A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal divulgou um novo relatório com projeções alarmantes sobre a trajetória da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG). Segundo o documento, mesmo com ações recentes de contenção de gastos e aumento da arrecadação, a dívida brasileira poderá ultrapassar 100% do Produto Interno Bruto (PIB) já em 2030, alcançando 124,9% do PIB até 2035.
Brasil terá dívida superior a 100% do PIB em 2030, aponta relatório da IFI
Relatório da IFI estima que a dívida bruta do governo superará 100% do PIB em 2030. Projeções vão até 170% em cenário pessimista.
O relatório foi publicado em meio a um cenário de congelamento de despesas e mudanças nas regras tributárias promovidas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As estimativas da IFI reforçam os desafios fiscais que o país enfrentará nos próximos anos, mesmo diante de esforços de ajuste.
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Situação atual da dívida pública
Aumento nos primeiros meses do governo Lula
Segundo dados do Banco Central, a dívida bruta do Brasil atingiu 76,2% do PIB em abril de 2025. Isso representa um crescimento de 4,5 pontos percentuais desde o início do atual governo. A IFI projeta que a dívida continuará em trajetória ascendente:
- 77,6% do PIB no final de 2025;
- 82,4% até o final do governo Lula, em 2026.
Projeções para a dívida até 2035
Três cenários distintos traçados pela IFI
A IFI elaborou três cenários possíveis para o comportamento da dívida bruta até 2035:
1. Cenário base (mais provável)
- A dívida ultrapassará 100% do PIB em 2030.
- Continuará subindo até atingir 124,9% do PIB em 2035.
2. Cenário otimista
- A dívida permanece abaixo de 80% do PIB até 2026.
- Ainda assim, sobe gradualmente, chegando a 90,1% em 2035.
3. Cenário pessimista
- A dívida ultrapassaria os 100% do PIB em 2029.
- Alcançaria 170,3% em 2035, colocando o Brasil em uma situação crítica de solvência fiscal.
Ações do governo para conter a escalada da dívida
Congelamento de R$ 31 bilhões em gastos
Como parte do esforço para cumprir a meta fiscal de 2025, o governo federal anunciou o congelamento de R$ 31 bilhões em despesas discricionárias, que são aquelas não obrigatórias e de livre execução por parte do Executivo.
Aumento da arrecadação com medidas tributárias
Foram adotadas também medidas para ampliar a receita da União, com destaque para:
- Aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras);
- Medida Provisória para tributar títulos de renda fixa anteriormente isentos;
- Taxação de casas de apostas e do lucro via juros sobre capital próprio (JCP);
- Mudança nas regras de compensação tributária, com impacto de R$ 20 bilhões estimados até o fim do governo.
A equipe econômica espera arrecadar R$ 31,4 bilhões entre 2025 e 2026 com esse conjunto de ações.
Meta fiscal e limites do arcabouço
Teto de tolerância para 2025
A meta fiscal do governo é de resultado primário zero em 2025, ou seja, receitas e despesas (sem considerar os juros da dívida) devem se equilibrar. O novo arcabouço fiscal permite uma margem de tolerância de até 0,25 ponto percentual do PIB, equivalente a R$ 30,9 bilhões.
Contudo, as previsões iniciais do Ministério da Fazenda indicavam um déficit de R$ 51,7 bilhões, o que motivou o congelamento de despesas para não ultrapassar os limites legais.
Divergências entre IFI e governo nos gastos estimados

Benefício de Prestação Continuada (BPC)
- Governo Lula: prevê gasto de R$ 126 bilhões em 2025;
- IFI: estima que será R$ 130,2 bilhões, R$ 4,2 bilhões a mais.
Bolsa Família
- Governo: projeta desembolso de R$ 158,6 bilhões;
- IFI: calcula R$ 164 bilhões, uma diferença de R$ 5,4 bilhões.
Despesas discricionárias
- Governo: previsão de R$ 101,5 bilhões;
- IFI: estima R$ 107,6 bilhões, ou seja, R$ 6,1 bilhões a mais.
Programação financeira total
- Fazenda: espera R$ 553,1 bilhões em despesas sujeitas à programação;
- IFI: projeta R$ 565,3 bilhões, diferença de R$ 12,2 bilhões.
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Essas discrepâncias reforçam o alerta da IFI sobre a possibilidade de subestimação das despesas federais, o que pode prejudicar o cumprimento das metas fiscais.
Carga tributária e esgotamento das receitas
Limites da arrecadação como ajuste fiscal
A IFI destaca que há um “esgotamento paulatino” do crescimento das receitas como ferramenta primária de ajuste. Em 2024, a carga tributária brasileira foi de 34,24% do PIB, um dos índices mais elevados da América Latina.
A instituição afirma que elevar ainda mais a carga pode ter efeitos recessivos sobre a economia, exigindo, portanto, reformas estruturais e revisão de despesas obrigatórias como alternativas mais sustentáveis.
Riscos fiscais no horizonte
Juros altos e impacto na dívida
Com a taxa Selic elevada a 15% ao ano, o custo do serviço da dívida pública aumenta consideravelmente, o que agrava a trajetória de endividamento.
Cada ponto percentual adicional de juros representa bilhões de reais a mais por ano em pagamento de encargos, reduzindo o espaço para investimento público e pressionando o resultado primário.
Envelhecimento populacional
A expansão de gastos obrigatórios, como aposentadorias, BPC e saúde, deve continuar crescendo com o envelhecimento da população brasileira, tornando ainda mais difícil conter a escalada da dívida sem reformas previdenciárias e fiscais adicionais.
Soluções possíveis para reverter a tendência

Revisão de despesas obrigatórias
Especialistas e a própria IFI sugerem que o governo federal precisa rever gastos com benefícios e políticas sociais, de forma a preservar os direitos adquiridos, mas estabelecer critérios mais rigorosos de elegibilidade, além de ampliar a focalização dos programas.
Crescimento sustentável
Outra estratégia é estimular o crescimento econômico sustentado, que pode aumentar a base arrecadatória sem elevar alíquotas, além de reduzir a pressão por gastos sociais.
Simplificação tributária e maior eficiência
Reformas como a tributária do consumo (PEC 45/2019 e Lei Complementar 214/2025) podem contribuir com um ambiente de negócios mais simples, elevando a produtividade e atraindo investimentos.
Imagem: rafastockbr/Shutterstock.com
