O vice-presidente da Apple, Oliver Schusser, responsável pelo Apple Music, Apple TV+ e pela divisão de esportes da gigante de Cupertino, causou forte repercussão no setor musical ao se posicionar publicamente contra os planos gratuitos com anúncios oferecidos.
Durante o evento anual da National Music Publishers Association (NMPA), realizado em 11 de junho de 2025, em Nova York, Schusser foi direto ao ponto: “Acho uma loucura que, depois de 20 anos, ainda ofereçamos música de graça”.
A fala repercutiu intensamente entre editoras e profissionais da indústria fonográfica, num momento em que o setor luta contra a queda nos royalties pagos aos artistas.
Leia mais:
49% dos brasileiros dizem que economia piorou nos últimos seis meses, aponta Ipsos‑Ipec
MEI economiza até 30% em carro e ganha plano de saúde! Veja vantagens do CNPJ
Apple Music: o último bastião pago do streaming?

Sem versão gratuita, por escolha
O Apple Music se destaca no mercado por não oferecer nenhuma versão gratuita, prática cada vez mais rara entre os concorrentes. Essa política, segundo Schusser, não se deve à busca por lucro imediato, mas sim a uma filosofia clara: “Vemos a música como arte e jamais ofereceríamos arte de graça”, afirmou.
Ele reforçou que a Apple não tem planos de adotar um modelo gratuito. A menção indireta ao Spotify e Amazon Music deixou claro o alvo das críticas, mesmo que sem nomeá-los diretamente.
Apple TV+ como exemplo de modelo premium
Para ilustrar sua visão, o executivo comparou o Apple Music ao Apple TV+, serviço de streaming de vídeo da empresa que também não possui plano gratuito.
Ele lembrou que o Apple TV+ abrigou a série de maior sucesso do mundo em janeiro deste ano, Ruptura, como prova de que o público está disposto a pagar por qualidade.
A crítica à gratuidade: um risco à arte
Música como mercadoria
Schusser demonstrou preocupação com a maneira como o conteúdo gratuito vem sendo tratado, apontando que essa tendência transforma a música em uma simples mercadoria. Para ele, a gratuidade banaliza a arte, reduzindo o valor simbólico e financeiro do trabalho dos artistas.
“Não é por dinheiro. É por respeito à música como expressão artística.” — Oliver Schusser
Esse posicionamento dialoga diretamente com reivindicações recentes das editoras musicais, que têm se manifestado contra a queda nos pagamentos de royalties, em parte causada por mudanças nas políticas de serviços como o Spotify.
O impacto de audiolivros e podcasts
O descontentamento das editoras também se intensificou com a inclusão de audiolivros e podcasts premium nos pacotes tradicionais de música de plataformas rivais. O resultado, segundo os críticos, foi a diluição da receita gerada exclusivamente pela música, afetando diretamente os repasses aos criadores.
Spotify na linha de fogo
Modelo freemium sob escrutínio
O Spotify lidera o modelo chamado freemium, em que o usuário tem acesso gratuito ao catálogo, mas com inserções publicitárias. A empresa argumenta que esse modelo ajuda a atrair usuários que eventualmente migram para planos pagos.
No entanto, a fala de Schusser reforça um crescente ceticismo quanto à sustentabilidade e ética desse modelo, especialmente entre os profissionais que dependem da música como fonte de renda.
Reação do mercado
Embora o Spotify não tenha se manifestado diretamente sobre os comentários de Schusser até o momento, especialistas do setor observam que a crítica pode estimular mudanças estruturais na forma como os serviços são oferecidos, ou, no mínimo, pressionar por ajustes nos repasses a artistas e editoras.
O debate sobre royalties
Um problema antigo, agora agravado
As tensões entre plataformas de streaming e o setor musical não são novas. Desde o início da era digital, compositores e editoras reclamam dos baixos valores pagos por execução. A questão se agravou com o crescimento do streaming gratuito, em que os royalties são ainda menores.
Schusser, ao se posicionar de forma contundente, ecoa um sentimento latente: a percepção de que o modelo atual favorece as plataformas em detrimento dos artistas.
Pressão regulatória e judicial
Recentemente, processos judiciais nos Estados Unidos e na União Europeia têm questionado a distribuição de lucros e contratos com criadores. A fala de um executivo da Apple pode acelerar discussões regulatórias e influenciar políticas públicas sobre o setor.
As alternativas no mercado
Amazon Music e o dilema do conteúdo adicional
Além do Spotify, o Amazon Music também foi alvo de críticas veladas. O serviço expandiu seu conteúdo com audiolivros e podcasts premium, sem que houvesse um aumento proporcional no pagamento a artistas.
Esse tipo de “combo cultural” acaba redistribuindo a receita de forma desigual, favorecendo o consumo diversificado, mas penalizando os músicos.
Modelos alternativos pagos ganham força
Serviços como Tidal e Qobuz, que priorizam qualidade de som e pagamento justo a artistas, podem ganhar tração com a crítica da Apple, embora ainda tenham participação de mercado limitada.
O futuro do streaming de música

Uma possível mudança de paradigma
A crítica de Oliver Schusser não se limita a um desabafo: ela pode marcar o início de uma nova fase na indústria do streaming, em que a pressão pela valorização da música levará a mudanças profundas nos modelos de negócio.
Consumidores dispostos a pagar por qualidade?
Pesquisas recentes apontam que, embora o conteúdo gratuito ainda tenha apelo, uma parcela crescente dos consumidores valoriza experiências premium — sem anúncios, com melhor curadoria e mais respeito aos criadores.
A Apple aposta nessa tendência ao recusar adotar uma versão gratuita, mesmo que isso limite sua base de usuários em comparação com os rivais.
Conclusão
A fala de Oliver Schusser reacendeu um debate fundamental sobre o valor da música em tempos digitais. Em um mercado saturado por opções gratuitas e modelos híbridos, a postura da Apple levanta a questão: estamos, como sociedade, desvalorizando a arte ao consumi-la sem pagar por ela?
Se depender do Apple Music, a resposta é clara: a música tem valor — e deve ser paga.
Enquanto as plataformas ajustam suas estratégias para agradar tanto usuários quanto artistas, o futuro do streaming musical permanece em aberto. Mas uma coisa é certa: o setor não será mais o mesmo após esse posicionamento firme da Apple.
