O risco de crédito no Brasil já não pode ser medido apenas pelos balanços dos grandes bancos. Fundos que compram dívidas, fintechs e plataformas de comércio eletrônico passaram a financiar uma parcela crescente de consumidores e empresas, criando novos caminhos para a circulação — e também para a distribuição — de eventuais perdas.
Esse movimento entrou no radar do BTG Pactual. Em relatório, o banco afirma que os sinais de deterioração do crédito ficaram mais disseminados em 2026 e podem ganhar força se a economia desacelerar em 2027.
O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia, envolvendo R$ 17,3 bilhões em passivos, ajudou a trazer os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, conhecidos como FIDCs, para o centro do debate. Ao mesmo tempo, o avanço do crédito concedido por plataformas digitais levanta dúvidas sobre inadimplência, liquidez e capacidade de absorção de perdas.
O alerta não significa que uma nova crise bancária seja inevitável. Ele indica que investidores, empresas e autoridades precisarão acompanhar um sistema de crédito mais amplo, pulverizado e, em alguns casos, menos transparente para o público.
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O que é risco de crédito?

Risco de crédito é a possibilidade de uma pessoa ou empresa não pagar uma dívida conforme o combinado. Isso pode acontecer por atraso, renegociação, recuperação judicial ou inadimplência definitiva.
Quando um banco concede um empréstimo, ele assume o risco de não receber o dinheiro de volta. Para reduzir esse perigo, analisa renda, histórico de pagamentos, garantias e capacidade financeira do cliente.
O mesmo raciocínio vale quando um fundo compra parcelas de cartão, duplicatas, mensalidades, empréstimos ou outros valores que serão pagos no futuro. Se os devedores não cumprirem suas obrigações, o fundo pode sofrer perdas.
O problema se torna mais relevante quando o crédito cresce rapidamente. Durante a expansão, grande parte dos contratos ainda está em dia. As dificuldades costumam aparecer meses depois, quando as parcelas vencem e as carteiras ficam mais maduras.
Por que o risco deixou de estar apenas nos bancos?
Os bancos continuam sendo peças centrais do sistema financeiro, mas já não são os únicos responsáveis pela concessão de crédito. Empresas de tecnologia, varejistas, fintechs e marketplaces passaram a oferecer empréstimos, parcelamentos e capital de giro.
Muitas dessas companhias não mantêm todo o crédito em seus próprios balanços. Elas podem transferir os recebíveis para um FIDC, que capta recursos de investidores e usa o dinheiro para comprar essas dívidas.
O modelo ajuda a ampliar o financiamento disponível. Uma empresa não precisa esperar o cliente pagar todas as prestações para recuperar o dinheiro de uma venda parcelada. Ela pode vender o recebível ao fundo e antecipar os recursos.
Ao mesmo tempo, o risco deixa de ficar concentrado na empresa que originou o crédito. Ele passa a ser distribuído entre fundos, gestoras, investidores e outros participantes do mercado.
O que é um FIDC e como ele funciona?
FIDC é a sigla para Fundo de Investimento em Direitos Creditórios. Esses direitos são valores que uma pessoa ou empresa tem a receber no futuro.
Podem integrar um FIDC, por exemplo:
- parcelas de vendas no varejo;
- duplicatas emitidas por empresas;
- mensalidades escolares;
- prestações de financiamentos;
- empréstimos concedidos por fintechs;
- recebíveis de cartões;
- contratos de aluguel;
- créditos consignados.
Considere um exemplo hipotético. Uma loja vende R$ 10 milhões em produtos parcelados, mas precisa do dinheiro antes do vencimento das prestações. Um FIDC pode comprar esses recebíveis por um valor menor, como R$ 9,5 milhões.
A loja recebe os recursos antecipadamente. O fundo, por sua vez, espera receber os R$ 10 milhões dos clientes ao longo do tempo. A diferença ajuda a remunerar os investidores, depois dos custos.
Se muitos consumidores deixarem de pagar, o retorno esperado diminui. Dependendo da intensidade da inadimplência e das proteções existentes, o fundo pode registrar prejuízo.
Por que os FIDCs cresceram tanto?
Os FIDCs se tornaram uma fonte relevante de financiamento para empresas que buscam alternativas ao crédito bancário tradicional. Também ganharam espaço com o desenvolvimento das fintechs e do comércio eletrônico.
Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, a Anbima, citados pelo BTG, a indústria brasileira de FIDCs chegou a aproximadamente R$ 765 bilhões em patrimônio. O crescimento acumulado desde outubro de 2024 seria de 42%.
Em maio de 2026, uma publicação institucional da Anbima já apontava patrimônio de R$ 733,9 bilhões no segmento. Os números mostram como esses fundos se tornaram importantes para o financiamento da economia.
O crescimento, isoladamente, não representa um problema. O risco surge quando a expansão acontece mais rapidamente do que a capacidade de analisar os clientes, formar reservas, acompanhar a inadimplência e dar transparência aos investidores.
Casas Bahia expõe como o risco pode se espalhar
O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia colocou os FIDCs em evidência porque diferentes fundos aparecem entre os credores ou possuem exposição a recebíveis relacionados à varejista.
A companhia pediu proteção judicial para renegociar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em passivos. Recuperação judicial é um processo que permite à empresa reorganizar suas dívidas sob supervisão da Justiça, com o objetivo de continuar funcionando e evitar a falência.
O processo não significa que todos os créditos serão perdidos. Os credores poderão discutir prazos, descontos, garantias e condições de pagamento dentro do plano de recuperação.
Ainda assim, o episódio mostra que a dificuldade financeira de uma grande empresa pode atingir uma cadeia ampla. Além de bancos e fornecedores, podem ser afetados fundos, debenturistas e investidores que adquiriram créditos ligados ao grupo.
FIDC exposto não significa prejuízo automático
A simples presença de um FIDC entre os credores não permite concluir que todos os cotistas perderão dinheiro. É necessário conhecer a natureza do crédito, as garantias, a prioridade de pagamento e a estrutura de proteção do fundo.
Também é preciso diferenciar os recebíveis. Em alguns casos, o fundo compra parcelas que serão pagas pelos consumidores, e não uma dívida que depende diretamente do caixa da varejista. A forma como os pagamentos estão separados da empresa originadora pode alterar o risco.
Por isso, a análise não deve se limitar ao nome da companhia associada ao fundo. É necessário verificar o regulamento, a carteira, os devedores finais e a estrutura jurídica da operação.
O que preocupa o BTG nos FIDCs?
O BTG afirma que os FIDCs não são problemáticos por natureza. A preocupação está concentrada em três fatores: liquidez, concentração e formação de preços.
Liquidez
Liquidez é a facilidade de transformar um investimento em dinheiro sem aceitar uma perda relevante.
Muitos direitos creditórios não possuem um mercado secundário ativo. Isso significa que pode ser difícil vender rapidamente a carteira de um fundo se houver aumento dos pedidos de resgate ou piora na qualidade dos créditos.
Nos fundos fechados, em que o resgate antes do encerramento normalmente não é permitido, o risco aparece de outra maneira. O investidor pode ter dificuldade para vender sua cota no mercado.
Concentração
Um FIDC pode ficar muito dependente de uma empresa, de um grupo de devedores ou de um setor da economia. Nesse caso, um evento isolado pode provocar impacto elevado na carteira.
Um fundo concentrado em crédito de varejistas, por exemplo, fica mais exposto a uma queda no consumo. Outro que financia pequenas empresas pode sofrer mais se a economia desacelerar e os custos financeiros permanecerem elevados.
A concentração não é necessariamente inadequada, mas precisa ser conhecida e compatível com o retorno prometido.
Formação de preços
Os ativos de um FIDC nem sempre são negociados diariamente em um mercado com muitos compradores e vendedores. Por isso, determinar quanto cada crédito realmente vale pode ser difícil.
Quando não há preço de mercado disponível, a avaliação depende de modelos, estimativas de inadimplência e taxas de desconto. Uma piora pode demorar a aparecer integralmente no valor das cotas.
Esse é um dos motivos pelos quais o risco pode parecer controlado durante algum tempo e se tornar visível apenas depois de um evento mais grave.
FIDCs são regulamentados?
Sim. Os FIDCs são regulamentados e fiscalizados pela Comissão de Valores Mobiliários, a CVM. As regras estão principalmente na Resolução CVM 175 e em seu anexo específico para fundos de direitos creditórios.
A norma estabelece requisitos para funcionamento, divulgação de informações, prestação de serviços, composição da carteira e responsabilidade dos participantes.
Regulamentação, porém, não significa garantia contra prejuízos. A CVM organiza o mercado e fiscaliza o cumprimento das regras, mas não assegura a rentabilidade nem cobre perdas provocadas pela inadimplência.
