As redes sociais nasceram com a promessa de aproximar pessoas, reduzir distâncias e fortalecer laços entre amigos, familiares e comunidades. Duas décadas depois, esse ideal parece cada vez mais distante. Durante o encerramento do Voices 2025, evento promovido pela Editora Globo no Museu de Arte do Rio, o criador do Orkut, Orkut Büyükkökten, fez uma análise contundente sobre o rumo das plataformas digitais e alertou para o impacto profundo que os algoritmos causaram nas relações humanas, na saúde mental e no tecido social.
Criador do Orkut critica redes atuais e defende foco em conexões reais
Criador do Orkut critica redes sociais atuais, aponta efeitos dos algoritmos e defende o resgate de conexões reais e comunidades autênticas.
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Em uma apresentação de cerca de 30 minutos, o engenheiro de software revisitou a essência das primeiras redes sociais, criticou o modelo atual baseado em engajamento e lucro e defendeu a reconstrução de ambientes digitais voltados a conexões reais, profundas e humanas.
O Voices 2025 e o retorno simbólico de Orkut Büyükkökten
O Voices 2025 reuniu especialistas brasileiros e internacionais para debater tecnologia, comportamento digital, inteligência artificial e inovação. O encerramento ficou a cargo de Orkut Büyükkökten, cuja trajetória se confunde com a história das redes sociais no Brasil e no mundo.
Criador de uma das plataformas mais populares dos anos 2000, ele voltou ao país para refletir sobre como aquilo que nasceu como um espaço de amizade e comunidade se transformou em um ambiente de competição, comparação e solidão.
O que mudou com as novas redes sociais
Durante sua fala, Orkut Büyükkökten destacou que as redes sociais contemporâneas são radicalmente diferentes do que ele idealizou no início do século. Segundo ele, o ponto de inflexão ocorreu quando as plataformas passaram a priorizar métricas de engajamento em detrimento das relações humanas.
A virada provocada pelos algoritmos
Para o engenheiro, a introdução de recursos como o botão “curtir”, no Facebook, e o “retweetar”, no Twitter, em 2009, alterou de forma definitiva a lógica das redes. Esses mecanismos transformaram a atenção em moeda e a influência em objetivo central.
A partir desse momento, conteúdos deixaram de ser exibidos por relevância emocional ou relacional e passaram a ser impulsionados por sua capacidade de gerar cliques, reações e compartilhamentos.
Quando a intimidade deu lugar ao espetáculo
Segundo Büyükkökten, as conexões autênticas perderam espaço para a performance. A influência passou a valer mais do que a intimidade, e a amizade foi convertida em um número visível na tela.
Nesse cenário, emoções se tornaram ferramentas para maximizar alcance, e sentimentos como raiva e indignação passaram a ser recompensados pelos algoritmos, por gerarem mais engajamento.
A história que despertou um alerta pessoal
Um dos momentos mais marcantes da apresentação foi o relato de um encontro casual que mudou a percepção de Orkut sobre o impacto das redes sociais.
A discrepância entre o mundo online e a vida real
Em um café em Istambul, ele reencontrou uma amiga que aparentava viver uma vida perfeita nas redes: viagens, festas, sorrisos constantes. Na conversa presencial, no entanto, a realidade era oposta.
Ela era mãe solteira, divorciada, enfrentava dificuldades financeiras e se sentia profundamente solitária. A vida digital funcionava como uma vitrine cuidadosamente editada, distante da experiência cotidiana.
Esse contraste levou o criador do Orkut a refletir sobre como as plataformas incentivam narrativas artificiais e silenciam vulnerabilidades reais.
Redes sociais, amor e relacionamentos na era do algoritmo
Outro eixo central da apresentação foi a forma como as redes e os aplicativos de namoro transformaram a percepção sobre o amor e os relacionamentos.
Do acaso ao cálculo estatístico
Segundo Orkut Büyükkökten, o amor deixou de ser inesperado e passou a ser mediado por algoritmos, filtros e métricas. Aplicativos de relacionamento reduziram encontros humanos a deslizes de tela e probabilidades matemáticas.
A atratividade passou a ser definida por padrões visuais estreitos, enquanto a profundidade emocional e a personalidade perderam espaço.
A desigualdade nos aplicativos de namoro
Dados citados por ele mostram que apenas cerca de 15% dos usuários considerados mais desejáveis concentram a maior parte da atenção. Os outros 85% recebem poucos ou nenhum “match”.
