A recuperação judicial do Grupo Casas Bahia colocou investidores de renda fixa diante de uma pergunta importante: quais fundos podem sentir os efeitos dos aproximadamente R$ 4,8 bilhões vinculados a títulos de crédito privado da companhia?
Dados de carteiras informadas à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) indicam posições administradas por gestoras como Santander Brasil Gestão de Recursos, BB Gestão de Recursos, Valora Renda Fixa e Norte Asset Management. Também aparecem nomes como Kinea, XP Vista, Far Fator, Vinci, BTG Pactual e Franklin Templeton.
Isso não significa, porém, que todos esses fundos terão perdas relevantes. A exposição varia conforme o título, o tamanho da posição dentro da carteira, as garantias existentes e o papel ocupado pela Casas Bahia em cada operação.
Outro ponto decisivo é que as informações enviadas à CVM podem chegar ao mercado com defasagem. Uma posição registrada meses atrás pode ter sido vendida, reduzida ou ampliada posteriormente.
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Quais gestoras aparecem com maior exposição à Casas Bahia?

Nas informações disponíveis sobre as debêntures da 11ª emissão, a maior exposição declarada aparece associada à Santander Brasil Gestão de Recursos. Na sequência estão BB Gestão de Recursos, Valora Renda Fixa e Norte Asset Management.
Também foram identificadas posições menores administradas por IRB Asset Management, Vinci Gestora de Recursos, BTG Pactual Asset Management e Mongeral Aegon, entre outras. Ao todo, foram encontrados 18 registros relacionados a essa emissão.
Nas debêntures da 10ª emissão, que concentram a maior parcela do saldo financeiro, as posições declaradas são proporcionalmente pequenas. Todas ficam abaixo de 0,3%, conforme os dados levantados.
Nesse grupo, aparecem à frente:
- Somma Investimentos;
- Mongeral Aegon;
- Franklin Templeton Brasil.
A baixa participação declarada não significa que o restante dos títulos esteja sem dono. Ela indica apenas que parte expressiva pode estar com instituições que não divulgam suas posições da mesma maneira, fundos cujas carteiras ainda não refletem as negociações mais recentes ou investidores que compraram os papéis no mercado secundário.
Também é importante diferenciar gestora e fundo. A gestora é a empresa responsável por administrar os recursos. Uma mesma casa pode cuidar de vários fundos, com estratégias e exposições muito diferentes.
Portanto, ter o nome de uma gestora na relação não significa que todos os seus produtos estejam expostos à Casas Bahia.
CRI concentra as maiores posições declaradas
As maiores concentrações proporcionais identificadas não estão nas debêntures. Elas aparecem no Certificado de Recebíveis Imobiliários, ou CRI, de código 20K0571487.
Nesse papel, as posições informadas associadas à Far Fator Administração de Recursos e à Kinea Investimentos ficam próximas de 12% cada. A XP Vista Asset Management aparece com participação perto de 10%.
Depois surgem V2 Investimentos, Hectare Capital e JPP Capital.
Esses percentuais precisam ser interpretados com cuidado. A base exata sobre a qual foram calculados não foi declarada no levantamento. Por isso, eles não podem ser convertidos diretamente em valores financeiros.
Além disso, a exposição ao CRI não tem exatamente o mesmo risco das debêntures emitidas diretamente pela varejista.
Quais são os títulos ligados ao Grupo Casas Bahia?
O levantamento considera oito títulos ativos, com saldo total aproximado de R$ 4,8 bilhões.
