ou que os empregados venceram definitivamente. Uma liminar é uma decisão urgente e provisória, adotada para evitar prejuízos enquanto o mérito da ação continua sendo analisado.
Os trabalhadores devem voltar ao emprego imediatamente?
Em princípio, a ordem de reintegração determina o restabelecimento do vínculo dos empregados incluídos na decisão. Na prática, porém, a execução pode exigir comunicação formal, atualização nos sistemas da empresa e esclarecimentos sobre salários e benefícios do período.
É justamente nessa etapa que surgem parte das reclamações. Entidades sindicais afirmam que alguns funcionários não receberam instruções claras sobre retorno, lotação ou restabelecimento dos direitos.
A situação fica ainda mais complexa quando a loja onde a pessoa trabalhava foi fechada. Nesse caso, a empresa pode ter de indicar outra unidade, negociar uma alternativa ou discutir judicialmente como a ordem será cumprida.
O trabalhador abrangido pela decisão não deve simplesmente comparecer a qualquer loja sem orientação. O mais seguro é solicitar informações por escrito à empresa e ao sindicato responsável pela ação.
Recuperação judicial significa que a Casas Bahia faliu?
Não. Recuperação judicial e falência são situações diferentes.
A recuperação judicial é um mecanismo previsto na Lei nº 11.101/2005 para empresas que enfrentam uma crise financeira, mas ainda buscam continuar funcionando. Durante o processo, a companhia apresenta um plano para reorganizar dívidas e negociar com os credores.
O Grupo Casas Bahia declarou R$ 17,3 bilhões em créditos sujeitos à recuperação judicial. Desse montante, aproximadamente R$ 754 milhões estariam relacionados a credores trabalhistas.
A companhia afirmou que o processo pretende preservar suas operações, proteger o caixa e reorganizar passivos. A recuperação engloba diferentes empresas do grupo, incluindo negócios ligados às marcas Casas Bahia, Ponto e Extra.com.
As lojas continuam funcionando?
Sim. O pedido de recuperação judicial não determina automaticamente o fechamento de todas as unidades, nem impede vendas em lojas físicas ou pela internet.
A proposta do procedimento é justamente permitir que uma empresa viável continue operando enquanto renegocia suas obrigações. Os clientes devem, contudo, guardar notas fiscais, comprovantes de pagamento, protocolos de atendimento e informações sobre garantias.
A recuperação judicial suspende os direitos trabalhistas?
A recuperação judicial não elimina direitos trabalhistas. Saldo de salário, férias, décimo terceiro, aviso-prévio e FGTS continuam existindo quando forem devidos.
O que pode mudar é a forma de cobrança e pagamento de determinadas dívidas anteriores ao pedido. Créditos sujeitos ao processo precisam ser incluídos na relação de credores e podem seguir as condições previstas no plano de recuperação aprovado.
A Lei de Recuperação Judicial concede tratamento prioritário aos créditos trabalhistas. Como regra geral, o plano não pode prever prazo superior a um ano para o pagamento dessas obrigações vencidas até a data do pedido, embora a legislação admita extensão em situações específicas e mediante requisitos.
Há ainda uma distinção importante: obrigações constituídas depois do pedido de recuperação podem ter tratamento diferente das dívidas anteriores. Por isso, cada empregado precisa conferir a data e a natureza dos valores cobrados.
A empresa pode deixar de pagar a rescisão?
A recuperação judicial não representa uma autorização automática para ignorar a rescisão. Quando a dispensa é válida, a Consolidação das Leis do Trabalho estabelece, em regra, prazo de até dez dias corridos após o encerramento do contrato para o pagamento das verbas e entrega dos documentos.
Se a demissão foi suspensa e o vínculo restabelecido, o debate muda. Pode ser necessário definir se o trabalhador deve receber salários do período, se os benefícios serão retomados e como ficam valores eventualmente já pagos.
Essa é uma das razões pelas quais o acompanhamento individual se torna importante. Empregados demitidos em datas diferentes podem ter situações jurídicas distintas.
Quais valores normalmente são devidos em uma demissão sem justa causa?
Quando a dispensa sem justa causa é considerada válida, o trabalhador pode ter direito a:
- saldo de salário pelos dias trabalhados;
- aviso-prévio trabalhado ou indenizado;
- décimo terceiro proporcional;
- férias vencidas, se houver, acrescidas de um terço;
- férias proporcionais com adicional de um terço;
- depósito do FGTS referente ao período;
- multa de 40% sobre o saldo do FGTS;
- documentos necessários para sacar o fundo;
- requerimento do seguro-desemprego, quando preenchidos os requisitos.
Outras parcelas podem existir conforme a convenção coletiva, o contrato, a função exercida ou o histórico do empregado.
Quem possuía estabilidade provisória exige análise específica. É o caso, por exemplo, de gestantes, dirigentes sindicais, integrantes de comissão interna de prevenção de acidentes e trabalhadores afastados por acidente ou doença ocupacional, conforme os requisitos de cada situação.
O plano de saúde deve ser restabelecido?
A liminar divulgada no caso prevê a retomada de benefícios assistenciais para os trabalhadores alcançados pela decisão. Isso pode incluir o plano de saúde que tenha sido cancelado em razão do desligamento.
A questão é particularmente urgente para pessoas que fazem tratamentos contínuos, utilizam medicamentos de alto custo ou possuem dependentes em acompanhamento médico.
Se o benefício não tiver sido reativado, o empregado deve guardar comprovantes de despesas médicas, receitas, laudos, mensagens enviadas à empresa e protocolos da operadora. Esses documentos ajudam a demonstrar tanto a tentativa de resolver o problema quanto os prejuízos sofridos.
E quem foi demitido por WhatsApp ou durante as férias?
