A Federação Interestadual dos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras dos Correios (Findect) enviou na terça-feira (13) um ofício ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cobrando a devolução de R$ 3 bilhões em dividendos repassados à União entre 2011 e 2013, além de providências urgentes para enfrentar a crise financeira dos Correios. O documento foi também encaminhado ao vice-presidente Geraldo Alckmin, a ministros, parlamentares e ao presidente da empresa, Fabiano Silva dos Santos.
Correios em crise: trabalhadores exigem bilhões de volta e fim da ‘taxa das blusinhas’!
Federação dos Trabalhadores dos Correios pede a Lula devolução de R$ 3 bilhões em dividendos, criação de comitê de crise e mais, veja!
Segundo a federação, os dividendos teriam sido pagos ao governo durante o primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em um momento de prejuízo ou margem financeira reduzida da estatal, o que teria comprometido a capacidade de investimento da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT).
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Prejuízo bilionário em 2024 acende alerta
O alerta da Findect vem após a divulgação do balanço de 2024 dos Correios, que registrou um prejuízo de R$ 2,59 bilhões, quatro vezes maior que o resultado negativo de R$ 633,5 milhões apurado em 2023. A crise financeira é atribuída a uma série de fatores, como queda no volume de postagens, competição com empresas privadas, gargalos operacionais e aumento de custos fixos e logísticos.
A federação acusa os sucessivos governos de descapitalização da estatal, destacando que os dividendos pagos entre 2011 e 2013 ocorreram mesmo com a empresa operando sob forte pressão financeira.
“A retirada de dividendos comprometeu a capacidade de investimento da estatal e agravou seu endividamento”, afirmou a entidade no ofício.
Principais reivindicações dos trabalhadores dos Correios
O documento endereçado a Lula apresenta uma lista de reivindicações estratégicas para tentar reverter o cenário negativo e garantir a sustentabilidade da empresa. Entre os principais pedidos estão:
1. Devolução dos R$ 3 bilhões em dividendos pagos entre 2011 e 2013
A Findect argumenta que esses valores, transferidos à União em um contexto de crise, foram determinantes para a redução do patrimônio líquido da empresa, que encolheu 92,63% até 2016. A entidade defende que a devolução — mesmo que parcial — viabilize projetos de modernização e recuperação operacional, como a ampliação da atuação no comércio eletrônico.
2. Destinação de recursos do New Development Bank (NDB)
A carta solicita que os R$ 3,8 bilhões captados pelo governo brasileiro junto ao Novo Banco de Desenvolvimento (antigo Banco dos BRICS) sejam parcialmente destinados aos Correios, com foco em modernização de centros logísticos, digitalização de processos e ampliação do marketplace da estatal.
3. Criação de um Comitê de Crise com participação paritária
A federação propõe a criação imediata de um Comitê de Crise, com representantes do governo, da direção da ECT e dos trabalhadores. O objetivo é garantir transparência nos dados financeiros e operacionais, além de formular, de forma conjunta, um plano de recuperação que preserve direitos trabalhistas e assegure a continuidade e qualidade dos serviços postais.
4. Suspensão de medidas que afetem direitos e serviços
A Findect solicita a suspensão imediata de qualquer decisão que envolva cortes de direitos dos empregados ou redução de serviços essenciais, enquanto durar o processo de negociação e formulação do plano de recuperação.
5. Revogação da “taxa das blusinhas” e apoio ao PL 1440/25
A entidade também pede ao presidente Lula que apoie a revogação da Lei 14.902/24, que criou a chamada “taxa das blusinhas”, aplicada sobre encomendas internacionais de pequeno valor, especialmente de sites como Shein, AliExpress e Shopee.
A justificativa é que essa tributação encarece os pacotes, desestimula o comércio eletrônico e impacta diretamente o volume de entregas da estatal, comprometendo a receita dos Correios.
O ofício solicita ainda o apoio presidencial ao Projeto de Lei 1440/25, que amplia a faixa de isenção para compras internacionais de até US$ 600 por ano, o que, segundo os trabalhadores, fortaleceria o comércio digital e aumentaria a arrecadação da empresa.
6. Compromisso com os Correios como empresa pública estratégica
A carta conclui com a defesa dos Correios como uma empresa pública essencial para o desenvolvimento nacional, especialmente em áreas remotas e de difícil acesso. A Findect destaca o papel histórico da estatal na integração do território, distribuição de correspondências, encomendas, livros didáticos, vacinas e até urnas eleitorais.
“A Federação reafirma seu compromisso com os mais de 80 mil trabalhadores e com a defesa de um serviço postal público, eficiente e socialmente relevante”, pontua o texto.
Reunião com Lula e ministros solicitada

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A Findect também solicita uma reunião com o presidente Lula para discutir pessoalmente os pontos apresentados no documento. Cópias da carta foram encaminhadas aos ministros Frederico Siqueira (Comunicações), Simone Tebet (Planejamento e Orçamento), Esther Dweck (Gestão e Inovação), ao senador Renan Calheiros (MDB-AL) e ao presidente dos Correios, Fabiano Silva dos Santos.
A intenção é abrir um canal de diálogo que permita soluções conjuntas e ágeis, diante do agravamento da situação financeira da empresa.
Correios em crise: números e contexto
Os últimos anos foram marcados por um declínio contínuo nas finanças da ECT. O prejuízo acumulado em 2024 de R$ 2,59 bilhões é um reflexo de problemas estruturais e conjunturais. Entre os principais desafios enfrentados pela empresa, destacam-se:
- Concorrência acirrada com operadores logísticos privados;
- Queda nas receitas com postagens tradicionais, como cartas e boletos;
- Altos custos operacionais e logísticos;
- Falta de investimentos em tecnologia e automação;
- Burocracia e limitações legais por ser uma empresa pública.
O papel estratégico da estatal e os riscos da privatização
Mesmo diante da crise, os Correios seguem sendo um dos pilares da logística nacional, com presença em mais de 5.500 municípios brasileiros, muitos dos quais não são atendidos por empresas privadas de entrega.
A Findect reforça que a solução não está na privatização, mas sim em reestruturar a empresa com recursos públicos e uma gestão eficiente. O temor dos trabalhadores é que o desmonte financeiro da ECT possa abrir caminho para novas tentativas de venda da estatal, tema que voltou ao debate político em gestões anteriores.
Próximos passos

O governo federal ainda não respondeu oficialmente ao ofício da Findect, mas o envio do documento pode abrir uma nova rodada de discussões sobre o papel dos Correios, a gestão de estatais e o equilíbrio entre responsabilidade fiscal e investimento público.
Com o aumento da pressão por parte dos trabalhadores e diante da repercussão negativa dos prejuízos financeiros, a expectativa é de que o Palácio do Planalto avalie alternativas para socorrer a empresa, sem comprometer os pilares da política econômica do governo.
Imagem: SERGIO V S RANGEL/Shutterstock.com
