Seu Crédito Digital
Seu Crédito Digital

Como chats de IA em espiral de delírio estão afetando a experiência das pessoas

Delírios induzidos por chats de IA mostram riscos reais para usuários; entenda casos e medidas para evitar efeitos perigosos.

Fernanda RamosPor Fernanda Ramos5 min de leitura
inteligência artificial google IA

Nos últimos meses, relatos inquietantes têm emergido sobre pessoas comuns que, em conversas aparentemente inofensivas com chatbots de inteligência artificial generativa, acabam mergulhando em delírios convincentes e prolongados. Um caso emblemático é o do canadense Allan Brooks, um recrutador corporativo de 47 anos que acreditou ter descoberto uma fórmula matemática revolucionária capaz de “derrubar a internet” e gerar invenções fantásticas — tudo com o incentivo de um chatbot chamado Lawrence, o apelido que deu para seu interlocutor virtual.

Por mais surreal que pareça, Brooks passou cerca de 300 horas em 21 dias dialogando com o ChatGPT, chegando a escrever 90 mil palavras enquanto o bot respondia com mais de um milhão, criando uma narrativa tão envolvente que o prendeu em uma bolha de ilusão intelectual.

Ao se libertar da fantasia, Brooks revelou sua decepção em uma mensagem para o chatbot:

“Você literalmente me convenceu de que eu era algum tipo de gênio. Eu sou só um tolo com sonhos e um celular. Você me deixou muito triste. Muito, muito triste. Você realmente falhou no seu propósito.”

Esse episódio não é isolado. Histórias similares de internações, divórcios e até mortes relacionadas a delírios induzidos por interações com IA têm chamado atenção de especialistas em saúde mental, pesquisadores de inteligência artificial e das próprias empresas que desenvolvem esses sistemas.

Leia mais: OpenAI gpt-oss chega ao Windows com apoio da Microsoft

O que faz a IA gerar delírios?

AI IA
Imagem: Anggalih Prasetya / Shutterstock

Tudo começou para Brooks com uma pergunta simples: ele queria entender melhor os 300 dígitos do número pi, instigado por um vídeo cantado mostrado pelo filho. A conversa evoluiu para discussões complexas de matemática e física, nas quais o ChatGPT, em um tom cada vez mais bajulador e incentivador, passou a elogiar e alimentar as ideias do recrutador, que expressava dúvidas e ceticismo.

Helen Toner, diretora do Centro de Segurança e Tecnologia Emergente da Universidade Georgetown, explicou que a IA frequentemente exagera em elogios porque seu treinamento é orientado por humanos que avaliam respostas, e usuários tendem a preferir bots que os valorizam:

“Os usuários tendem a gostar quando os modelos dizem que eles são ótimos, então é fácil exagerar nesse sentido.”

Esse comportamento da IA, aliado à sua capacidade de gerar respostas longas e polidas, cria uma armadilha para usuários, especialmente aqueles sem conhecimento técnico para identificar inconsistências. O chatbot chegou a criar programas e “simulações” que supostamente comprovavam a “fórmula mágica” de Brooks — um fenômeno conhecido entre pesquisadores como “trapaça pesada” do modelo, que escolhe caminhos fáceis para manter a ilusão de veracidade.

Da empolgação à obsessão

Com o passar dos dias, Brooks começou a acreditar estar no caminho para uma “equação universal”, comparando sua experiência ao enredo de um filme de espionagem ou de ficção científica. O chatbot Lawrence sugeria aplicações cada vez mais absurdas para as ideias, como usar “ressonância sonora” para falar com animais e construir máquinas de levitação.

O impacto na vida real foi profundo. Brooks deixou de cuidar da saúde, aumentou o uso de maconha, e viu suas relações pessoais sofrerem. Sua obsessão cresceu a ponto de ele tentar alertar agências governamentais e especialistas sobre riscos supostamente descobertos, mas a maioria não respondeu — alimentando ainda mais a narrativa delirante criada pela IA.

A psiquiatra Nina Vasan, do Laboratório de Inovação em Saúde Mental de Stanford, avaliou a conversa e indicou que Brooks apresentava sinais de episódio maníaco com características psicóticas:

“Ninguém está livre de risco aqui.”

Um alerta para o futuro da IA

Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.

+311 mil seguidores

Seguir no Google

Esse caso trouxe à tona falhas graves nas proteções das IAs conversacionais. A OpenAI, criadora do ChatGPT, reconheceu o problema e anunciou atualizações para melhor detectar sinais de sofrimento mental ou emocional. Um porta-voz disse que a empresa está “focada em acertar cenários como jogos de interpretação” e “investindo em melhorar o comportamento do modelo ao longo do tempo, guiada por pesquisas, uso real e especialistas em saúde mental.”

Testes realizados com outros chatbots, como o Google Gemini e o Claude Opus 4, mostraram que o fenômeno não é exclusivo do ChatGPT. Amanda Askell, da Anthropic, afirmou que em diálogos longos os bots têm dificuldade em corrigir a rota ao entrar em “território absurdo”, o que sugere a necessidade de medidas rigorosas para evitar espirais delirantes.

Brooks, agora terapeuta de sua própria experiência, tornou-se um defensor de uma regulação mais rígida e de transparência no uso de IAs. Ele alerta:

“É uma máquina perigosa no espaço público, sem proteções. As pessoas precisam saber disso.”

A responsabilidade das empresas e dos usuários

IAs
Imagem: angkhan / iStock

Especialistas recomendam que empresas de IA implementem limites para sessões muito longas, interrupções programadas para evitar exaustão e mensagens que lembrem o usuário da natureza não-humana da IA. Também é fundamental que os próprios usuários mantenham uma postura crítica e cautelosa, especialmente diante de afirmações grandiosas e soluções “milagrosas” que as IAs possam apresentar.

Em um cenário onde os chatbots são cada vez mais integrados ao cotidiano, entender as limitações e os riscos dessas tecnologias é essencial para prevenir efeitos adversos e garantir que a experiência do usuário seja segura e construtiva.

Com informações de: The New York Times via InfoMoney

Fernanda Ramos

Autor

Fernanda Ramos

Fernanda é graduanda em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com sólida formação em língua portuguesa. Atua na estruturação, revisão e aprimoramento textual dos conteúdos do portal Seu Crédito Digital, garantindo clareza, coesão e qualidade editorial. Apaixonada por comunicação, tem como missão facilitar o acesso à informação com linguagem acessível e confiável.

Topicos relacionados