| Código | Papel da Casas Bahia | Tipo de operação | Remuneração | Vencimento | Saldo aproximado |
|---|---|---|---|---|---|
| BHIAA0 | Devedora | 10ª emissão, 1ª série | CDI + 1,50% ao ano | 28/11/2050 | R$ 2,05 bilhões |
| BHIAC0 | Devedora | 10ª emissão, 3ª série | CDI + 1,00% ao ano | 28/11/2050 | R$ 1,59 bilhão |
| BHIAB1 | Devedora | 11ª emissão, 2ª série | Sem indexador | 22/06/2028 | R$ 447,3 milhões |
| TRSE16 | Cedente | Securitização | CDI + 3,00% ao ano | 23/03/2027 | R$ 268 milhões |
| 20K0571487 | Locatária | CRI | IPCA + 5,34% ao ano | 13/11/2030 | R$ 224,6 milhões |
| BHIAA1 | Devedora | 11ª emissão, 1ª série | CDI + 1,00% ao ano | 22/12/2029 | R$ 221,5 milhões |
| BHIAC1 | Devedora | 11ª emissão, 3ª série | TR | 22/12/2060 | R$ 2,2 milhões |
| BHIAB0 | Devedora | 10ª emissão, 2ª série | CDI + 1,00% ao ano | 28/11/2030 | Saldo residual zero |
O saldo considera a quantidade de títulos efetivamente integralizada, ou seja, aquela que realmente foi adquirida pelos investidores. Se fossem considerados todos os papéis inicialmente emitidos, inclusive os não subscritos ou posteriormente convertidos em ações, o valor teórico alcançaria cerca de R$ 8,32 bilhões.
Nem todos os títulos entram na recuperação da mesma maneira
Embora os oito instrumentos estejam ligados ao Grupo Casas Bahia, o risco jurídico e financeiro não é igual em todos eles.
Em seis títulos, a companhia aparece como devedora. São as três séries da 10ª emissão e as três séries da 11ª emissão de debêntures.
Juntas, elas representam aproximadamente 89,7% do saldo analisado. Nesses casos, os investidores estão diretamente expostos à capacidade de pagamento da varejista e às condições que vierem a ser definidas no processo de recuperação judicial.
Os outros dois instrumentos possuem estruturas diferentes.
CRI tem imóvel como garantia
No CRI 20K0571487, a Casas Bahia aparece como locatária do imóvel vinculado à operação, e não como devedora direta do título.
O certificado tem saldo de aproximadamente R$ 224,6 milhões, vencimento em novembro de 2030 e remuneração equivalente ao IPCA mais 5,34% ao ano. A operação também conta com alienação fiduciária do imóvel.
Na alienação fiduciária, o bem é utilizado como garantia do cumprimento da obrigação. Isso pode oferecer uma proteção adicional, embora não elimine todos os riscos.
Por se tratar de uma estrutura imobiliária baseada em contrato de locação, sua inclusão na recuperação judicial não é automática. O tratamento dependerá dos documentos da operação, das garantias e das decisões tomadas no processo.
TRSE16 tem recebíveis pagos por outra instituição
No título TRSE16, a Casas Bahia aparece como cedente dos recebíveis. Em termos simples, a empresa transferiu determinados direitos de pagamento para a estrutura de securitização.
O devedor dos recebíveis que servem de lastro é o Itaú Unibanco. Isso reduz a dependência direta do caixa da varejista, mas não dispensa uma análise completa dos contratos e das garantias.
Assim, não é correto tratar os R$ 4,8 bilhões como uma única dívida de risco idêntico.
Duas debêntures concentram três quartos do saldo
A maior exposição individual está no BHIAA0, da primeira série da 10ª emissão. O saldo é de aproximadamente R$ 2,05 bilhões, equivalente a 42,7% do total analisado.
O BHIAC0, da terceira série da mesma emissão, soma mais R$ 1,59 bilhão.
Juntos, os dois papéis concentram cerca de R$ 3,64 bilhões, ou 75,8% do saldo dos oito títulos.
Ambos tiveram o vencimento levado para 28 de novembro de 2050 durante uma renegociação concluída no fim de 2025. Os juros e o principal seriam pagos em parcela única na data final.
Na prática, isso significa que aproximadamente três quartos do saldo estavam concentrados em títulos de prazo muito longo e sem amortizações periódicas do principal.
Esse formato aumenta a dependência da capacidade financeira futura da companhia. Como o investidor não recebe parcelas intermediárias do principal, permanece exposto por mais tempo ao risco de crédito da empresa.
Recuperação judicial significa que o investidor perdeu todo o dinheiro?
Não necessariamente.
