A Carteira Nacional de Habilitação (CNH) deve passar por uma das mudanças mais significativas das últimas décadas. Uma minuta de resolução do Ministério dos Transportes, atualmente em consulta pública, propõe flexibilizar o processo de formação de condutores e modernizar as regras de exame. Entre as novidades está a possibilidade de o candidato realizar o teste prático com um veículo de transmissão automática, sem restrições posteriores quanto ao tipo de carro que poderá dirigir.
CNH em mudança: nova regra pode facilitar aprovação de motoristas; confira
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O texto também traz novas diretrizes para a realização das aulas práticas, permite a contratação direta de instrutores credenciados e estabelece parâmetros objetivos de avaliação nos exames. A proposta busca alinhar o processo de obtenção da CNH às tendências internacionais e à evolução tecnológica do setor automotivo, sem comprometer a segurança e a qualidade da formação.

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O que diz a minuta do projeto para as novas regras da CNH
A minuta permite que o candidato faça a prova prática em um veículo de transmissão automática, independentemente de o carro ser próprio, alugado ou cedido. A aprovação no exame permitirá a condução de veículos manuais e automáticos, já que, segundo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), a habilitação é concedida por categoria e não por tipo de transmissão.
Essa flexibilização atende a uma antiga demanda do setor de formação de condutores, que via a atual restrição como um obstáculo ao avanço tecnológico. Segundo o Ministério dos Transportes, a medida busca modernizar o ensino de direção, aproximando o Brasil das práticas adotadas em países como Estados Unidos, Canadá e Japão.
Mais liberdade para o candidato
Uma das principais inovações do texto é a autonomia do candidato para definir sua jornada de aprendizado. Após a aprovação na prova teórica, o aluno poderá agendar o exame prático “independentemente da realização prévia de aulas práticas”. Isso significa que a obrigatoriedade de cumprir uma carga horária mínima em autoescolas pode ser revista.
O aluno também poderá escolher o instrutor credenciado com quem deseja ter aulas e até fornecer o próprio veículo para a prática. Essa medida amplia a liberdade pedagógica das autoescolas e dá ao candidato mais controle sobre o processo de aprendizado.
Como será o novo exame prático
A avaliação de direção veicular será conduzida por uma comissão examinadora composta por três membros, sendo ao menos um deles habilitado em categoria igual ou superior à pretendida. O candidato começará a prova com nota 100 e perderá pontos de acordo com as infrações cometidas durante o percurso.
A pontuação será deduzida com base na gravidade das falhas:
- Peso 1 para infrações leves;
- Peso 2 para médias;
- Peso 3 para graves;
- Peso 4 para gravíssimas.
Para ser aprovado, será necessário alcançar nota mínima de 90 pontos. Essa padronização objetiva torna o processo mais transparente e reduz a margem de subjetividade na avaliação dos examinadores.
Fiscalização com tecnologia
O exame poderá ser monitorado eletronicamente por meio de câmeras, áudio, telemetria e sensores. Essas ferramentas permitirão verificar o cumprimento das regras e subsidiar eventuais contestações. O candidato terá acesso às gravações, garantindo um processo mais justo e auditável.
Quando houver registro eletrônico, a comissão poderá avaliar remotamente, desde que todas as informações estejam disponíveis. A medida visa padronizar os critérios de avaliação entre os estados e eliminar eventuais discrepâncias regionais.
Mudanças na carga horária e nas aulas práticas
A proposta também prevê ajustes na carga horária das aulas práticas e teóricas. O candidato poderá negociar livremente com o instrutor autorizado o número de aulas necessárias, conforme sua evolução. Isso elimina o formato rígido atualmente imposto pelas autoescolas, que exige uma quantidade mínima de horas antes da prova.
As aulas só poderão ocorrer após a emissão da Licença de Aprendizagem Veicular (LADV), em locais e horários autorizados pelo Detran. O veículo utilizado deverá seguir as especificações legais e conter identificação visível, como faixa amarela ou branca com a inscrição “AUTO-ESCOLA”.
Para categorias C, D e E, a minuta mantém a exigência mínima de dez horas de prática supervisionada, considerando o maior nível de responsabilidade desses condutores.
