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Crédito fácil, dívida certa: novo dado revela explosão de 80% no consignado!

Em apenas 5 meses, o consignado do Crédito do Trabalhador fez o endividamento das famílias saltar 80%, segundo dados do Banco Central.

Juliana PeixotoPor Juliana Peixoto6 min de leitura
crédito consignado

O endividamento das famílias brasileiras deu um salto preocupante em 2025. O programa de consignado Crédito do Trabalhador, criado pelo Governo Lula para oferecer uma alternativa mais barata ao crédito tradicional, impulsionou um aumento de 80% no saldo de operações consignadas em apenas cinco meses — de R$ 18,4 bilhões em fevereiro para R$ 33,1 bilhões em julho, segundo o Banco Central (BC).

A proposta era simples: facilitar o acesso dos trabalhadores da iniciativa privada a empréstimos com juros menores. Mas a realidade mostra um cenário diferente — de crescimento rápido, juros elevados e risco de inadimplência crescente.

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O que é o Crédito do Trabalhador

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Imagem: Freepik e Canva

O Crédito do Trabalhador é uma modalidade de crédito consignado voltada para empregados do setor privado, que permite o desconto direto das parcelas na folha de pagamento. Diferentemente do consignado tradicional, que depende de convênios entre empresas e bancos, essa versão tem regras mais flexíveis e alcança públicos antes excluídos do sistema financeiro.

Desde fevereiro, o governo ampliou o acesso à linha para trabalhadores com vínculos formais diversos, como rurais, domésticos e temporários. A modalidade também permite o uso de FGTS e multa rescisória como garantia em caso de inadimplência, uma tentativa de reduzir riscos para os bancos e baratear o crédito.

Apesar da intenção de promover inclusão financeira, o perfil dos contratantes mostra que a maior parte dos tomadores possui baixa renda, menor escolaridade e pouco tempo de empresa — exatamente o grupo mais vulnerável ao superendividamento.


O salto no endividamento

Os números do Banco Central deixam claro o tamanho da expansão. Entre março e julho, foram firmados 3 milhões de contratos de crédito consignado privado, dos quais 2,3 milhões pertencem ao Crédito do Trabalhador.

As concessões somaram R$ 21,9 bilhões no período, sendo R$ 13,6 bilhões referentes à nova modalidade. Em comparação, o crédito consignado tradicional cresceu R$ 13,6 bilhões no mesmo intervalo — um aumento menor que o registrado pelo novo produto.

O crescimento rápido do Crédito do Trabalhador indica uma forte adesão entre os brasileiros de menor renda, mas também eleva o risco de endividamento estrutural, já que a renda média desse grupo é mais baixa e o comprometimento do salário tende a ser maior.


Renda menor, juros maiores

Os dados do BC revelam que o Crédito do Trabalhador é mais caro que o consignado tradicional. A taxa média de juros atingiu 58% ao ano, enquanto o crédito consignado por convênio registrou 36,2% ao ano no mesmo período.

A diferença é explicada, segundo o BC, pelo perfil de maior risco dos tomadores. O cruzamento de dados com a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) mostrou que essas pessoas trabalham em empresas menores, têm menor estabilidade e salários mais baixos.

A mediana da renda caiu de R$ 2.925 para R$ 2.603 entre os grupos comparados. Além disso, há menos trabalhadores com ensino médio ou superior completo, o que amplia a vulnerabilidade financeira.

“O tomador deste novo crédito é um trabalhador de menor instrução e renda, menos tempo de empresa e atuando em negócios de menor porte”, explicou o diretor de Política Econômica do Banco Central, Diogo Abry Guillen, em coletiva realizada em setembro.


Especialistas alertam para “bomba-relógio”

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Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Economistas veem com preocupação o ritmo de crescimento do Crédito do Trabalhador. Para Fábio Bentes, economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio), o consignado é uma boa ferramenta quando usado para trocar dívidas caras por baratas, mas pode se tornar um risco quando usado sem planejamento.

“O problema não é a linha de crédito, é como o tomador vai se comportar. Se ele usar para se endividar ainda mais, pode virar uma bomba-relógio”, alerta Bentes.

O especialista lembra que o rotativo do cartão de crédito atinge juros médios de 451,5% ao ano, o que torna o consignado mais vantajoso — desde que seja usado com responsabilidade.

Um levantamento da Abefin (Associação Brasileira dos Profissionais de Educação Financeira) mostrou que 69% dos brasileiros não calcularam o impacto do empréstimo no salário antes de contratar. O estudo revelou ainda que 83% não sabem a taxa de juros que estão pagando.

“Estamos falando de pessoas que comprometem parte do salário sem entender o custo real disso. É uma decisão emocional, não técnica”, afirmou Reinaldo Domingos, presidente da Abefin.


Quando o crédito vira armadilha

De acordo com a Abefin, 36% dos tomadores usaram o crédito para quitar dívidas caras, como cartão de crédito e cheque especial — o que, na teoria, ajuda a reduzir o endividamento.

Mas a maioria, cerca de 64%, utilizou o dinheiro para consumo imediato ou emergências, sem eliminar débitos anteriores. Esse comportamento pode levar a um efeito bola de neve, em que novas parcelas se somam às dívidas antigas.

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A inadimplência ainda é relativamente baixa no consignado, mas especialistas alertam que, se a renda das famílias continuar comprometida com dívidas, o risco de calote aumentará.

“Se a pessoa já tem 80% ou 90% da renda comprometida e continua tomando crédito, o problema é inevitável”, disse Bentes.


A visão do governo

O Ministério do Trabalho e Emprego defende o programa como instrumento de inclusão financeira. Segundo dados oficiais, até setembro já haviam sido contratados R$ 50 bilhões em crédito, beneficiando 5,4 milhões de trabalhadores.

Para o secretário de Políticas de Proteção ao Trabalhador, Carlos Augusto Simões Gonçalves, a linha é positiva se comparada ao crédito pessoal comum.

“Enquanto a taxa de juros nos empréstimos pessoais se manteve próxima de 11% ao mês, o Crédito do Trabalhador apresenta taxa média de 3,42% ao mês”, afirmou o secretário.

O governo também aponta que parte do volume contratado corresponde à renegociação de dívidas antigas, o que, na visão oficial, contribui para limpar o nome de milhões de brasileiros.


O desafio da educação financeira

Apesar das boas intenções, especialistas concordam que sem educação financeira, o crédito barato pode ter efeito reverso. A facilidade de acesso e o desconto automático na folha fazem muitos trabalhadores subestimarem o impacto real da dívida.

“O brasileiro ainda confunde limite com dinheiro disponível. O consignado deveria ser usado como ferramenta de reorganização financeira, e não como complemento de renda”, observa Domingos, da Abefin.

A discussão sobre o Crédito do Trabalhador, portanto, vai além dos números. Ela expõe um dilema recorrente no país: como equilibrar acesso ao crédito com responsabilidade financeira.

Imagem: Freepik e Canva

Juliana Peixoto

Autor

Juliana Peixoto

Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.

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