A crescente demanda por infraestrutura digital está provocando uma transformação silenciosa, mas impactante, no setor energético. Com o avanço da inteligência artificial e da computação em nuvem, data centers têm se multiplicado em ritmo acelerado, exigindo cada vez mais eletricidade.
Data centers consomem mais energia e podem impactar conta de luz da população
Expansão dos data centers pode elevar a conta de luz de consumidores residenciais e pequenas empresas.
Esse aumento no consumo energético não afeta apenas as grandes empresas de tecnologia: especialistas alertam que o custo dessa expansão poderá recair sobre consumidores comuns e pequenas empresas.
Um estudo da consultoria energética Wood MacKenzie lança luz sobre uma questão preocupante: os altos investimentos em infraestrutura necessários para suprir esses centros de dados podem não ser cobertos pelos próprios grandes consumidores, o que acabaria pressionando as tarifas de eletricidade para todos os usuários.
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O custo oculto da inovação digital

A análise da Wood MacKenzie examinou 20 grandes consumidores de energia nos Estados Unidos. Em quase todos os casos, os pagamentos feitos por data centers e outras grandes cargas às concessionárias não cobrem os custos das obras de infraestrutura exigidas por eles, como linhas de transmissão, subestações e usinas. “As concessionárias ou precisam socializar o custo com outros consumidores ou absorver esse custo — essencialmente, seus acionistas arcariam com o prejuízo”, afirmou Ben Hertz-Shargel, diretor global de pesquisa em grid edge da consultoria.
Com isso, o que parece ser um avanço tecnológico pode esconder um ônus compartilhado: os investimentos para garantir fornecimento contínuo e estável aos grandes centros digitais podem acabar diluídos nas contas de todos os consumidores.
Demanda energética em alta após décadas de estabilidade
Nos próximos anos, os Estados Unidos devem viver um crescimento significativo da demanda por energia, o primeiro após décadas de relativa estabilidade. A projeção da própria Wood MacKenzie indica um aumento de até 15% no consumo em algumas regiões no período de quatro anos, impulsionado principalmente pela construção de data centers, novas fábricas, veículos elétricos e sistemas de climatização mais sofisticados.
Além da pressão por atender novas cargas, as concessionárias enfrentam desafios climáticos cada vez mais intensos, exigindo bilhões em investimentos para tornar a rede mais resiliente a furacões, incêndios florestais, ondas de calor e tempestades de inverno. Todo esse cenário tem refletido diretamente nas contas de luz.
Segundo a Administração de Informação de Energia, lares americanos que consomem cerca de 1.000 kWh por mês pagaram, em média, US$ 164 em fevereiro, mais de US$ 30 a mais do que há cinco anos.
O caso da Dominion Energy e a corrida por equilíbrio financeiro
A Dominion Energy, concessionária baseada na Virginia, é uma das companhias que mais devem investir em infraestrutura para atender data centers. O estado lidera a instalação desses centros nos EUA. Em abril, a empresa propôs a autoridades locais uma revisão de tarifas para que os grandes consumidores arquem com uma “parte justa” dos custos.
“Garantir uma alocação justa de custos e mitigar riscos financeiros não são conceitos novos para a empresa”, disse Edward H. Baine, presidente da Dominion Energy Virginia, em declaração apresentada aos reguladores.
Contudo, uma análise feita por autoridades da Virginia neste ano indicou que, até o momento, os data centers estavam pagando pelos serviços prestados. O alerta, no entanto, é claro: sem mudanças regulatórias, o aumento da presença dessas grandes cargas pode impactar negativamente consumidores residenciais e pequenos negócios.
Proteções regulatórias ainda são limitadas
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Apesar do alerta, nem todos os estados oferecem mecanismos de proteção eficazes. O Texas é um dos poucos exemplos citados pela Wood MacKenzie como modelo: o sistema texano permite que os clientes escolham de quem comprar energia, o que dificulta o repasse de custos para consumidores que não se beneficiam diretamente das expansões na rede.
Outro mecanismo que vem sendo adotado é a contratação direta de energia renovável por grandes usuários, por meio de acordos com produtores solares e eólicos. Ainda assim, essas estratégias não oferecem blindagem completa contra o aumento de tarifas para os demais usuários do sistema.
“Somente removendo a infraestrutura causada por data centers dos livros das concessionárias, como permitindo que grandes cargas contratem terceiros para geração através de tarifas de transição limpa, é que tanto os consumidores quanto os acionistas da concessionária estarão totalmente protegidos”, argumentou Hertz-Shargel.
O que está em jogo para o futuro

A discussão sobre como lidar com os custos gerados por data centers não se restringe à engenharia ou à regulação, trata-se de um debate político e social mais amplo. À medida que tecnologias avançadas exigem mais da infraestrutura existente, será preciso encontrar formas justas de distribuir os encargos.
Para que a revolução digital não agrave desigualdades econômicas, especialistas defendem políticas mais transparentes e mecanismos que impeçam que os pequenos consumidores acabem arcando com a maior parte da conta. A responsabilidade pelo custo da transformação tecnológica não pode ser, eles alertam, mais um peso para quem já enfrenta dificuldades para pagar a energia elétrica.
Com informações de: InfoMoney