A comunicação de dispensa por meio digital não é automaticamente inválida. O problema depende das circunstâncias: conteúdo da mensagem, confirmação de recebimento, respeito aos direitos legais e eventual exposição humilhante do empregado.
Uma demissão durante as férias também exige atenção. As férias representam um período de interrupção do trabalho, no qual o contrato continua em vigor. A comunicação de dispensa nesse intervalo pode ser questionada judicialmente, especialmente quando produz efeitos imediatos antes do fim do descanso.
O sindicato também relata casos envolvendo gestantes e aprendizes. Cada situação deve ser verificada separadamente porque esses grupos possuem proteções específicas.
O que o ex-funcionário deve fazer agora?
O primeiro passo é reunir todos os documentos relacionados ao emprego e ao desligamento. Isso vale mesmo para quem já comunicou o problema ao sindicato.
É recomendável separar:
- carteira de trabalho digital;
- termo de rescisão;
- holerites recentes;
- extrato da conta vinculada do FGTS;
- aviso de demissão;
- mensagens e e-mails enviados pela empresa;
- comprovantes de despesas médicas;
- documentos sobre o plano de saúde;
- protocolos de atendimento;
- extratos bancários que demonstrem a ausência do pagamento.
Consulte a situação do FGTS
O extrato pode ser conferido pelo aplicativo FGTS, da Caixa Econômica Federal. O trabalhador deve verificar se os depósitos mensais foram realizados e se existe uma chave para saque vinculada à rescisão.
Verifique o vínculo na Carteira de Trabalho Digital
A Carteira de Trabalho Digital mostra registros contratuais e pode ajudar a identificar se o desligamento permanece ativo ou se houve alguma atualização após a ordem de reintegração.
Procure o sindicato ou assistência jurídica
O empregado pode buscar o sindicato da categoria, um advogado trabalhista, a Defensoria Pública quando houver atendimento aplicável ou os canais da Justiça do Trabalho.
Antes de assinar acordo, quitação ou renúncia, é prudente entender quais valores estão incluídos. Uma proposta de pagamento pode afetar cobranças futuras.
Confira se o nome aparece na recuperação judicial
Se houver crédito trabalhista anterior ao pedido, o trabalhador deverá verificar se seu nome e o valor devido aparecem na relação de credores. Informações incorretas podem exigir habilitação ou divergência de crédito dentro do prazo judicial.
A cobrança de compras feitas por funcionários é permitida?
O protesto também trouxe a denúncia de uma trabalhadora que teria continuado recebendo cobranças de uma compra descontada anteriormente em folha de pagamento.
A existência de valores trabalhistas pendentes não cancela, por si só, uma dívida de consumo. No entanto, a empresa precisa demonstrar o saldo, a origem da cobrança e as condições contratadas.
Se as parcelas eram descontadas diretamente do salário, a interrupção dos descontos depois da demissão pode exigir uma nova forma de pagamento. A cobrança não pode envolver ameaça, constrangimento ou informação confusa.
A trabalhadora deve solicitar o demonstrativo completo da dívida e guardar os comprovantes dos descontos já feitos. Caso identifique cobrança duplicada ou abusiva, pode procurar o Procon ou registrar reclamação no Consumidor.gov.br.
O que pode acontecer a partir de agora?
A Casas Bahia ainda pode recorrer e apresentar sua defesa no processo trabalhista. Paralelamente, sindicatos e representantes dos empregados podem buscar um acordo coletivo sobre reintegração, rescisões, plano de saúde e pagamento dos valores.
Também será necessário acompanhar a recuperação judicial. A empresa deverá negociar com credores e apresentar as condições para reorganizar as dívidas sujeitas ao processo.
Para os trabalhadores, a prioridade é não depender apenas de informações publicadas em redes sociais. Como existem decisões provisórias, recursos e diferentes grupos de empregados, uma orientação que vale para uma pessoa pode não se aplicar a outra.
O protesto dos uniformes expôs uma crise que combina fechamento de lojas, demissões coletivas, dificuldades financeiras e insegurança para milhares de famílias. A principal resposta, agora, dependerá do cumprimento das decisões judiciais e da negociação entre a empresa e os representantes dos trabalhadores.
Perguntas frequentes

A Casas Bahia faliu?
Não. O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial, procedimento usado para reorganizar dívidas e tentar manter a empresa funcionando. Falência é um processo diferente.
Quantos funcionários foram demitidos?
A empresa informou aproximadamente 3 mil desligamentos durante sua reestruturação. A decisão trabalhista sobre a suspensão das demissões envolve cerca de 1.900 trabalhadores.
As demissões da Casas Bahia foram canceladas?
Uma liminar suspendeu os efeitos das dispensas coletivas abrangidas pelo processo e determinou reintegrações. A medida é provisória, e a empresa continua recorrendo.
Quem foi demitido deve voltar à loja?
O trabalhador deve confirmar se está incluído na decisão e solicitar orientação formal à empresa ou ao sindicato. Não é recomendável comparecer a uma unidade aleatória sem instruções.
A recuperação judicial impede o pagamento da rescisão?
Não elimina a dívida, mas pode alterar a forma de cobrança e o calendário de créditos anteriores ao pedido. A situação depende da data da obrigação e das decisões dos processos empresarial e trabalhista.
Como saber se o FGTS foi depositado?
A consulta pode ser feita pelo aplicativo FGTS. O extrato mostra depósitos mensais, saldo disponível e eventuais informações sobre saque.
O plano de saúde precisa ser reativado?
A liminar divulgada prevê o restabelecimento de benefícios assistenciais para os empregados alcançados. Quem continua sem cobertura deve procurar o sindicato ou assistência jurídica e guardar comprovantes de despesas.
