A demissão por comum acordo, também conhecida como rescisão consensual, é uma modalidade de encerramento do contrato de trabalho criada pela Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/2017). Ela permite que empregado e empregador decidam juntos encerrar o vínculo empregatício, de forma amigável, com parte dos direitos garantidos pela legislação.
Como a demissão por comum acordo funciona? Entenda as regras
Saiba como funciona a demissão por comum acordo em 2025, os direitos do trabalhador, regras da CLT e modelo de carta.
Antes de 2017, quem pedia demissão perdia vários direitos rescisórios, como saque do FGTS e multa indenizatória. A partir da inclusão do artigo 484-A na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), passou a ser possível que ambas as partes façam um acordo equilibrado, reduzindo prejuízos e evitando conflitos trabalhistas.
A seguir, veja como funciona essa modalidade, quais são os direitos e deveres do trabalhador, e como redigir a carta de demissão por comum acordo.
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O que é a demissão por comum acordo?
A demissão por comum acordo ocorre quando empregado e empregador concordam mutuamente com o encerramento do contrato de trabalho. Essa decisão deve ser voluntária, sem coação ou pressão, e precisa ser formalizada por escrito, geralmente por meio de uma carta assinada pelas partes e por testemunhas.
Essa modalidade de rescisão não se confunde com demissão sem justa causa (que parte do empregador) nem com pedido de demissão (iniciativa do empregado). Trata-se de uma alternativa intermediária, onde ambos reconhecem que não há mais interesse em manter o vínculo, mas querem preservar parte dos direitos adquiridos.
Base legal: artigo 484-A da CLT
O artigo 484-A da CLT, inserido pela Lei nº 13.467/2017, estabelece que:
“O contrato de trabalho poderá ser extinto por acordo entre empregado e empregador, caso em que serão devidas as seguintes verbas trabalhistas:
I – por metade, o aviso prévio e a indenização sobre o saldo do FGTS;
II – na integralidade, as demais verbas trabalhistas.”
Esse artigo define a base jurídica da rescisão por comum acordo e protege o trabalhador contra abusos, desde que haja consentimento real de ambas as partes e o pagamento das verbas previstas.
Quando é possível fazer a demissão por acordo?
A demissão por comum acordo pode ocorrer em qualquer momento do contrato de trabalho, desde que as duas partes estejam de acordo.
Ela é especialmente utilizada em situações como:
- Término de um projeto ou atividade profissional;
- Mudança de planos pessoais ou profissionais do empregado;
- Reestruturação da empresa sem demissão unilateral;
- Encerramento amigável de contratos longos e estáveis.
Como funciona o processo passo a passo

1. Acordo mútuo
O processo começa com o entendimento entre empregado e empregador de que o contrato deve ser encerrado. É fundamental que não haja imposição ou coação de nenhuma das partes.
2. Redação da carta de demissão
Após o acordo, é elaborada uma carta de demissão por comum acordo, documento essencial que formaliza a decisão e comprova a legalidade do desligamento.
3. Assinatura e testemunhas
A carta deve ser assinada por ambas as partes e conter a assinatura de duas testemunhas, garantindo transparência e evitando possíveis contestações.
4. Pagamento das verbas rescisórias
A empresa deve realizar o pagamento de todas as verbas devidas em até 10 dias corridos após o término do contrato, conforme determina o artigo 477 da CLT.
5. Registro e quitação
O empregador deve registrar a rescisão no sistema eSocial e emitir o Termo de Rescisão do Contrato de Trabalho (TRCT), documento que comprova o encerramento formal do vínculo.
Quais são os direitos do trabalhador na demissão por comum acordo
Em uma demissão por comum acordo, o trabalhador mantém parte dos direitos rescisórios e perde outros. A seguir, veja o que é garantido por lei:
Direitos mantidos
- Saldo de salário (dias trabalhados no mês da rescisão);
- Férias vencidas e proporcionais, acrescidas de 1/3 constitucional;
- 13º salário proporcional;
- Saque de até 80% do saldo do FGTS;
- Multa rescisória de 20% sobre o FGTS (metade da multa de 40% aplicada em demissão sem justa causa);
- Aviso prévio proporcional de 15 dias (metade do prazo normal de 30 dias).
Direitos não garantidos
- Seguro-desemprego, já que o desligamento é consensual;
- Saque total do FGTS (apenas 80% do saldo disponível).
Exemplo de cálculo de rescisão por comum acordo
Um trabalhador com salário de R$ 3.000, com 2 anos de empresa e saldo de R$ 10.000 no FGTS, teria direito a:
- Saldo de salário: R$ 3.000
- 13º proporcional: R$ 2.000
- Férias + 1/3: R$ 4.000
- Multa do FGTS (20%): R$ 2.000
- Aviso prévio de 15 dias: R$ 1.500
- Total líquido aproximado: R$ 12.500, além de poder sacar R$ 8.000 do FGTS (80% do saldo).
Modelo de carta de demissão por comum acordo
A carta de demissão deve ser simples, clara e escrita à mão ou digitada, contendo a data, local e assinaturas.
Modelo sugerido
CARTA DE PEDIDO DE DEMISSÃO POR COMUM ACORDO
Eu, [nome completo do empregado], portador(a) do CPF nº [] e da CTPS nº [], venho por meio desta solicitar ao(à) Sr(a). [nome do gestor ou da empresa] o encerramento consensual do contrato de trabalho, conforme o artigo 484-A da CLT (Lei nº 13.467/2017).
Declaro que este pedido é feito de forma voluntária e sem coação, estando ciente dos meus direitos e das limitações indenizatórias, incluindo a inexistência do direito ao seguro-desemprego.
[Local], [Data]
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Assinatura do empregado
Assinatura do empregador
Testemunhas:
- __________________________ (nome, CPF e assinatura)
- __________________________ (nome, CPF e assinatura)
Prazos e obrigações após o acordo
Pagamento das verbas
O pagamento deve ser realizado em até 10 dias corridos após o término do contrato. O descumprimento desse prazo pode gerar multa ao empregador, conforme o artigo 477, § 8º, da CLT.
Comunicação ao eSocial
A empresa deve registrar a rescisão no eSocial e emitir o Termo de Quitação, que deve ser assinado pelo trabalhador.
Entrega dos documentos
O empregador precisa entregar ao empregado:
- Cópia do TRCT;
- Guias de recolhimento do FGTS;
- Comprovante de pagamento das verbas rescisórias.
Vantagens e desvantagens da demissão por comum acordo
Principais vantagens
- Encerramento amigável e sem litígio;
- Redução do aviso prévio para 15 dias;
- Saque de até 80% do FGTS;
- Redução da multa rescisória de 40% para 20%;
- Possibilidade de negociar prazos e condições de pagamento.
Desvantagens
- Sem direito ao seguro-desemprego;
- Saque parcial do FGTS;
- Necessidade de acordo genuíno, o que exige confiança entre as partes.
Como evitar problemas no processo

Para que o acordo seja legítimo e sem riscos de contestação judicial, é importante seguir boas práticas:
- Formalizar o pedido sempre por escrito;
- Contar com testemunhas no momento da assinatura;
- Guardar cópias dos documentos e comprovantes de pagamento;
- Certificar-se de que o trabalhador entende as condições e renúncias do acordo;
- Manter transparência total em todas as etapas.
Imagem: Antonio Guillem/shutterstock.com
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