O tradicional Almoço Anual de Dirigentes de Bancos, promovido pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos), em 24 de novembro de 2025, teve como prato principal a recente crise e liquidação do Banco Master. O evento, realizado no Hotel Unique, em São Paulo, costuma reunir os maiores nomes do setor financeiro, autoridades econômicas e representantes institucionais, e geralmente gira em torno de temas como política monetária e perspectivas econômicas. Mas neste ano, a falência do banco fundado por Daniel Vorcaro assumiu o protagonismo.
Banco Master vira o ‘prato principal’ da crise bancária no almoço da Febraban
Crise do Banco Master domina almoço da Febraban e reacende debate sobre regras do FGC, estabilidade bancária e supervisão do Banco Central.
Entre taças de champanhe e discursos institucionais, a pauta mais quente foi a pressão do setor para rever as regras do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). As discussões giraram em torno da necessidade de uma redistribuição mais equitativa do ônus e da limitação de possíveis usos indevidos do fundo por instituições financeiras de médio porte que se arriscam demais, contando com a cobertura do FGC para mitigar os riscos.
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A liquidação do banco e os desdobramentos para o FGC
A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central no início de novembro, provocou uma onda de incertezas e preocupação no setor. Com um volume significativo de depósitos garantidos pelo FGC, o episódio gerou uma conta bilionária que impacta diretamente o caixa do fundo e, por consequência, todo o sistema financeiro — especialmente os grandes bancos, principais contribuintes da estrutura de proteção ao investidor.
A percepção dominante entre os dirigentes presentes no almoço é de que a atual modelagem do FGC precisa ser reformulada. Um executivo de um dos grandes bancos brasileiros, sob anonimato, resumiu: “É preciso mudar as regras. A preocupação é o que acontece depois dos 30, 35 dias após o pagamento. É preciso evitar que se torne um risco sistêmico”.
FGC deve passar por reestruturação, diz seu presidente
Daniel Lima, presidente do FGC, também participou das conversas e reforçou a urgência de repensar o desenho do mecanismo. Para ele, o momento é propício para uma reavaliação profunda da forma como os bancos contribuem para o fundo, bem como o escopo de cobertura oferecido aos investidores pessoas físicas.
“O episódio do Master é uma oportunidade de submeter o desenho do fundo a um exame estrutural”, afirmou Lima.
Entre os pontos em análise, estão a possibilidade de modular as contribuições dos bancos de forma proporcional ao risco que oferecem ao sistema e a inclusão de cláusulas que desestimulem a tomada de riscos excessivos por parte de instituições que dependem do FGC como mecanismo de confiança junto aos clientes.
Elogios ao Banco Central e distanciamento do setor
Atuação do BC recebe reconhecimento
Em meio à crise, a atuação firme e rápida do Banco Central foi elogiada. Isaac Sidney, presidente da Febraban, fez questão de destacar o papel de Gabriel Galípolo e sua equipe na contenção dos impactos negativos da falência do Banco Master. Segundo Sidney, o BC demonstrou “dignidade institucional” e reafirmou sua posição como guardião da integridade do sistema financeiro nacional.
“O BC elevou a regra da dignidade institucional e tem feito um processo de depuração essencial para a higidez do sistema”, destacou.
Sidney ainda saudou o “aprimoramento regulatório” conduzido pela autoridade monetária, apontando que é essencial distinguir quem cumpre a legislação e está comprometido com um sistema financeiro íntegro e quem se aproveita das lacunas regulatórias.
Setor busca se desvincular do caso Master
Durante o evento, houve um esforço explícito da Febraban e das lideranças presentes em deixar claro que o caso do Banco Master não representa o setor bancário como um todo. A mensagem foi: o sistema financeiro brasileiro é sólido, moderno, inovador e baseado em pilares como integridade e solidez.
“Sem robustez e integridade, não há competição saudável. A inovação só prospera quando há ética”, disse Isaac Sidney.
O discurso de afastamento do Master evidencia a preocupação do setor com os riscos reputacionais e o efeito dominó que crises pontuais podem ter sobre a percepção do público e dos investidores.
Galípolo defende reforma regulatória e autonomia do BC
Perímetro regulatório e autonomia orçamentária em pauta
Convidado de destaque no evento, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, usou sua fala para reforçar a importância de ampliar o perímetro regulatório da autarquia e garantir maior autonomia orçamentária. Sem citar nominalmente o caso do Banco Master, ele ressaltou que a supervisão nunca está completa e que o BC precisa de instrumentos mais robustos para prevenir falências bancárias.
“Se há algo que ainda me deixa insatisfeito é não termos avançado no debate sobre qual é o perímetro regulatório do BC e seu arcabouço legal e institucional, que o equipare às demais instituições”, declarou.
Galípolo também destacou que o BC tem atuado em colaboração com o Ministério Público e a Polícia Federal na investigação de fraudes e irregularidades no sistema bancário, o que mostra que o papel do regulador vai além da política monetária, alcançando a esfera da integridade e estabilidade institucional.
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“A obra de supervisão nunca está completa”
Ao refletir sobre seu primeiro ano de gestão à frente do Banco Central, Galípolo afirmou que foi desafiado por temas como estabilidade financeira, política de juros e supervisão bancária. Para ele, a experiência de falências no Brasil e em outros países serve como aprendizado contínuo.
“A obra de supervisão nunca está completa. É preciso aprender com os erros do passado para não repeti-los no futuro”, concluiu.
Caminhos para o futuro: o que pode mudar no FGC e na regulação
Propostas discutidas nos bastidores
Nos bastidores do evento, executivos e técnicos da Febraban discutiram propostas que devem ganhar corpo nos próximos meses:
- Modular as contribuições ao FGC: Bancos que apresentam maior risco sistêmico ou práticas comerciais mais agressivas poderiam contribuir com alíquotas maiores.
- Limitar a propaganda baseada no FGC: Muitos bancos médios usam o argumento da garantia do FGC como principal atrativo para captar clientes, o que pode incentivar riscos excessivos.
- Revisar o teto da cobertura: Atualmente, o FGC garante até R$ 250 mil por CPF por instituição. Essa regra pode ser ajustada para promover mais segurança e menor dependência.
- Criar gatilhos de alerta sistêmico: Sinais de concentração anormal de recursos ou práticas suspeitas poderiam acionar auditorias preventivas.
Agenda regulatória deve ganhar tração em 2026
Com o escândalo do Banco Master, a pressão para reformar o modelo do FGC e ampliar os poderes de supervisão do BC cresceu. A expectativa do setor é que essas pautas entrem na agenda regulatória de 2026, com propostas em tramitação no Congresso ou via resoluções do CMN.
O próprio Banco Central já estuda um novo arcabouço institucional que equipare sua capacidade de fiscalização às de outras autoridades financeiras globais, reforçando sua autonomia orçamentária e regulatória.
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Imagem: Canva/ Seu Crédito DIgital
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