Os FIDCs também não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC. Portanto, o investidor não recebe a cobertura de até R$ 250 mil que pode existir em determinados produtos bancários.
Por que um FIDC não funciona como um banco?
Os bancos precisam cumprir exigências prudenciais de capital e liquidez definidas pelo Banco Central. Em termos simples, devem manter recursos próprios e ativos líquidos compatíveis com os riscos assumidos.
Essas regras ajudam a instituição a suportar perdas e atender clientes que desejam movimentar ou retirar dinheiro.
Os FIDCs seguem outro modelo. São fundos de investimento regulados pela CVM e não instituições que recebem depósitos bancários do público.
Essa diferença não torna os fundos automaticamente frágeis, mas exige uma forma distinta de avaliação. O investidor precisa observar a qualidade dos recebíveis, as garantias, a concentração e a capacidade dos prestadores de serviço.
Como funcionam as cotas seniores e subordinadas?
Muitos FIDCs possuem diferentes classes de cotas. Elas definem quem absorve primeiro as perdas e quem recebe os pagamentos com prioridade.
As cotas subordinadas costumam funcionar como uma camada de proteção. Seus titulares absorvem os primeiros prejuízos antes que as perdas atinjam as cotas seniores.
Imagine um fundo com R$ 100 milhões, dos quais R$ 20 milhões estão em cotas subordinadas e R$ 80 milhões em cotas seniores. Se a carteira perder R$ 10 milhões, o impacto pode ficar inicialmente concentrado na parcela subordinada.
Essa proteção é chamada de subordinação. Quanto maior e mais adequada for essa camada, maior tende a ser a proteção inicial dos cotistas seniores.
Ainda assim, a proteção não é ilimitada. Se as perdas ultrapassarem a parcela subordinada, as cotas seniores também poderão ser afetadas.
Crédito da Shopee cresce e entra no radar
O relatório do BTG também chama atenção para a rápida expansão do crédito relacionado à Shopee. Segundo o banco, dois FIDCs ligados ao ecossistema da plataforma alcançaram aproximadamente R$ 7,5 bilhões em julho de 2026.
O valor representaria crescimento de 201% em 12 meses e equivaleria a cerca de 92% da carteira comparável de FIDCs brasileiros do Mercado Livre.
Plataformas digitais têm vantagens importantes na concessão de crédito. Elas conhecem o histórico de vendas, faturamento, devoluções, avaliações e comportamento dos vendedores dentro do marketplace.
Essas informações ajudam a estimar a capacidade de pagamento e permitem oferecer capital de giro de maneira rápida. O crédito também pode aumentar as vendas e manter comerciantes ativos na plataforma.
O risco aparece quando a concessão cresce em ritmo muito acelerado. Uma parte relevante dos contratos ainda pode ser recente demais para mostrar o nível final de inadimplência.
O que significa carteira imatura?
Uma carteira é considerada imatura quando grande parte dos empréstimos foi concedida recentemente e ainda não teve tempo suficiente para apresentar atrasos prolongados.
Um crédito com apenas 30 dias de existência pode estar sendo pago normalmente. Isso não garante que o cliente continuará adimplente durante os 12 ou 24 meses seguintes.
Quando entram muitos contratos novos, o crescimento da carteira pode reduzir temporariamente a proporção de empréstimos atrasados. O indicador parece saudável porque os créditos recentes ainda não passaram pelos períodos de maior risco.
Por isso, analistas observam as chamadas safras de crédito. Cada grupo de contratos é acompanhado desde a concessão para verificar como a inadimplência evolui ao longo dos meses.
Bancos também mostram sinais de deterioração
A preocupação do BTG não se limita aos fundos e às plataformas digitais. O banco avalia que o segundo trimestre de 2026 pode ter marcado uma mudança no comportamento das carteiras bancárias.
Os comentários das administrações ficaram mais cautelosos e a pressão apareceu em diferentes produtos e instituições. O relatório cita, entre os exemplos, a deterioração observada na carteira de cartões do Banco do Brasil.
Isso não significa que todos os bancos estejam enfrentando a mesma situação. A qualidade do crédito varia conforme o perfil dos clientes, os setores financiados, as garantias e os critérios usados na concessão.
O alerta está na disseminação dos sinais. Quando a piora aparece em diferentes instituições e modalidades, ela pode refletir um ambiente econômico mais difícil, e não apenas um problema isolado de gestão.