A recuperação judicial é um procedimento previsto na Lei nº 11.101/2005 para empresas que enfrentam dificuldades financeiras, mas ainda possuem possibilidade de continuar funcionando.
Durante o processo, a empresa apresenta um plano para reorganizar suas dívidas. Esse plano pode prever:
- adiamento dos vencimentos;
- redução do valor devido;
- diminuição dos juros;
- período inicial sem pagamentos;
- conversão da dívida em ações;
- venda de ativos;
- combinação de diferentes formas de pagamento.
Os credores analisam e votam a proposta. Se o plano for aprovado e homologado pela Justiça, os pagamentos passam a seguir as novas condições.
Por isso, ainda não é possível saber quanto cada fundo receberá. O resultado dependerá da classificação do crédito, das garantias, do plano apresentado, das negociações e da decisão dos credores.
A companhia mantém uma página dedicada aos documentos do processo, incluindo o fato relevante de 16 de agosto e a petição inicial protocolada posteriormente. Grupo Casas Bahia
Por que a exposição dos fundos pode mudar?
Os fundos entregam à CVM informações periódicas sobre suas carteiras. Esses documentos ajudam o mercado a identificar os ativos mantidos por cada veículo de investimento.
Contudo, os dados não mostram necessariamente a posição atual. Existe um intervalo entre a data de referência, o envio da informação e sua disponibilização ao público.
Nesse período, o gestor pode:
- vender parte dos títulos;
- comprar uma posição adicional;
- reconhecer uma perda no valor do papel;
- receber títulos por meio de outra operação;
- transferir a exposição entre fundos administrados pela mesma casa.
Por essa razão, a relação das gestoras serve como fotografia de uma data específica, e não como retrato em tempo real.
Também não basta saber que um fundo possui uma debênture da Casas Bahia. É necessário comparar o valor do título com todo o patrimônio do produto.
Uma posição de R$ 1 milhão pode ser relevante em um fundo com R$ 10 milhões, mas ter impacto pequeno em uma carteira de R$ 1 bilhão.
Os papéis já sinalizavam risco antes do pedido judicial
A recuperação judicial não surgiu sem alertas anteriores.
Em abril de 2021, a Standard & Poor’s atribuía ao Grupo Casas Bahia a nota nacional brAA, com perspectiva estável. A perspectiva passou a ser negativa em janeiro de 2022.
Depois disso, ocorreram sucessivos rebaixamentos. A nota caiu para brAA− em fevereiro de 2023, brA− em setembro daquele ano e brBBB− em novembro de 2023.
Em maio de 2024, a agência classificou a companhia como SD, sigla usada para “default seletivo”. A avaliação ocorreu após a abertura de uma recuperação extrajudicial destinada a renegociar cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas.
O default seletivo acontece quando uma empresa deixa de cumprir determinada obrigação ou realiza uma reestruturação considerada prejudicial aos credores, embora continue pagando outros compromissos.
Posteriormente, a cobertura da classificação foi retirada a pedido da empresa.
Preço no mercado já refletia possibilidade de perdas
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Os preços das debêntures negociadas no mercado secundário também mostravam que os investidores esperavam dificuldades.
Em 2026, a referência mediana ponderada pelo volume negociado ficou próxima de 37% do valor nominal dos papéis. Isso significa que um título com valor de face de R$ 1.000 poderia ser negociado, em média, por algo perto de R$ 370.
O BHIAB1, que registrou R$ 306,8 milhões em 17 negócios entre fevereiro e julho, oscilou entre 25,05% e 44,29% do valor de face.
Já os títulos BHIAA0 e BHIAC0 tiveram negociações equivalentes a 21,74% e 26,71% do valor nominal, respectivamente, no começo do ano.
Comprar com grande desconto pode gerar ganhos elevados se o emissor pagar integralmente a dívida. Entretanto, o preço baixo também sinaliza que o mercado considera provável uma perda significativa.
Todos os oito títulos analisados carregavam a indicação de reperfilamento de dívidas. Isso mostra que as condições originais já tinham sido modificadas em negociações anteriores, realizadas em 2024 e 2025.