Democratização e redução de custos
Segundo o Ministério dos Transportes, o principal objetivo da mudança é democratizar o acesso à habilitação. Atualmente, o custo médio para obter a CNH é de cerca de R$ 3.215,64, sendo mais de 70% desse valor referente a taxas e custos de autoescolas.
Com a flexibilização, o governo espera reduzir os valores e permitir que mais brasileiros possam se habilitar, especialmente os que dependem da CNH para trabalhar. O ministro dos Transportes, Renan Filho, afirmou que a medida busca promover “justiça social” e combater a exclusão causada pelos altos custos.
A posição das entidades de trânsito
A Associação Nacional dos Detrans (AND) reconhece que os preços atuais são um problema, mas pede cautela. Para a entidade, é preciso garantir que a qualidade da formação não seja comprometida em nome da economia.
Especialistas alertam que a redução da carga horária prática pode aumentar o risco de acidentes de trânsito, caso não haja acompanhamento adequado. Por isso, a proposta de monitoramento eletrônico e padronização nacional das provas é vista como essencial para equilibrar liberdade e segurança.
O impacto nas autoescolas e instrutores
As autoescolas poderão manter um papel relevante, mas com um modelo de atuação mais flexível. Elas continuarão oferecendo cursos completos e suporte teórico, enquanto os instrutores autônomos ganharão espaço para atender candidatos que desejam um formato mais acessível.
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Esse novo cenário pode levar a uma reestruturação do mercado, estimulando a competitividade e melhorando a qualidade dos serviços. Para os instrutores, a independência representa novas oportunidades de negócio e a chance de ampliar a base de alunos.
CNH e mercado de trabalho
O governo ressalta que a CNH está diretamente relacionada ao acesso ao primeiro emprego e ao crescimento de atividades como transporte por aplicativo e entregas. Estima-se que cerca de 40 milhões de brasileiros aptos a dirigir ainda não possuem habilitação, em grande parte devido ao custo e à burocracia.
Com a flexibilização, espera-se que essa parcela da população possa se profissionalizar e ingressar em novos segmentos econômicos. Para os motoristas profissionais, a medida também deve facilitar a obtenção de categorias superiores, como C, D e E, essenciais para caminhoneiros e operadores de transporte coletivo.
Comparativo internacional
O modelo em análise segue exemplos de países como Estados Unidos, Canadá e Uruguai, onde o ensino de direção é menos centralizado e mais voltado à autonomia do cidadão. Nesses locais, o candidato pode aprender com instrutores particulares ou familiares e realizar exames supervisionados por órgãos públicos, mantendo altos índices de aprovação e segurança.
A adaptação brasileira busca equilibrar essa liberdade com a necessidade de fiscalização rigorosa, especialmente diante dos altos índices de acidentes de trânsito registrados anualmente.
O que ainda precisa ser definido
Apesar dos avanços, a minuta deixa alguns pontos em aberto. Entre eles, estão as normas de segurança para aulas práticas fora de ambientes controlados e o formato de certificação dos instrutores. Também não há detalhes sobre a oferta de material didático gratuito, o que pode criar desigualdade de acesso à preparação teórica.
Outro ponto de debate é a ausência de pedais duplos em veículos comuns, que garantem o controle do instrutor durante as aulas. A falta desse equipamento pode aumentar o risco de incidentes, caso o aluno ainda não tenha domínio sobre o veículo.
Consulta pública e próximos passos
O texto está em consulta pública até 2 de novembro, e todos os cidadãos podem enviar sugestões à Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). Após o encerramento, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) avaliará as contribuições e poderá aprovar a resolução ainda este ano.
Se aprovada, a nova regra deve entrar em vigor a partir de 2026, com um período de adaptação para os Detrans e autoescolas. O governo promete campanhas de informação e treinamento para garantir uma transição segura e transparente.

A nova proposta para a CNH marca um passo importante rumo à modernização do sistema de habilitação no Brasil. Ao permitir maior autonomia aos candidatos e incorporar tecnologias de avaliação, o projeto busca equilibrar inclusão social, segurança e eficiência.
Embora ainda gere dúvidas e resistência de parte do setor, a medida reflete uma tendência global de desburocratização e valorização da responsabilidade individual no trânsito. Se bem implementada, poderá não apenas facilitar o acesso ao documento, mas também contribuir para formar condutores mais conscientes, preparados e comprometidos com a segurança viária.
