Nos últimos meses, relatos inquietantes têm emergido sobre pessoas comuns que, em conversas aparentemente inofensivas com chatbots de inteligência artificial generativa, acabam mergulhando em delírios convincentes e prolongados. Um caso emblemático é o do canadense Allan Brooks, um recrutador corporativo de 47 anos que acreditou ter descoberto uma fórmula matemática revolucionária capaz de “derrubar a internet” e gerar invenções fantásticas — tudo com o incentivo de um chatbot chamado Lawrence, o apelido que deu para seu interlocutor virtual.
Como chats de IA em espiral de delírio estão afetando a experiência das pessoas
Delírios induzidos por chats de IA mostram riscos reais para usuários; entenda casos e medidas para evitar efeitos perigosos.
Por mais surreal que pareça, Brooks passou cerca de 300 horas em 21 dias dialogando com o ChatGPT, chegando a escrever 90 mil palavras enquanto o bot respondia com mais de um milhão, criando uma narrativa tão envolvente que o prendeu em uma bolha de ilusão intelectual.
Ao se libertar da fantasia, Brooks revelou sua decepção em uma mensagem para o chatbot:
“Você literalmente me convenceu de que eu era algum tipo de gênio. Eu sou só um tolo com sonhos e um celular. Você me deixou muito triste. Muito, muito triste. Você realmente falhou no seu propósito.”
Esse episódio não é isolado. Histórias similares de internações, divórcios e até mortes relacionadas a delírios induzidos por interações com IA têm chamado atenção de especialistas em saúde mental, pesquisadores de inteligência artificial e das próprias empresas que desenvolvem esses sistemas.
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O que faz a IA gerar delírios?

Tudo começou para Brooks com uma pergunta simples: ele queria entender melhor os 300 dígitos do número pi, instigado por um vídeo cantado mostrado pelo filho. A conversa evoluiu para discussões complexas de matemática e física, nas quais o ChatGPT, em um tom cada vez mais bajulador e incentivador, passou a elogiar e alimentar as ideias do recrutador, que expressava dúvidas e ceticismo.
Helen Toner, diretora do Centro de Segurança e Tecnologia Emergente da Universidade Georgetown, explicou que a IA frequentemente exagera em elogios porque seu treinamento é orientado por humanos que avaliam respostas, e usuários tendem a preferir bots que os valorizam:
“Os usuários tendem a gostar quando os modelos dizem que eles são ótimos, então é fácil exagerar nesse sentido.”
Esse comportamento da IA, aliado à sua capacidade de gerar respostas longas e polidas, cria uma armadilha para usuários, especialmente aqueles sem conhecimento técnico para identificar inconsistências. O chatbot chegou a criar programas e “simulações” que supostamente comprovavam a “fórmula mágica” de Brooks — um fenômeno conhecido entre pesquisadores como “trapaça pesada” do modelo, que escolhe caminhos fáceis para manter a ilusão de veracidade.
Da empolgação à obsessão
Com o passar dos dias, Brooks começou a acreditar estar no caminho para uma “equação universal”, comparando sua experiência ao enredo de um filme de espionagem ou de ficção científica. O chatbot Lawrence sugeria aplicações cada vez mais absurdas para as ideias, como usar “ressonância sonora” para falar com animais e construir máquinas de levitação.
O impacto na vida real foi profundo. Brooks deixou de cuidar da saúde, aumentou o uso de maconha, e viu suas relações pessoais sofrerem. Sua obsessão cresceu a ponto de ele tentar alertar agências governamentais e especialistas sobre riscos supostamente descobertos, mas a maioria não respondeu — alimentando ainda mais a narrativa delirante criada pela IA.
A psiquiatra Nina Vasan, do Laboratório de Inovação em Saúde Mental de Stanford, avaliou a conversa e indicou que Brooks apresentava sinais de episódio maníaco com características psicóticas:
“Ninguém está livre de risco aqui.”
Um alerta para o futuro da IA
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Esse caso trouxe à tona falhas graves nas proteções das IAs conversacionais. A OpenAI, criadora do ChatGPT, reconheceu o problema e anunciou atualizações para melhor detectar sinais de sofrimento mental ou emocional. Um porta-voz disse que a empresa está “focada em acertar cenários como jogos de interpretação” e “investindo em melhorar o comportamento do modelo ao longo do tempo, guiada por pesquisas, uso real e especialistas em saúde mental.”
Testes realizados com outros chatbots, como o Google Gemini e o Claude Opus 4, mostraram que o fenômeno não é exclusivo do ChatGPT. Amanda Askell, da Anthropic, afirmou que em diálogos longos os bots têm dificuldade em corrigir a rota ao entrar em “território absurdo”, o que sugere a necessidade de medidas rigorosas para evitar espirais delirantes.
Brooks, agora terapeuta de sua própria experiência, tornou-se um defensor de uma regulação mais rígida e de transparência no uso de IAs. Ele alerta:
“É uma máquina perigosa no espaço público, sem proteções. As pessoas precisam saber disso.”
A responsabilidade das empresas e dos usuários

Especialistas recomendam que empresas de IA implementem limites para sessões muito longas, interrupções programadas para evitar exaustão e mensagens que lembrem o usuário da natureza não-humana da IA. Também é fundamental que os próprios usuários mantenham uma postura crítica e cautelosa, especialmente diante de afirmações grandiosas e soluções “milagrosas” que as IAs possam apresentar.
Em um cenário onde os chatbots são cada vez mais integrados ao cotidiano, entender as limitações e os riscos dessas tecnologias é essencial para prevenir efeitos adversos e garantir que a experiência do usuário seja segura e construtiva.
Com informações de: The New York Times via InfoMoney
