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Senatran: transporte público de qualidade pode diminuir mortes em acidentes com motos

Secretário de Trânsito defende desburocratização da CNH para incluir milhões de motociclistas no sistema.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
Homem idoso sentado em banco dentro de um ônibus do transporte público.

O Brasil vive uma explosão no uso de motocicletas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a moto já representa mais da metade da frota de veículos em alguns estados. Em meio a esse avanço, o governo federal, por meio da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), propõe uma mudança estrutural na forma de habilitação de motociclistas, visando maior inclusão social, segurança viária e redução da informalidade.

Na segunda reportagem da série Rota Perigosa: brasileiros se arriscam em motos por renda e mobilidade, o secretário nacional de Trânsito, Adrualdo de Lima Catão, defendeu a desburocratização da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e rechaçou propostas de criação de impostos sobre motocicletas para compensar os custos do Sistema Único de Saúde (SUS) com sinistros de trânsito.

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Imagem: Freepik e Canva

Frota de motocicletas bate recordes e reflete fragilidade do transporte público

A frota de motos no Brasil já se aproxima de 30 milhões de veículos e cresce de forma acelerada. Segundo Catão, esse avanço é reflexo direto da precariedade do transporte coletivo nas grandes e médias cidades brasileiras.

“É natural que as pessoas, melhorando sua renda, queiram melhorar sua vida. E o transporte é um problema nas cidades. Então, ao buscar a motocicleta, elas estão fugindo de um transporte coletivo que ainda precisa melhorar”, explicou.

Dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) revelam uma queda expressiva no uso do transporte público em regiões metropolitanas entre 2005 e 2024. Na região metropolitana de Manaus, por exemplo, a participação do transporte coletivo nas viagens motorizadas caiu de 79,8% para 20,4%. Em Salvador, o recuo foi de 64,9% para 40,3%.

Essa migração para o transporte individual motorizado, especialmente as motos, representa uma mudança de comportamento social e urbano, segundo especialistas.

Por que tantos motociclistas estão sem habilitação?

Adrualdo Catão destacou que cerca de 20 milhões de pessoas pilotam motos no Brasil sem CNH, o que representa um desafio crítico para a segurança viária e para a fiscalização.

“Boa parte dos motociclistas está pilotando sem a carteira de habilitação porque o custo é muito alto. Precisamos baratear esse processo”, afirmou.

Hoje, o processo para obter a CNH categoria A pode ultrapassar os R$ 2.000 em muitas cidades, valor considerado proibitivo para grande parte da população de baixa renda.

CNH desburocratizada: proposta visa economia de até 80%

A proposta do Ministério dos Transportes, conforme detalhou Catão, é desvincular a obrigatoriedade das autoescolas e permitir que o cidadão possa:

  • Estudar para a prova teórica em plataformas online;
  • Realizar aulas práticas com instrutores autônomos credenciados.

“Essas duas mudanças podem reduzir o custo da CNH em até 80%, com uma média de 60% a 70% de economia. Isso é o que vai permitir incluir milhões de motociclistas no Sistema Nacional de Trânsito”, destacou.

A medida não elimina a necessidade de provas teóricas e práticas, mas amplia o acesso à formação legal, reduzindo a informalidade e estimulando um comportamento mais responsável no trânsito.

Gratuidade da CNH: política complementar e com alcance limitado

A gratuidade para a emissão da CNH já é prevista por uma lei que autoriza os Detrans a utilizar recursos das multas para custear programas sociais de habilitação. No entanto, segundo Catão, o alcance dessas iniciativas é limitado.

“Como a carteira ainda é muito cara, o número de pessoas atendidas é pequeno. Por isso, nossa estratégia é baratear a CNH para facilitar esses programas e expandir o acesso”, explicou.

Imposto sobre motos? “Isso é um absurdo”, diz secretário

Imagem: Reprodução

Diante de propostas debatidas por setores técnicos e acadêmicos que sugerem a criação de um imposto sobre motocicletas, em moldes semelhantes ao que é cobrado do cigarro — como forma de compensar os gastos públicos com acidentes —, Adrualdo Catão foi categórico:

“Isso é um absurdo. Vai penalizar o mais pobre. Como é que você vai criar uma trava penalizando o mais pobre? Esse não é o caminho. O caminho é garantir segurança com transporte público de qualidade.”

Segundo ele, qualquer proposta tributária que agrave o custo do transporte individual sem oferecer alternativas viáveis de mobilidade pública acaba sendo injusta e ineficaz.

Infraestrutura urbana precisa se adaptar à nova realidade

Além de mudanças na habilitação, Catão aponta que é preciso repensar a estrutura viária das cidades. A motocicleta é um veículo mais vulnerável, e as ruas brasileiras não estão preparadas para lidar com essa nova frota massiva.

“Temos que repensar a estrutura urbana, com gestão de velocidades, uso de moderadores de tráfego e adaptação à realidade de um trânsito com mais motos”, pontuou.

Entre os instrumentos destacados, estão:

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  • Gestão de velocidades com base no uso real das vias;
  • Moderadores de tráfego físicos, como lombadas e redutores, adaptados para segurança de motos;
  • Manuais e guias de boas práticas elaborados pela Senatran para ajudar os municípios a implementar medidas eficazes.

Mototáxi: uma decisão local

Sobre a atuação de mototáxis nas cidades, o secretário explicou que a regulação cabe aos municípios, pois se trata de um tema de transporte urbano local.

“Se a cidade quiser liberar, libera. Se quiser proibir, proíbe. A Senatran não interfere nisso, apenas orienta em termos de segurança”, afirmou.

Em muitas regiões, os mototáxis se tornaram essenciais para o deslocamento de populações periféricas, especialmente em áreas onde o transporte coletivo é precário ou inexistente.

Segurança viária e as plataformas digitais

Questionado sobre o papel das plataformas de entrega e transporte por aplicativo, o secretário destacou que essas empresas podem — e devem — colaborar mais com a segurança dos seus condutores.

“Elas têm como monitorar se o motorista está habilitado, acompanhar a velocidade, registrar sinistros. Precisam usar os dados que já têm para promover a segurança”, afirmou.

A Senatran já iniciou diálogo com as plataformas e com o Ministério Público do Trabalho para encontrar soluções conjuntas, que envolvam regulação, segurança do trabalho e responsabilidade compartilhada.

Moto: solução de mobilidade ou risco inevitável?

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Imagem: Kichigin / Shutterstock.com

Apesar dos riscos associados ao uso da motocicleta, especialmente em sinistros de trânsito, o secretário lembra que, nas condições atuais do Brasil, a moto ainda é uma alternativa acessível de mobilidade e geração de renda para milhões de brasileiros.

“Talvez se usasse a moto apenas para micromobilidade fosse mais seguro. Mas infelizmente, a moto está sendo usada como principal meio de transporte e isso também tem a ver com a política habitacional e a estrutura das cidades”, avaliou.

Segundo Catão, a segurança viária no Brasil precisa ser tratada como uma questão socioeconômica e não apenas técnica, envolvendo acesso à mobilidade, planejamento urbano, acesso à habilitação e políticas públicas integradas.

Imagem: Reprodução / Freepik

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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