Pelo menos seis deputados federais protocolaram Projetos de Decreto Legislativo (PDLs) para suspender a nova regra imposta pelo governo Lula que inclui o Bolsa Família no cálculo da renda familiar per capita para acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC). A medida, que passou a valer por decreto presidencial, tem gerado reação tanto da oposição quanto da base aliada do Planalto.
Parlamentares buscam reverter decreto que restringe pagamentos do BPC
Deputados querem excluir o Bolsa Família do cálculo do BPC, medida que impacta idosos e pessoas com deficiência em situação de pobreza.
A nova norma, que restringe o alcance do BPC, provocou forte repercussão política e social. O BPC, benefício assistencial pago pelo INSS, é destinado a idosos acima de 65 anos e pessoas com deficiência que comprovem situação de vulnerabilidade. O valor é de um salário mínimo mensal, e o acesso depende do cumprimento de critérios de renda familiar.
Leia mais:
Governo altera regras: Bolsa Família integra cálculo da renda para o BPC

O que mudou com o decreto?
Até então, para calcular se uma família se enquadra no critério de “baixa renda”, era considerado o rendimento líquido e sem incluir valores do Bolsa Família. Com o novo decreto, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, passam a ser computados:
- Receita oriunda do Bolsa Família
- Renda bruta, e não mais a líquida
- Outras rendas eventuais que antes podiam ser desconsideradas
A medida visa restringir o pagamento do BPC a famílias que, de fato, se enquadram no teto de ¼ de salário mínimo por pessoa, que em 2025 representa R$ 353,00.
Justificativas do governo e reação do Congresso
A equipe econômica justifica a decisão como parte de um esforço para controlar o crescimento dos gastos obrigatórios, uma das maiores pressões sobre o orçamento federal. O BPC, por ser um benefício constitucional, tem crescimento vegetativo e não pode ser contingenciado — o que acende alertas na área fiscal.
Contudo, a reação no Congresso foi imediata. Parlamentares de diferentes partidos afirmam que a medida penaliza os mais pobres e desconsidera a realidade de milhões de famílias que sobrevivem com rendimentos precários.
“Não se trata de ser contra ou a favor ao governo, mas de ser a favor do interesse público e de não permitir que essas pessoas tão vulneráveis fiquem desprotegidas”, afirmou o deputado Duarte Jr. (PSB-BA).
PDLs apresentados por deputados
Diversos PDLs foram protocolados na Câmara para tentar sustar os efeitos do decreto. Entre os autores e apoiadores estão:
- Duarte Jr. (PSB-BA) — contesta toda a norma, incluindo as exigências de CPF ativo e biometria
- Fernanda Melchionna (PSOL-RS) — pede revogação apenas da parte que considera o Bolsa Família na renda
- Deputados do PL — oposição unificada contra a medida
- Pompeo de Mattos (PDT-RS) — também protocolou pedido de derrubada
Esses pedidos precisam ser analisados pelas comissões da Câmara antes de serem votados em plenário. Caso aprovados, os decretos presidenciais perdem seus efeitos.
Como funciona o BPC e quem tem direito?

O Benefício de Prestação Continuada é garantido pela Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) e está previsto na Constituição. Não exige contribuição anterior ao INSS e pode ser pago a:
- Idosos com 65 anos ou mais
- Pessoas com deficiência de qualquer idade, com impedimentos de longo prazo que dificultem a vida independente e o trabalho
Critérios para concessão
Para ter direito, é preciso:
- Ter renda familiar per capita inferior a ¼ do salário mínimo
- Estar inscrito no Cadastro Único
- Ter CPF regular
- Comprovar impedimento (no caso de PCDs), por meio de avaliação médica e social
Rendas que não entram no cálculo
Mesmo com a nova regra, ainda ficam de fora do cálculo:
- Bolsas de estágio supervisionado
- Rendimentos de contrato de aprendizagem
- Auxílio financeiro temporário ou indenização por danos de barragens
- Outro BPC na mesma família
- Benefício previdenciário de até um salário mínimo para idosos
Polêmicas em torno do CPF e da biometria
Outro ponto criticado pelos parlamentares é a obrigatoriedade do CPF ativo e do registro biométrico como condição para manutenção do benefício. Segundo os deputados, essas exigências:
- Criam barreiras tecnológicas e de acessibilidade
- Sobrecarregam o CRAS (Centros de Referência de Assistência Social)
- Podem levar à suspensão indevida de benefícios em regiões remotas ou carentes de infraestrutura digital
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
“A norma impõe prazos excessivamente curtos para defesa, atualização cadastral e realização de registro biométrico, desconsiderando as reais condições de acessibilidade, conectividade e suporte técnico enfrentadas por milhões de brasileiros”, aponta Duarte Jr. na justificativa de seu PDL.
O que dizem especialistas?
Especialistas em políticas públicas alertam que a inclusão do Bolsa Família no cálculo da renda do BPC pode gerar uma exclusão em massa de pessoas em situação de extrema pobreza, especialmente em áreas rurais e nas periferias urbanas.
Além disso, há críticas quanto à constitucionalidade da medida, uma vez que o BPC é garantido por lei e alterações em seus critérios deveriam, segundo juristas, passar pelo Congresso e não por decreto.
“A inclusão do Bolsa Família no cálculo distorce o objetivo original do BPC, que é atender quem está abaixo da linha de pobreza. Estamos misturando políticas complementares e penalizando o cidadão”, afirma uma pesquisadora da área de assistência social.
Impacto fiscal x impacto social
A decisão do governo insere-se em um contexto de pressão fiscal crescente. O BPC representa uma despesa de aproximadamente R$ 100 bilhões anuais, e o número de beneficiários cresce ano após ano, devido ao envelhecimento da população e maior reconhecimento dos direitos das pessoas com deficiência.
Contudo, analistas apontam que medidas como essa geram pouco impacto fiscal imediato, mas impacto social elevado, pois afetam uma população extremamente vulnerável e com baixa capacidade de contestar judicialmente decisões administrativas.
O que pode acontecer agora?

A tramitação dos Projetos de Decreto Legislativo deve ocorrer ao longo do segundo semestre de 2025. Para serem aprovados, precisam:
- Passar pelas comissões de Seguridade Social, Direitos Humanos e Constituição e Justiça
- Ser votados no plenário da Câmara
- Caso aprovados, seguir para votação no Senado
A depender da pressão social e política, o governo pode:
- Revogar ou revisar o decreto voluntariamente
- Tentar negociar com parlamentares mudanças no texto
- Vetar um eventual PDL aprovado, com possibilidade de derrubada do veto pelo Congresso
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
Pode ser do seu interesse:
Pode ser do seu interesse:
