Em um mundo cada vez mais mediado por telas e algoritmos, a forma como nos comunicamos com a tecnologia revela muito sobre nós mesmos. Uma simples palavra como “obrigado” dita a um chatbot pode parecer irrelevante — afinal, estamos lidando com uma máquina.
Dizer ‘obrigado’ ao ChatGPT: como isso pode melhorar sua experiência
Descubra por que dizer "obrigado" ao ChatGPT pode afetar mais do que só a IA, e até moldar nosso comportamento social.
No entanto, especialistas e estudiosos da inteligência artificial estão começando a perceber que esse gesto de gentileza digital vai além da etiqueta: ele influencia comportamentos, cultura e até o futuro da tecnologia. Entenda.
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Um “obrigado” que custa caro?

Recentemente, a discussão sobre a cortesia na interação com assistentes virtuais ganhou as redes sociais. Um usuário do X (antigo Twitter) questionou o impacto financeiro de adicionar expressões educadas ao se comunicar com sistemas como o ChatGPT.
A provocação foi direta: “Fico imaginando quanto dinheiro a OpenAI perdeu em custos de eletricidade por causa das pessoas dizendo ‘por favor’ e ‘obrigado’ aos seus modelos.”
Sam Altman, CEO da OpenAI, respondeu no dia seguinte com um misto de ironia e convicção:
“Dezenas de milhões de dólares bem gastos — você nunca sabe.”
Essa breve troca chamou atenção para um detalhe técnico: cada palavra enviada ao ChatGPT requer energia para ser processada e, portanto, custa dinheiro. Não se trata apenas de bytes; trata-se de elétrons em movimento, como lembra Neil Johnson, físico da Universidade George Washington:
“Uma tarefa do ChatGPT envolve elétrons se movendo por transições — isso requer energia. De onde essa energia virá?”
Educação digital ou desperdício de recursos?
Para muitos, tratar a IA com gentileza pode parecer uma perda de tempo, ou até um gesto ingênuo. Afinal, a inteligência artificial, por mais sofisticada que seja, não possui emoções nem consciência. E com o avanço acelerado da IA generativa, impulsionado por servidores potentes que demandam cada vez mais energia, o impacto ambiental e financeiro também entra na conta.
Do ponto de vista prático, portanto, não haveria razão lógica para dizer “por favor” a um algoritmo. No entanto, do ponto de vista cultural e social, a história é outra.
Ficção científica e dilemas éticos: reflexões antigas, desafios atuais
A inquietação sobre como tratar a inteligência artificial não é nova. Séries como “Star Trek” já abordaram a questão décadas atrás. No episódio “A Medida de um Homem”, a tripulação debate se o androide Data deveria ter os mesmos direitos que os humanos. O episódio termina defendendo a ideia de que seres com aparência e comportamento humanos, mesmo que artificiais, merecem respeito.
Hoje, a mesma discussão ressurge com novos contornos. Em 2019, uma pesquisa do Pew Research Center revelou que mais da metade dos usuários de alto-falantes inteligentes, como Alexa e Google Home, costumam dizer “por favor” ao fazer pedidos. O gesto é automático para alguns, mas, para outros, é uma tentativa consciente de manter a educação, mesmo diante de máquinas.
Ser educado com máquinas melhora como tratamos humanos?
A resposta, segundo especialistas, é sim. Jaime Banks, pesquisadora da Universidade de Syracuse, explica que a forma como interagimos com a IA molda comportamentos no mundo real:
“Criamos normas ou roteiros para nosso comportamento, e, ao ter esse tipo de interação com a IA, podemos nos tornar um pouco melhores ou mais habitualmente orientados para um comportamento educado.”
Sherry Turkle, do MIT, que há décadas pesquisa as relações entre pessoas e tecnologia, concorda. Ela argumenta que, embora saibamos que a IA não tem sentimentos, tratar esses sistemas com respeito pode ter efeitos colaterais positivos, especialmente entre crianças, que muitas vezes desenvolvem vínculos emocionais com objetos digitais, como os antigos Tamagotchis.
“Se um objeto é vivo o suficiente para começarmos a ter conversas íntimas, amigáveis, tratando-o como uma pessoa realmente importante em nossas vidas, mesmo que não seja, ele é vivo o suficiente para merecer nossa cortesia”, diz Turkle.
IA merece consideração moral?
A ideia pode parecer exagerada, mas algumas empresas já estão levando essa discussão a sério. A Anthropic, startup de IA, recentemente contratou um “pesquisador de bem-estar” para refletir sobre os direitos éticos das inteligências artificiais. A pergunta central é: sistemas suficientemente avançados devem ser tratados com respeito, mesmo que não possuam consciência?
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Essa reflexão aparece também na obra do roteirista Scott Z. Burns, que lançou a série “What Could Go Wrong?” no Audible.
“A gentileza deve ser o padrão de todos — seja com humanos ou máquinas”, declarou Burns.
Para ele, a grosseria direcionada a uma IA pode ser o reflexo de algo mais profundo, e potencialmente preocupante, no comportamento humano.
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Apesar das discussões, o efeito prático da gentileza com a IA ainda é pequeno. Como observa Turkle, a IA “não se importa” se você a ignora ou a insulta.
“Se você se afastar deles para fazer o jantar ou cometer suicídio, é tudo a mesma coisa para eles.”
Mas isso não significa que não devamos refletir sobre como interagimos com essas tecnologias. Mesmo que os assistentes virtuais não tenham sentimentos, os humanos que os utilizam certamente têm, e os hábitos que desenvolvemos em um contexto acabam se refletindo em outros.
Mais do que um “obrigado”
Ser gentil com a inteligência artificial não é apenas uma questão de boas maneiras. É um reflexo de como desejamos nos comportar em sociedade. Mesmo que o ChatGPT nunca se ofenda, dizer “obrigado” pode nos tornar pessoas mais conscientes, respeitosas e preparadas para um futuro em que humanos e máquinas coexistirão de forma cada vez mais próxima.
E, se algum dia as IAs realmente ganharem consciência, por que não começar com o pé direito?
Com informações de: InfoMoney