Por que 2027 pode ser mais desafiador?
O desempenho do crédito depende diretamente da capacidade de pagamento de famílias e empresas. Essa capacidade é influenciada por renda, emprego, juros, inflação, atividade econômica e nível de endividamento.
Se a economia desacelerar em 2027, empresas poderão vender menos e consumidores terão maior dificuldade para manter as parcelas em dia. Esse cenário tende a elevar atrasos, renegociações e inadimplência.
O impacto pode ocorrer em sequência:
- famílias e empresas perdem capacidade de pagamento;
- os atrasos aumentam;
- bancos e fundos ampliam provisões para perdas;
- a oferta de crédito fica mais seletiva;
- juros e exigências para novos empréstimos podem subir;
- consumo e investimento perdem força.
Trata-se de um ciclo de retroalimentação. A piora econômica prejudica o crédito, enquanto o crédito mais caro e restrito pode aprofundar a desaceleração.
O cenário apontado pelo BTG é um risco, não uma previsão inevitável. A evolução dependerá das condições econômicas, da política de juros e da qualidade das carteiras.
Por que o Nubank aparece em posição diferente?
Na avaliação do BTG, o Nubank apresenta vantagens estruturais que podem se tornar mais evidentes em períodos de crédito difícil.
Uma delas seria a chamada principalidade. O termo indica que o cliente usa a instituição como seu relacionamento financeiro principal, recebendo salário, pagando contas e movimentando dinheiro com frequência.
Quanto maior o relacionamento, mais informações a instituição possui para analisar a capacidade de pagamento. O cliente também tende a priorizar a dívida do banco que concentra sua vida financeira.
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Segundo informações atribuídas à administração do Nubank no relatório, a inadimplência entre os clientes que mantêm o banco como relacionamento principal seria próxima da metade da média da carteira.
Isso não elimina os riscos. O Nubank também concede crédito sem garantia e está exposto à situação financeira das famílias. A análise do BTG apenas sugere que o volume de dados e o engajamento dos clientes podem ajudar a diferenciar a qualidade das carteiras.
O que esse alerta muda para os consumidores?
O consumidor não precisa deixar de usar fintechs, marketplaces ou cartões por causa do relatório. O risco discutido está principalmente nas instituições e nos investidores que financiam essas operações.
Ainda assim, uma piora mais ampla pode produzir efeitos no dia a dia. Bancos e plataformas podem:
- reduzir limites;
- aumentar taxas;
- exigir mais informações;
- recusar clientes com maior risco;
- diminuir prazos de parcelamento;
- restringir crédito para vendedores;
- reforçar a cobrança de dívidas atrasadas.
Quem depende de crédito para equilibrar o orçamento deve evitar assumir parcelas contando com uma renda futura incerta. Em períodos de maior cautela, refinanciar uma dívida pode ficar mais caro e difícil.
O que o investidor deve observar em um FIDC?
O primeiro cuidado é não escolher um fundo apenas pela rentabilidade prometida. Taxas maiores normalmente representam riscos maiores, menor liquidez ou estruturas mais complexas.
Antes de investir, é importante analisar:
- quais direitos creditórios formam a carteira;
- quem originou os créditos;
- quem são os devedores;
- qual é a concentração por empresa e setor;
- quanto da carteira está atrasado;
- qual é a parcela de cotas subordinadas;
- quais garantias existem;
- como os ativos são avaliados;
- quais são os prazos de resgate;
- quem administra e gere o fundo;
- quais são as taxas cobradas.
Também é necessário verificar se a aplicação é destinada ao público em geral, a investidores qualificados ou a investidores profissionais. Algumas estruturas possuem restrições justamente por apresentarem maior complexidade.
A Resolução CVM 175 ampliou e consolidou as regras aplicáveis aos fundos. Mesmo assim, cabe ao investidor entender o produto e verificar se ele combina com seus objetivos e sua tolerância a perdas.
Quem investe em renda fixa comum pode ser atingido?
A exposição direta ocorre quando a pessoa compra cotas de um FIDC. Também pode existir exposição indireta se um fundo de renda fixa, multimercado ou previdenciário mantiver cotas de FIDCs na carteira.
Isso não significa que todos os fundos tradicionais estejam vulneráveis a uma eventual crise de crédito. O impacto depende do tamanho da posição, da qualidade dos ativos e da diversificação.
