A recém-instalada Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS promete lançar luz sobre um dos escândalos mais graves envolvendo os direitos dos aposentados e pensionistas brasileiros: os descontos indevidos em folha salarial, operados por entidades supostamente ligadas a sindicatos e associações. No centro das discussões, uma possível convocação do sindicalista Frei Chico, irmão mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A possibilidade foi levantada pelo próprio relator da comissão, o deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO), que afirmou nesta quarta-feira (20/8) que Frei Chico poderá ser chamado para depor, caso as investigações apontem indícios concretos de envolvimento nas fraudes apuradas pela Polícia Federal (PF) na Operação Sem Desconto.
Clique no botao abaixo para liberar o conteudo completo gratuitamente.
Leia mais:
Motta adia escolha do relator da CPMI do INSS

Quem é Frei Chico e por que ele está sob o radar da CPMI?
Vice-presidente do Sindnapi e irmão do presidente Lula
José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, é uma figura histórica do movimento sindical brasileiro e irmão mais velho do presidente Lula. Atualmente, ele ocupa o cargo de vice-presidente do Sindnapi (Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Força Sindical) — uma das entidades investigadas na Operação Sem Desconto.
O Sindnapi é acusado de envolvimento em esquemas de descontos indevidos nos benefícios pagos pelo INSS, o que pode configurar fraude na filiação e cobrança irregular de mensalidades de milhões de beneficiários da Previdência Social.
“Se tiver de chamar, nós vamos chamar. Acontece que o interesse nele é mais em função de ser o irmão do presidente do que propriamente alguma coisa que o ligue verdadeiramente [ao esquema]”, declarou Ricardo Ayres.
O relator pondera que só haverá convocação se as investigações confirmarem que Frei Chico teve papel relevante nas práticas sob investigação.
A origem do escândalo: “A Farra do INSS”
Reportagens do Metrópoles embasaram operação da Polícia Federal
O escândalo teve origem em uma série de reportagens investigativas publicadas pelo portal Metrópoles, a partir de dezembro de 2023. Os jornalistas revelaram um esquema em que entidades sindicais e associações cobravam mensalidades indevidas diretamente da folha de pagamento do INSS, sem autorização dos segurados.
Em apenas um ano, as receitas dessas entidades cresceram de forma exponencial, atingindo R$ 2 bilhões, mesmo enquanto milhares de ações judiciais contra elas eram movidas por aposentados que alegavam nunca ter se filiado voluntariamente.
As reportagens impulsionaram uma ofensiva da Polícia Federal, da Controladoria-Geral da União (CGU) e, posteriormente, do Congresso Nacional, resultando na Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025.
Operação Sem Desconto: desdobramentos e demissões
Investigação levou à queda de dirigentes do INSS e do Ministério da Previdência
A operação teve como resultado direto a demissão de Alessandro Stefanutto, então presidente do INSS, e a renúncia de Carlos Lupi, que ocupava o Ministério da Previdência Social. Ambos foram pressionados a deixar seus cargos após a divulgação dos indícios de conivência ou omissão diante das irregularidades detectadas.
Segundo a Polícia Federal, 38 reportagens do Metrópoles foram utilizadas como base para a solicitação de mandados judiciais. Os agentes identificaram fortes indícios de falsidade ideológica, estelionato, organização criminosa e enriquecimento ilícito por parte das entidades envolvidas.
CPMI do INSS: composição e clima político

Comissão foi instalada sob resistência do governo
A instalação da CPMI enfrentou resistência do Palácio do Planalto, já que investigações parlamentares sobre órgãos do próprio governo podem resultar em desgaste político direto para a gestão de Lula. A oposição, por sua vez, pressionava para que a comissão fosse instalada desde os primeiros meses de 2024.
A CPMI conta com 16 titulares e 16 suplentes, e será presidida pelo senador Omar Aziz (PSD-AM), com relatoria do deputado Ricardo Ayres — ambos considerados nomes de perfil mais técnico e que não assinaram o pedido de criação da comissão, o que gerou críticas por parte de parlamentares da oposição.
Entre os membros confirmados estão também nomes de perfil mais combativo, como:
- Senador Magno Malta (PL-ES)
- Deputado Marcel Van Hattem (PL-RS)
- Senadora Damares Alves (Republicanos-DF)
O que será investigado pela CPMI?
Fraudes em descontos, falsificação de filiações e omissão do poder público
A CPMI terá como objetivo principal investigar:
- A legalidade e transparência nos descontos autorizados pelo INSS na folha de pagamento;
- A forma de filiação a entidades sindicais ou associativas;
- O envolvimento de servidores públicos ou agentes políticos no esquema;
- O papel das entidades sindicais investigadas, como o Sindnapi;
- A eventual conivência de gestores do INSS ou da Previdência;
- O impacto do esquema sobre o patrimônio dos aposentados e pensionistas.
“A gente quer saber quem autorizava, como funcionava o sistema de inclusão dos nomes dos aposentados, se havia de fato consentimento. Vamos rastrear tudo”, garantiu Ayres.
O papel da Força Sindical e o envolvimento institucional
Sindicatos e confederações sob suspeita
A Força Sindical, uma das principais centrais do país, está no foco da investigação por ser a base de atuação do Sindnapi. A CPMI deverá apurar se houve uso político ou financeiro indevido das receitas arrecadadas com os descontos em folha, inclusive com eventual desvio de verbas para campanhas eleitorais ou enriquecimento de dirigentes.
“O fato de uma entidade sindical arrecadar bilhões sem controle do governo é muito grave”, afirmou um membro da comissão.
A convocação de Frei Chico: possibilidade real ou pressão política?
Envolvimento depende de avanço das investigações
Embora o nome de Frei Chico tenha ganhado repercussão, o próprio relator admite que, até o momento, não há provas concretas de que ele tenha atuado diretamente no núcleo da fraude. No entanto, como vice-presidente de uma das entidades investigadas, ele poderá ser convocado caso fique comprovado que teve algum tipo de influência na operação das filiações irregulares.
“Se ele impulsionou alguma coisa? Se tratava nesse nível? Isso é o que o correr da investigação vai mostrar”, afirmou Ayres.
Repercussão no governo Lula

Nova frente de desgaste político
Apesar do esforço para manter o controle da comissão em mãos “neutras”, o governo não esconde a preocupação com a politização da CPMI. O risco de que a investigação atinja figuras próximas ao presidente ou revele omissões administrativas poderia minar a imagem de competência da gestão federal, especialmente no ano pré-eleitoral.
O Planalto, contudo, aposta na narrativa de que a atual gestão herdou o problema e que a reação foi imediata, com exonerações e apoio às investigações.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