O que o cotista de um fundo deve fazer agora?
O primeiro passo é descobrir se o fundo realmente possui títulos ligados ao Grupo Casas Bahia.
Essa informação pode aparecer na lâmina, no regulamento, nos relatórios da gestão, na composição da carteira ou nos documentos enviados à CVM. O investidor também pode solicitar esclarecimentos ao administrador ou à própria gestora.
Em seguida, é importante verificar:
- qual é o código do título;
- quanto ele representa no patrimônio do fundo;
- qual foi o valor usado para contabilizar o ativo;
- se a gestora já reconheceu uma desvalorização;
- quais garantias acompanham o papel;
- se existem pedidos de resgate represados;
- qual estratégia será adotada na recuperação judicial.
Não é recomendável decidir apenas pelo nome da gestora. Um fundo administrado pela mesma instituição pode ter exposição relevante, enquanto outro pode não possuir nenhum papel da empresa.
Também é preciso evitar decisões impulsivas. Se o título já foi desvalorizado na carteira, parte do impacto pode ter aparecido anteriormente na cota.
Por outro lado, fundos com ativos pouco líquidos podem enfrentar dificuldades se muitos cotistas pedirem resgate ao mesmo tempo.
Debêntures, CRIs e outros títulos de crédito privado não possuem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC. A proteção oferecida a determinados investimentos bancários, como CDBs elegíveis, não se aplica a esses papéis.
O que acontece a partir de agora?
A recuperação judicial foi formalizada após aprovação do conselho de administração em 16 de agosto de 2026. O processo ainda terá várias etapas, incluindo a análise dos créditos, a apresentação do plano e a negociação com credores.
Até que as condições sejam definidas, não é possível calcular de forma responsável a perda final dos fundos ou a porcentagem que poderá ser recuperada.
O número de R$ 4,8 bilhões ajuda a dimensionar o mercado de títulos relacionado ao grupo, mas não representa automaticamente um prejuízo desse tamanho. Parte das operações possui estruturas próprias, garantias e devedores diferentes.
Para o investidor, a melhor providência é identificar o fundo específico, medir o peso do título na carteira e acompanhar os comunicados oficiais. A informação mais relevante não é apenas quem aparece na lista, mas quanto cada produto realmente depende desses papéis.
Perguntas frequentes

Quais gestoras aparecem mais expostas às debêntures da Casas Bahia?
Na 11ª emissão, aparecem com maior exposição declarada Santander Brasil Gestão de Recursos, BB Gestão de Recursos, Valora Renda Fixa e Norte Asset Management. As posições podem ter mudado desde a data de referência.
Kinea e XP Vista estão diretamente expostas à dívida da varejista?
As posições identificadas dessas gestoras estão relacionadas principalmente ao CRI 20K0571487. Nessa operação, a Casas Bahia atua como locatária, e o imóvel vinculado ao contrato funciona como garantia.
Quem investiu em fundo com título da Casas Bahia perderá dinheiro?
Não é possível afirmar antecipadamente. A eventual perda depende do tamanho da posição, do preço pelo qual o ativo já está contabilizado, das garantias e das condições aprovadas na recuperação judicial.
Os títulos da Casas Bahia têm proteção do FGC?
Não. Debêntures, CRIs e outros títulos de crédito privado não contam com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos.
Como descobrir se meu fundo tem títulos da empresa?
O investidor pode consultar a carteira divulgada pelo fundo, os relatórios da gestora, os documentos disponibilizados pela CVM ou solicitar a informação ao administrador.
Recuperação judicial suspende todos os pagamentos?
O procedimento pode suspender a cobrança de créditos sujeitos à recuperação durante o período previsto em lei. Entretanto, o tratamento depende da natureza de cada obrigação, das garantias e da estrutura jurídica do título.
Os R$ 4,8 bilhões representam o prejuízo dos investidores?
Não. O valor corresponde ao saldo estimado dos títulos analisados. O prejuízo efetivo dependerá do plano de recuperação, dos pagamentos realizados, das garantias e do valor já reconhecido nas carteiras.