O investidor pode consultar a lâmina, o regulamento e os relatórios periódicos do fundo. Também pode verificar a composição da carteira nos canais da gestora e da CVM.
Em caso de dúvida, vale perguntar diretamente se o produto investe em direitos creditórios e qual percentual do patrimônio está exposto a esse segmento.
FIDCs podem baratear o crédito?
Sim. Apesar dos riscos, os FIDCs cumprem um papel importante na economia. Eles aumentam as fontes de financiamento e reduzem a dependência dos empréstimos bancários tradicionais.
Instrumentos como a duplicata escritural também podem tornar o mercado mais seguro. A duplicata representa um valor que uma empresa tem a receber por uma venda ou prestação de serviço. No modelo escritural, o registro é eletrônico e centralizado.
Essa estrutura reduz o risco de fraude e de dupla cessão, situação em que o mesmo recebível é oferecido a mais de um financiador. Quanto maior a segurança jurídica e a qualidade das informações, menor tende a ser o risco cobrado na taxa.
Portanto, a solução não é interromper o crescimento dos FIDCs. O desafio é combinar expansão com transparência, boa análise de crédito, diversificação e controles adequados.
O alerta indica uma crise semelhante à dos anos 1990?
Não. O próprio paralelo mencionado pelo BTG não representa uma previsão de repetição da crise bancária observada na década de 1990.
Naquele período, mudanças econômicas profundas expuseram fragilidades e produziram grande diferença entre instituições vencedoras e perdedoras. O paralelo serve para destacar que alterações macroeconômicas e competitivas podem separar empresas bem preparadas de modelos mais frágeis.
Hoje, o sistema bancário possui regras de capital, liquidez e supervisão mais desenvolvidas. A preocupação está no crescimento do crédito fora das estruturas bancárias tradicionais e na dificuldade de enxergar rapidamente onde determinadas perdas estão concentradas.
O que acompanhar até 2027?
O risco de crédito não pode ser avaliado por um único número. Para entender se o cenário está realmente piorando, será necessário acompanhar diversos indicadores.
Os principais são:
- inadimplência das famílias e empresas;
- atrasos acima de 90 dias;
- renegociação de dívidas;
- recuperação judicial de empresas;
- provisões constituídas pelos bancos;
- desempenho das safras de crédito;
- valor das cotas e inadimplência dos FIDCs;
- concentração das carteiras;
- crescimento do crédito em fintechs e plataformas;
- evolução da atividade econômica e do emprego.
O alerta do BTG mostra que olhar apenas para os bancos pode produzir uma visão incompleta. À medida que o financiamento migra para fundos e plataformas digitais, o risco também se desloca.
Para o consumidor, o principal cuidado é não assumir dívidas acima da capacidade de pagamento. Para o investidor, o próximo passo é examinar a origem dos rendimentos e a qualidade dos créditos, especialmente quando um produto promete retorno elevado com aparência de renda fixa.
Perguntas frequentes sobre risco de crédito e FIDCs

O que é um FIDC?
FIDC é um fundo que investe em direitos creditórios, como parcelas de vendas, duplicatas, empréstimos e recebíveis de cartões. Seu retorno depende do pagamento dessas dívidas.
FIDC tem garantia do FGC?
Não. As cotas de FIDCs não possuem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. O investidor pode sofrer perdas se os devedores não pagarem.
Todo FIDC é um investimento de alto risco?
Não. O risco varia conforme a qualidade dos créditos, a diversificação, as garantias e a estrutura das cotas. O produto, entretanto, exige uma análise mais detalhada do que aplicações bancárias simples.
A recuperação judicial da Casas Bahia afeta todos os FIDCs?
Não. O impacto depende da exposição de cada fundo, da natureza dos recebíveis e das garantias existentes. A presença da companhia em uma carteira não significa perda total ou automática.
Por que o crédito da Shopee preocupa o mercado?
A preocupação está no ritmo acelerado de crescimento. Carteiras recentes podem ainda não ter maturidade suficiente para mostrar o nível final de inadimplência.
Os FIDCs são fiscalizados?
Sim. Os FIDCs são regulamentados e fiscalizados pela CVM, principalmente por meio da Resolução CVM 175 e de seu anexo específico.
O alerta do BTG significa que haverá uma crise em 2027?
Não. O banco aponta riscos que podem aumentar caso a economia desacelere. O resultado dependerá do emprego, dos juros, da atividade econômica e da qualidade das carteiras.



