O novo modelo de empréstimo consignado para trabalhadores com carteira assinada, conhecido como Crédito do Trabalhador ou Consignado CLT, segue em expansão no país mesmo diante de juros elevados e da indefinição quanto ao uso do FGTS como garantia.
Consignado CLT dispara apesar dos juros elevados e da ausência do FGTS
Mesmo com R$ 11,4 bilhões já emprestados, o Consignado CLT ainda sofre com juros elevados e indefinições sobre o uso do FGTS.
Criado pela Medida Provisória (MP) 1.292/2025, o programa já movimentou mais de R$ 11,4 bilhões, beneficiando cerca de 2 milhões de trabalhadores, de acordo com o Ministério do Trabalho.
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O que é o Consignado CLT?

A proposta surgiu como alternativa de crédito mais acessível para trabalhadores do setor privado. Diferente do consignado tradicional voltado a aposentados e servidores públicos, o Consignado CLT é destinado exclusivamente a empregados com carteira assinada, com desconto das parcelas diretamente na folha de pagamento.
Desde março de 2025, o empréstimo pode ser contratado por meio da Carteira de Trabalho Digital (CTPS Digital) ou por bancos autorizados. A expectativa era de que o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como garantia ajudasse a reduzir os juros, mas isso ainda não foi regulamentado.
FGTS como garantia ainda está bloqueado
Por que a liberação do FGTS está travada?
Apesar de o governo sinalizar positivamente sobre o uso de até 10% do saldo do FGTS e 100% da multa rescisória como garantia, a medida depende da autorização do Conselho Curador do FGTS, colegiado composto por representantes do governo, empregadores e trabalhadores. A Caixa Econômica Federal, gestora do fundo, também aguarda essa regulamentação para operacionalizar o processo.
O advogado e professor da PUCRS, Eugênio Hainzenreder Júnior, afirma que a liberação não depende apenas de decisão política:
“O fundo de garantia é protegido, porque seus recursos são utilizados pelo país. Qualquer mudança precisa ser aprovada pelo Conselho Curador, e a Caixa apenas executa as decisões”, destaca o especialista.
A próxima reunião do Conselho está marcada para 24 de julho, e há expectativa de avanço nessa pauta.
Medida Provisória ainda em análise no Congresso
A MP 1.292/2025 precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional até o dia 9 de julho para continuar em vigor. Atualmente, está em análise em comissões mistas, com audiências públicas envolvendo bancos, sindicatos e cooperativas de crédito.
Segundo o advogado trabalhista Diego da Veiga Lima, o texto ainda pode sofrer modificações significativas:
“A proposta inicial nem previa o uso do FGTS como garantia. Esse ponto foi adicionado depois, como forma de tornar o crédito mais atraente ao trabalhador.”
Entre os tópicos discutidos no Congresso estão:
- Ampliação das garantias aceitas
- Inclusão de outras categorias profissionais
- Revisão dos critérios de concessão
Juros elevados preocupam analistas
Comparativo de taxas
Apesar de promessas de juros mais baixos com maior concorrência entre instituições financeiras, a realidade ainda é desfavorável. Segundo dados do Banco Central, a taxa média do Consignado CLT em abril foi de 3,94% ao mês, valor acima do esperado e maior do que a cobrada no consignado para aposentados e servidores, que gira em torno de 1,96% ao mês.
Em contraste, outras modalidades apresentam os seguintes valores médios:
- Crédito pessoal não consignado: 6,21% ao mês
- Cheque especial: 7,49% ao mês
Para Hainzenreder, a atual conjuntura não favorece o incentivo ao crédito:
“As taxas ainda são muito altas. Se o FGTS for aprovado como garantia, poderemos ver valores entre 1,2% e 2,1%. Até lá, é preciso cautela.”
A advogada trabalhista Natália Guazelli, da OAB/PR, também alerta:
“Sem teto fixado, os bancos têm liberdade para definir taxas. Algumas podem ser consideradas abusivas, especialmente quando não há transparência contratual.”
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Portabilidade digital entra em vigor

Uma das novidades do programa é a portabilidade digital de dívidas, que passa a ser permitida a partir desta sexta-feira (6 de junho) via CTPS Digital. A medida permite que trabalhadores transfiram empréstimos de um banco para outro com melhores condições.
Para o professor Hainzenreder, a digitalização é bem-vinda:
“Facilita a vida do trabalhador e contribui para a desburocratização. A portabilidade é um passo importante para estimular a concorrência saudável.”
Condição obrigatória da nova lei
Segundo Diego da Veiga Lima, a nova legislação exige que os contratos de crédito consignado sejam feitos por plataformas digitais públicas, como a CTPS Digital, o que deve facilitar a comparação de propostas e a transparência.
“A instituição que aceitar a portabilidade será obrigada a oferecer uma taxa menor do que a anterior. Isso tende a beneficiar o trabalhador.”
O que observar antes de contratar
Enquanto o uso do FGTS não for regulamentado, especialistas recomendam atenção redobrada aos seguintes pontos:
- Verificar se o banco está autorizado pelo governo
- Comparar taxas entre instituições
- Avaliar o comprometimento da renda mensal (máximo de 35%)
- Ler atentamente o contrato, especialmente cláusulas sobre garantias
- Analisar se a portabilidade de dívidas realmente vale a pena
Educação financeira ainda é um desafio
Outro fator de preocupação é a falta de educação financeira da população brasileira. Para Hainzenreder, esse é um problema estrutural:
“A ausência de educação financeira básica nas escolas leva as pessoas a comprometerem sua renda sem planejamento. O crédito pode ser útil, mas também representa risco se mal utilizado.”
Imagem: Freepik e Canva