Esse modelo cria um ambiente de exclusão, onde grande parte das pessoas se sente invisível, descartável e reduzida a uma pontuação.
Geração Z e o abandono dos aplicativos de namoro
Büyükkökten destacou que, diante desse cenário, cresce entre jovens da geração Z um movimento de afastamento dos aplicativos de namoro. A busca deixa de ser por quantidade e passa a ser por significado.
Os jovens procuram experiências mais profundas, encontros presenciais e conexões que não possam ser previstas ou replicadas por algoritmos.
Solidão em tempos de hiperconexão
Apesar de vivermos na era da comunicação instantânea, a solidão nunca foi tão presente. O criador do Orkut citou estudos que mostram um aumento expressivo da sensação de isolamento, especialmente entre jovens adultos.
Dados alarmantes sobre solidão
Em 2003, apenas 8% dos jovens entre 18 e 25 anos relatavam se sentir sozinhos com frequência. Hoje, esse número ultrapassa 25%.
Além disso, comportamentos sociais básicos, como encontros românticos, relações sexuais e construção de vínculos duradouros, estão em declínio.
Impactos na saúde mental
Durante a apresentação, Orkut Büyükkökten mencionou o livro “A geração ansiosa”, de Jonathan Haidt, que associa o crescimento de problemas como ansiedade e depressão ao uso intenso de redes sociais e smartphones.
Segundo ele, a perda não é apenas emocional, mas também neurológica, psicológica e existencial, afetando a forma como as pessoas se relacionam consigo mesmas e com o outro.
O declínio do capital social
Um conceito central da fala foi o de capital social, entendido como o conjunto de relações de confiança, reciprocidade e pertencimento que sustenta comunidades.
Menos convivência, menos comunidade
De acordo com Büyükkökten, o capital social vem diminuindo drasticamente. As pessoas conversam menos durante refeições, visitam menos amigos, conhecem menos os vizinhos e participam menos de atividades coletivas.
O tempo antes dedicado a encontros espontâneos foi substituído pelo consumo passivo de conteúdo digital.
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Consequências para a felicidade coletiva
Atividades que tradicionalmente aumentam o bem-estar, como voluntariado, clubes e encontros sociais, tornaram-se raras. O resultado é uma sociedade mais isolada, fragmentada e vulnerável emocionalmente.
Quem são os responsáveis por esse cenário
Para o criador do Orkut, as grandes plataformas têm papel central nesse processo. Facebook, Instagram e outras redes priorizam modelos de negócio baseados em publicidade, que se alimentam de atenção contínua.
Raiva e negatividade como combustível
Conteúdos que geram indignação, medo ou polarização mantêm usuários engajados por mais tempo. Isso se traduz em mais dados coletados, mais anúncios exibidos e mais lucro.
Esse ciclo contribui para fenômenos como cultura do cancelamento, polarização política e desgaste da saúde mental coletiva.
A aversão à perda e o medo de se conectar
Büyükkökten também recorreu à economia comportamental para explicar por que as pessoas evitam conexões profundas. O medo da rejeição é percebido como maior do que o potencial ganho de uma nova amizade ou relacionamento.
Assim, muitos preferem a segurança superficial das interações digitais ao risco emocional das relações reais.
A defesa das conexões reais
Apesar das críticas, a mensagem final foi de esperança. Orkut Büyükkökten acredita que as redes sociais podem ser reconstruídas, desde que o foco deixe de ser o clique e volte a ser a conexão humana.
Reconstruir plataformas com humanidade
Para ele, é possível criar redes que promovam empatia, vulnerabilidade e pertencimento. Isso exige escolhas conscientes, tanto de quem desenvolve tecnologia quanto de quem a utiliza.
Cada vez que alguém escolhe a conexão em vez do clique, contribui para mudar a lógica dominante.
O legado do Orkut e o futuro das redes
O Orkut, apesar de suas limitações técnicas, ficou marcado por comunidades, fóruns e interações mais horizontais. Para muitos usuários, representou um espaço de pertencimento difícil de encontrar nas plataformas atuais.
Büyükkökten defende que esse espírito pode inspirar o futuro, não como nostalgia, mas como aprendizado.
Um chamado à responsabilidade coletiva
O encerramento do Voices 2025 deixou claro que o futuro das redes sociais não depende apenas de empresas ou governos, mas das escolhas diárias dos usuários.
Ao priorizar relações reais, encontros presenciais e comunidades autênticas, é possível resgatar parte do que se perdeu na era do engajamento infinito.
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