A crescente disputa entre as montadoras chinesas de veículos elétricos ganhou um novo capítulo após declarações contundentes de executivos da Geely e da Great Wall Motor (GWM) contra a líder do setor, BYD. A crise, que teve início em 2023, foi reacendida com força neste ano, evidenciando a tensão no maior mercado de carros elétricos do mundo, impulsionado por uma guerra de preços que vem desestabilizando o setor.
Montadoras chinesas se voltam contra BYD após guerra de preços agressiva
Montadoras chinesas criticam BYD por guerra de preços e padrões de emissões; disputa acirra concorrência no mercado de veículos elétricos.
A origem do conflito remonta a alegações de irregularidades nos padrões de emissão dos veículos híbridos plug-in da BYD. Agora, com a entrada da Geely no embate, a disputa ganha contornos mais graves, atingindo não apenas aspectos comerciais, mas também regulatórios e ambientais.
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O início da crise: denúncias sobre emissões

Em 2023, a Great Wall Motor denunciou dois modelos híbridos da BYD — Qin Plus e Song Plus — às autoridades reguladoras chinesas, alegando que os veículos não atendiam aos padrões exigidos para emissões de poluentes. O ponto central da denúncia está no uso de tanques de combustível não pressurizados, que, segundo a GWM, permitem maior evaporação de líquidos, contrariando práticas adotadas por concorrentes que seguem padrões mais rígidos.
A BYD refutou as acusações na ocasião, alegando que seus veículos estavam em total conformidade com os regulamentos da época. Entretanto, o caso não foi encerrado. Em maio de 2025, o presidente da GWM, Wei Jianjun, reacendeu a controvérsia ao afirmar publicamente que a investigação regulatória ainda estava em curso.
Geely entra na disputa e amplia a pressão sobre a BYD
A tensão aumentou no último fim de semana, quando o vice-presidente da Geely, Victor Yang, apoiou publicamente as declarações da GWM durante uma conferência automotiva em Chongqing. Yang afirmou que a Geely conduziu seus próprios testes de emissão nos modelos citados e chegou às mesmas conclusões que a Great Wall Motor.
Segundo Yang, Wei Jianjun seria “o denunciante do setor” e uma figura de integridade, em uma clara tentativa de reforçar a credibilidade da denúncia. A declaração foi registrada por veículos locais como o The Paper e amplamente divulgada nas redes sociais chinesas.
A resposta da BYD veio por meio de Li Yunfei, gerente de marca e relações públicas da empresa, que usou sua conta na plataforma Weibo para afirmar que os tanques de combustível utilizados entre 2021 e 2023 estavam em conformidade com a legislação vigente na época. Contudo, admitiu que, por conta de reclamações de clientes, a empresa já havia substituído os componentes desde então.
A publicação, porém, foi apagada posteriormente, e a empresa não esclareceu os motivos. A Reuters informou que procurou a BYD, a GWM e a Geely, mas não obteve respostas adicionais.
Impactos da guerra de preços no setor automotivo chinês

A disputa técnica e regulatória ocorre em meio a uma acirrada guerra de preços promovida pela própria BYD. Nos últimos meses, a empresa reduziu drasticamente os valores de seus veículos, com seu modelo mais barato sendo comercializado por 55,8 mil iuans (cerca de US$ 7.770). A iniciativa abalou o mercado e forçou outras montadoras a reverem suas estratégias comerciais.
Como consequência, ações de diversas empresas do setor despencaram nas bolsas chinesas, refletindo a instabilidade causada por uma concorrência considerada predatória. A pressão sobre os revendedores também aumentou, com muitos acusando as fabricantes de “despejo de estoque” para manter níveis de produção elevados, mesmo com queda na demanda.
Diante do cenário, o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China (MIIT) convocou as montadoras para uma reunião de emergência, solicitando o fim da guerra de preços e maior responsabilidade comercial. Até o momento, o MIIT não se pronunciou oficialmente sobre as investigações relacionadas às emissões dos veículos da BYD.
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Setor dividido e tensões no horizonte
Híbridos e elétricos em foco
A China lidera globalmente a produção e comercialização de veículos elétricos e híbridos, com empresas como BYD, Nio, XPeng e Geely dominando grande parte do mercado. A concorrência feroz estimulou a inovação e a acessibilidade, mas também gerou práticas comerciais que agora estão sob forte escrutínio.
Com a BYD no centro das atenções, a credibilidade de seus modelos híbridos passa a ser questionada não apenas por concorrentes diretos, mas também por parte do público consumidor, preocupado com a transparência das práticas ambientais da indústria.
A influência internacional da disputa
O impacto da disputa pode ultrapassar as fronteiras chinesas. A BYD tem expandido sua atuação em mercados da América Latina, Europa e sudeste asiático. Qualquer mancha regulatória pode repercutir em órgãos internacionais e afetar negociações comerciais e certificações de emissão fora da China.
Além disso, a aliança informal entre Geely e GWM pode representar o início de uma reconfiguração de forças dentro do setor, com possíveis desdobramentos em alianças estratégicas e tecnológicas, visando conter o domínio da BYD.
Imagem: Gorodenkoff / Shutterstock.com

