O governo da China publicou recentemente o discurso do embaixador em Washington, Xie Feng, defendendo a retomada da cooperação comercial com os Estados Unidos no setor de soja. O pronunciamento ocorreu na sexta-feira, 22, durante evento promovido pelo Conselho de Exportação de Soja dos EUA.
Trump cobra mais compra de soja; China fala em fortalecer cooperação agrícola
China defende cooperação com EUA na soja; Brasil mantém liderança nas exportações do grão.
Segundo o diplomata, “Sob a orientação estratégica dos dois presidentes, nossas equipes econômicas e comerciais realizaram recentemente uma nova rodada de negociações em Estocolmo e emitiram uma declaração conjunta”.
Xie Feng reforçou que a China está disposta a trabalhar com os EUA para implementar os entendimentos comuns alcançados pelos líderes, utilizando mecanismos de consulta econômica e comercial para desfazer mal-entendidos e fortalecer a cooperação de ganhos mútuos.
“Na soja, podemos ver o fato de que China e Estados Unidos têm a ganhar com a cooperação e a perder com a confrontação”, afirmou o embaixador.
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Impactos da escalada tarifária

O diplomata apontou que a escalada tarifária enfraqueceu a relação comercial agrícola entre os dois países. “O crescente protecionismo sem dúvida lançou uma sombra sobre nossa cooperação agrícola. No primeiro semestre deste ano, as exportações agrícolas dos EUA para a China caíram 53% em relação ao ano anterior, e a soja caiu 51%”, declarou Xie Feng.
Apesar dos atritos, ele destacou que a China e os EUA possuem uma parceria natural no comércio agrícola, sendo os principais importadores e exportadores mundiais do setor. “Por anos, a China permaneceu como o principal destino dos produtos agrícolas americanos, e metade da soja americana exportada foi vendida para a China”, lembrou.
O embaixador também ressaltou a relevância histórica da agricultura na cooperação bilateral: “Vamos buscar resultados vantajosos para ambos, para que nossa cooperação agrícola continue florescendo”.
Rivalidade EUA-Brasil na soja
Em agosto, Donald Trump pediu em sua rede social que Pequim quadruplicasse as compras de soja americana. A medida repercutiu entre os produtores brasileiros, atualmente responsáveis por 70% da soja importada pela China.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a Associação Americana de Soja enviou carta a Trump afirmando que os produtores americanos teriam perdido preferência de compra chinesa em favor de um contrato com o Brasil:
“Nós agradecemos a sua postagem, reconhecendo a robusta safra produzida pelos fazendeiros de soja e instando a China a quadruplicar as importações.
Infelizmente para os nossos produtores de soja, a China firmou um contrato com o Brasil para atender às necessidades dos próximos meses, evitando a compra de soja dos EUA.”
O documento também destacou que tarifas chinesas impostas em retaliação a medidas de Trump resultaram em taxação 20% maior da soja americana em relação à América do Sul.
Limites práticos para aumento das vendas americanas
Segundo a consultoria Datagro, o pedido de Trump de quadruplicar as exportações americanas de soja para a China é inviável. Em 2024, a produção total dos EUA foi de cerca de 118 milhões de toneladas, das quais 44 milhões foram exportadas e 22 milhões foram enviadas à China, ou seja, cerca de 52% das exportações.
Para quadruplicar as vendas, seriam necessários 88 milhões de toneladas, impactando toda a exportação para outros países e reduzindo a quantidade disponível para a indústria de óleo e farelo de soja.
Rafael Silveira, consultor da Safras & Mercado, observa que “é difícil imaginar que a China quadruplique a demanda por soja americana, especialmente em se tratando de uma safra velha — já colhida e negociada”.
Cenário do agro brasileiro
Para o Brasil, a situação demanda cautela, mas não indica mudanças imediatas. Segundo a Datagro, qualquer impacto dependerá do volume efetivamente negociado entre China e EUA.
“É provável que o Brasil saia impactado e perca um pouco de market share, porque é muito difícil não esbarrar nesses 70%. Mas tudo depende de quanto os Estados Unidos vão querer mandar para os chineses”, avalia a consultoria.
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Em 2024, o Brasil exportou 74,7 milhões de toneladas de soja para a China, totalizando US$ 36,5 bilhões, enquanto a China comprou 105 milhões de toneladas globalmente. O país sul-americano, portanto, mantém 70% da participação no mercado chinês de soja.
Competitividade da soja sul-americana
O aumento da compra de soja chinesa nos últimos anos ocorreu em meio à queda de preços dos grãos, resultado de safras recordes brasileiras. Argentina e Brasil lideram a oferta regional, com preços mais competitivos que os dos EUA.
A soja é estratégica para a nutrição animal na China, especialmente na produção de suínos, o que reforça a importância de decisões comerciais cautelosas e planejadas por Pequim. Atualmente, o Brasil representa cerca de 25% das importações agrícolas chinesas no mundo, segundo levantamento publicado pela EXAME em 2024.
Perspectivas futuras

Analistas indicam que o comércio de soja entre EUA e China seguirá sendo monitorado de perto. Qualquer mudança brusca afetará não apenas os produtores americanos, mas também o mercado brasileiro e sul-americano.
Rafael Silveira, da Safras & Mercado, conclui:
“O cenário ainda depende de uma possível postergação da trégua entre os dois países e de como a China irá se posicionar. No caso do Brasil, as exportações devem seguir aquecidas até o fim do ano, acompanhando a sazonalidade, e possivelmente atingindo níveis recordes.”
O agro brasileiro, portanto, permanece resiliente, com expectativas de crescimento das exportações até o final do ano, mesmo diante de pressões externas.
Com informações de: Exame
