A decisão recente do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15% reforçou o protagonismo da renda fixa no portfólio dos brasileiros. Títulos públicos e CDBs continuam entregando retornos elevados com baixo risco, atraindo desde investidores iniciantes até perfis mais conservadores. No entanto, mesmo com o juro básico em um dos níveis mais altos da década, uma nova movimentação chama a atenção no mercado: ações que, isoladamente, conseguiram entregar dividendos superiores ao próprio rendimento da Selic em 12 meses.
Dividendos acima da Selic: ações que podem superar a taxa básica de juros
Com a Selic em 15%, dividendos ganham destaque e algumas ações superam o juro básico. Saiba mais!
O avanço no pagamento de proventos em diferentes empresas brasileiras reacendeu o debate sobre o papel das ações dentro de estratégias de geração de renda recorrente. Além disso, especialistas destacam que o fim do ano deve marcar um ciclo de distribuição de dividendos extraordinários, motivado principalmente por mudanças tributárias que começam a valer a partir do próximo ano. Nesse cenário, selecionar empresas sólidas e identificar yields sustentáveis tornou-se uma das principais prioridades para investidores focados em renda.
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O retrato das empresas que pagaram dividendos acima da Selic
Um levantamento com base em dados da Economática revelou que diversas empresas listadas na B3 alcançaram, no acumulado dos últimos 12 meses até o início deste mês, dividend yields que superaram os 15% da Selic — algumas, inclusive, entregando retornos muito acima disso. A análise considerou companhias com volume médio diário negociado acima de R$ 1 milhão nos últimos doze meses.
Empresas com maior dividend yield no período
Abaixo, estão as empresas identificadas com o maior retorno em dividendos:
- Syn Prop Tec (SYNE3) – Dividend yield de 60,24%, volume médio de R$ 4.147 mil
- Sao Carlos (SCAR3) – Dividend yield de 45,81%, volume médio de R$ 1.517 mil
- Allied (ALLD3) – Dividend yield de 35,86%, volume médio de R$ 1.256 mil
- Vulcabras (VULC3) – Dividend yield de 30,47%, volume médio de R$ 16.604 mil
- Marfrig (MBRF3) – Dividend yield de 27,71%, volume médio de R$ 185.785 mil
- Lavvi (LAVV3) – Dividend yield de 25,55%, volume médio de R$ 6.719 mil
- Unipar (UNIP6) – Dividend yield de 25,46%, volume médio de R$ 11.056 mil
- Alpargatas (ALPA4) – Dividend yield de 22,49%, volume médio de R$ 17.932 mil
- Marcopolo (POMO3) – Dividend yield de 19,66%, volume médio de R$ 2.949 mil
- Trisul (TRIS3) – Dividend yield de 17,32%, volume médio de R$ 3.245 mil
- Mitre Realty (MTRE3) – Dividend yield de 16,26%, volume médio de R$ 2.289 mil
- Axia Energia (AXIA3) – Dividend yield de 15,04%, volume médio de R$ 358.963 mil**
As empresas acima contemplam setores variados — de tecnologia a energia, passando por varejo, calçados, construção e proteína animal. A diversidade de segmentos evidencia que os proventos elevados não estão concentrados em um único setor, mas resultam de contextos específicos de operação, lucros acumulados e, em alguns casos, eventos extraordinários como venda de ativos ou distribuições pontuais.
O que explica tamanha distribuição de dividendos?
O impacto das mudanças tributárias
Segundo Rodrigo Santoro, Head de Ações da Bradesco Asset, a expectativa é que até o final deste ano haja um movimento significativo de pagamento de dividendos extraordinários. A razão é simples: evita-se a incidência de nova tributação sobre lucros distribuídos, que passa a valer no ano que vem.
Empresas com reservas expressivas de lucro estão acelerando anúncios de distribuição para garantir isenção antes do início das novas regras. Santoro estimou que o dividendo médio das empresas que compõem o Índice Bovespa deve subir para a faixa de 7% a 8%, um aumento relevante frente aos 6,5% projetados inicialmente.
Dividendos acima da Selic: exceção, não regra
Apesar do destaque nos números mais elevados, o especialista pondera que dificilmente uma grande empresa consegue entregar dividend yield próximo à taxa Selic anual, ainda mais em patamar tão elevado como 15%. Segundo ele, retornos desse tipo só se tornam possíveis quando há eventos extraordinários.
Além disso, o investidor deveria comparar o retorno dos dividendos ao juro real, e não à taxa nominal da Selic. Considerando os títulos públicos corrigidos pela inflação, os juros reais ficam mais próximos dos 6% ao ano — número semelhante à média histórica de dividend yield das empresas brasileiras.
Outro ponto importante é que muitas companhias optam por não distribuir todo o lucro, preferindo reinvesti-lo para crescer. Essa decisão pode elevar o valor das ações no longo prazo, beneficiando o acionista pelo ganho de capital — que também é parte essencial do retorno total.
A leitura dos analistas sobre juros, bolsa e dividendos
Expectativas para os próximos cortes da Selic
Para Santoro, a decisão do Copom de manter os juros não altera significativamente a perspectiva para a bolsa no curto prazo, já que a expectativa majoritária do mercado segue sendo de queda na Selic em 2025. Ele avalia que o primeiro corte pode acontecer já em março, embora a possibilidade de janeiro não esteja descartada. Isso faria do primeiro trimestre do próximo ano um período chave para avaliar o comportamento da bolsa e dos juros no Brasil e também nos Estados Unidos.
O impacto dos juros elevados na busca por dividendos
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A analista Bruna Sene, da Rico Investimentos, destaca que é possível encontrar dividend yields acima de 15%, mas reforça duas premissas essenciais:
- Dividendos assim elevados não são comuns
- Eles não são sustentáveis no longo prazo
Ela alerta que, muitas vezes, os yields tão altos surgem não porque a empresa está pagando mais, mas porque o preço da ação caiu significativamente, aumentando o percentual relativo dos dividendos pagos.
Por isso, segundo ela, o investidor precisa avaliar sempre o retorno total — a soma dos dividendos recebidos e a valorização (ou desvalorização) da ação. Uma ação pode oferecer yield de 16% e ainda assim gerar prejuízo se o papel cair mais do que isso no período.
Critérios essenciais para avaliar dividendos
Bruna cita fatores estruturais que ajudam a entender se o dividendo é sustentável:
- geração de caixa constante
- necessidade de investimentos recorrentes
- nível e qualidade do endividamento
- sensibilidade da operação aos juros
- payout historicamente praticado
- recorrência da distribuição de lucros
Com juros em 15%, dividendos precisam competir diretamente com a renda fixa — daí a importância da seletividade. Mesmo assim, segundo ela, a estratégia de busca por proventos continua extremamente válida para quem busca renda recorrente e possui horizonte para atravessar oscilações.
O desempenho recente da bolsa reforça esse ponto: mesmo com a Selic elevada, o Ibovespa sobe mais de 30% no ano, enquanto o índice de dividendos (IDIV) acumula valorização superior a 25%. Isso demonstra que empresas bem posicionadas mantêm capacidade de entregar valor aos acionistas.
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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
