O pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor, apresentado em 1º de fevereiro, trouxe à tona um tema sensível no mercado financeiro brasileiro: o que acontece quando uma crise de confiança gera uma corrida por resgates e esgota o caixa de uma empresa. Segundo informações divulgadas pelo InfoMoney, com base em relatos do advogado que coordena o processo, a empresa atribui o colapso de liquidez a um efeito dominó iniciado após o anúncio de uma proposta de compra do Banco Master, feita em consórcio com fundos dos Emirados Árabes Unidos.
Saque de 70% pressiona liquidez da Fictor após crise bancária
Entenda por que a Fictor pediu recuperação judicial, a relação com o Banco Master e os riscos para investidores fora do FGC.
A turbulência teria se agravado após a decisão do Banco Central do Brasil de decretar a liquidação do Banco Master. A partir daí, a desconfiança que já cercava o banco teria se espalhado para a Fictor, provocando uma onda de retiradas por parte de clientes e investidores ligados às estruturas do grupo.
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Corrida por resgates: quase R$ 2 bilhões saíram do sistema
De acordo com o advogado Carlos Deneszczuk, do DASA Advogados, os clientes solicitaram a retirada de cerca de 70% dos recursos investidos desde 18 de novembro, somando quase R$ 2 bilhões.
O que isso significa na prática
Esse tipo de movimento é clássico em crises de liquidez:
- Os ativos existem, mas não estão imediatamente disponíveis em caixa
- Investimentos de médio e longo prazo não conseguem ser transformados em dinheiro na mesma velocidade dos resgates
- Pagamentos programados começam a ser pressionados
É o mesmo mecanismo observado em crises bancárias históricas, quando há uma “corrida aos caixas”, ainda que a instituição não esteja tecnicamente insolvente naquele momento.
No caso da Fictor, a dimensão das retiradas sugere um abalo relevante de confiança, diretamente associado ao episódio envolvendo o Banco Master e à leitura de risco que se formou após a intervenção do regulador.
Recuperação judicial: mais de R$ 4 bilhões em dívidas
O pedido de recuperação judicial envolve a Fictor Holding e a Fictor Invest. O total de dívidas informado supera R$ 4 bilhões.
A empresa afirma que pretende pagar os valores sem descontos aos credores e que o plano deve prever prazo de até cinco anos para os reembolsos.
Por que a promessa de “sem desconto” não é simples
Dizer que não haverá “haircut” pode ajudar a reduzir resistência de credores, mas cria um desafio enorme:
- O cronograma de pagamentos precisa ser realista
- A geração de caixa futura deve ser consistente
- A operação não pode sofrer novas ondas de retirada ou bloqueios relevantes
Em um cenário de crise de liquidez, o problema não é só quanto se deve, mas quando o dinheiro entra.
SCPs, investimentos estruturados e ausência de proteção do FGC
Um dos pontos mais relevantes para o investidor brasileiro é o modelo de captação descrito no caso. A Fictor estruturava Sociedades em Conta de Participação, as chamadas SCPs, para investir em negócios e empresas.
Segundo o relato do advogado, a crise afetou a distribuição de dividendos aos sócios dessas estruturas.
Por que isso é diferente de um CDB de banco
SCPs e estruturas semelhantes não são depósitos bancários tradicionais. O próprio caso destaca que não há cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.
Na prática, isso quer dizer:
- O investidor assume risco direto do negócio
- Não há proteção automática de até R$ 250 mil por CPF, como em produtos cobertos pelo FGC
- A recuperação depende da saúde financeira da empresa e do plano aprovado na Justiça
É um tipo de risco mais próximo de investimento empresarial do que de aplicação bancária conservadora.
Em declaração atribuída ao advogado, publicada pelo jornal Estado de S. Paulo, a empresa sustenta que, até novembro, não havia problemas de pagamentos e que a intenção é não prejudicar credores.
Consórcio internacional e o efeito contágio do caso Banco Master
Outro elemento mencionado é a presença de um investidor internacional identificado como Royal Capital, descrito como participante do consórcio que compraria o Banco Master ao lado da Fictor.
Segundo o relato, a reestruturação teria sido exigida por esse investidor, o que indica que as tratativas envolvendo a compra do banco, mesmo frustradas, influenciaram a decisão de buscar proteção judicial.
Como funciona o “efeito contágio” nesse tipo de crise
Quando um evento regulatório atinge uma instituição financeira, os impactos podem se espalhar para:
- Parceiros comerciais
- Empresas do mesmo grupo econômico
- Investidores ligados à mesma operação
Mesmo que os negócios não sejam idênticos, o mercado tende a reagir de forma generalizada, principalmente quando há incerteza sobre exposição cruzada de riscos.
Bloqueio de R$ 150 milhões pelo TJ-SP aumenta a pressão
Além da recuperação judicial, a Fictor enfrenta uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que determinou o bloqueio cautelar de R$ 150 milhões em ativos financeiros do grupo.
A medida teria como objetivo preservar uma garantia em dinheiro prevista em contrato, também de R$ 150 milhões, ligada a uma operação de cartões de crédito empresariais.
Em cenários de crise de liquidez, bloqueios judiciais têm efeito direto:
- Reduzem ainda mais a disponibilidade de caixa
- Dificultam a reorganização de fluxos financeiros
- Aumentam a pressão sobre o plano de recuperação
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Por outro lado, o Judiciário costuma justificar essas decisões como forma de proteger garantias contratuais e evitar risco de dissipação de patrimônio.
Fictor Pay, maquininhas e cartão American Express
O grupo também vinha expandindo sua atuação em meios de pagamento. Em 2024, criou a Fictor Pay como subadquirente, oferecendo maquininhas e serviços de tecnologia para pagamentos.
No ano seguinte, segundo o relato, foi lançado um cartão de crédito com bandeira American Express voltado a pessoas jurídicas.
O pedido de recuperação judicial indica que:
- O cartão movimentava cerca de R$ 200 milhões por mês
- A operação estava presente em nove estados
- Havia cerca de 500 clientes
- Os terminais teriam movimentado R$ 2,2 bilhões
Por que o setor de pagamentos é sensível à confiança
Negócios de pagamentos dependem de:
- Relacionamento com bancos e bandeiras
- Limites de crédito e garantias
- Confiança de lojistas e parceiros
Em momentos de crise reputacional, esses fatores podem ser reavaliados rapidamente, afetando a continuidade e o custo das operações.
O que o investidor brasileiro deve aprender com o caso
O episódio reforça lições importantes:
- Nem todo investimento financeiro tem proteção do FGC
- Estruturas como SCPs carregam risco empresarial relevante
- Crises de liquidez podem surgir mesmo quando há ativos, se o caixa não acompanha os resgates
- Eventos regulatórios em uma empresa podem contaminar parceiros e estruturas associadas
Para quem investe, entender a natureza jurídica e o risco real do produto é tão importante quanto olhar a rentabilidade prometida.
Conclusão
O caso da Fictor mostra como uma combinação de crise de confiança, retiradas aceleradas, exposição a estruturas sem garantia do FGC e decisões judiciais pode levar um grupo financeiro a buscar proteção na recuperação judicial.
Mais do que um episódio isolado, é um alerta sobre o funcionamento do risco fora do sistema bancário tradicional e sobre como eventos externos podem desencadear efeitos em cadeia no mercado.
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