O projeto Drex, a moeda digital de atacado desenvolvida pelo Banco Central do Brasil, passa por uma das maiores reestruturações desde sua concepção. Após a fase de testes, a autoridade monetária decidiu abandonar o uso do Hyperledger Besu e adotar uma nova arquitetura focada na camada base do protocolo, com o objetivo de solucionar questões de privacidade, escalabilidade e permissionamento. A mudança foi detalhada pelo ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em entrevista ao podcast Perspectivas, marcando uma nova etapa de amadurecimento tecnológico e estratégico do projeto.
A seguir, o Seu Crédito Digital apresenta uma análise completa sobre a reconfiguração do Drex, as razões por trás da mudança, as implicações para o sistema financeiro e o impacto esperado na economia digital brasileira.
Leia mais:
Banco Central dá adeus ao Drex, a moeda digital brasileira
Por que o Banco Central está mudando a arquitetura do Drex
Limitações do modelo anterior com Hyperledger Besu
Durante os testes conduzidos ainda na gestão de Campos Neto, o Drex utilizava o Hyperledger Besu como base estrutural. Apesar dos avanços obtidos, o modelo mostrou-se insuficiente para atender simultaneamente a três requisitos essenciais para uma CBDC de atacado:
Privacidade dos dados
O modelo anterior não conseguia garantir isolamento adequado das informações transacionais sem comprometer a auditabilidade necessária para instituições financeiras e reguladores.
Escalabilidade para grandes operações
Transações de grande volume, como liquidações corporativas e tokenização de garantias, poderiam enfrentar gargalos.
Programabilidade sem riscos
Contratos inteligentes mais complexos elevavam o risco operacional e expandiam o consumo de recursos da rede.
Campos Neto reconheceu que a combinação desses fatores inviabilizou a continuidade do Drex nos moldes iniciais, exigindo uma reestruturação profunda para que os objetivos originais do BC fossem preservados.
A nova arquitetura baseada na “chain base”
O que muda com a abordagem na camada base
A reformulação tecnológica desloca parte das funções que antes eram executadas por contratos inteligentes para a camada fundamental da rede. Isso cria um sistema digital mais próximo de uma infraestrutura modular de registros do que de uma blockchain tradicional.
Privacidade embutida na infraestrutura
A nova arquitetura permitirá:
- transações privadas,
- segregação nativa de dados,
- criptografia avançada, incluindo ZK-Proof (provas de conhecimento zero).
Isso reduz a necessidade de criar camadas adicionais de proteção nos contratos inteligentes, simplificando a estrutura de desenvolvimento.
Escalabilidade aprimorada
A solução busca otimizar a velocidade e o processamento de transações, atendendo demandas de operações de alto valor e grande volume, algo essencial para aplicações como liquidação de empréstimos, tokenização de imóveis e transferências entre grandes instituições.
Governança e permissionamento integrados
Um dos desafios do Drex é garantir que apenas instituições financeiras autorizadas operem a rede. Ao integrar essas regras à camada base, o Banco Central reduz riscos e amplia o controle sobre permissões.
Campos Neto destacou que o novo modelo se assemelha às soluções adotadas pelos bancos centrais de Singapura e Hong Kong, que também privilegiaram arquiteturas com privacidade e permissionamento intrínsecos.
O Drex não é um “real digital”: qual é seu papel no sistema financeiro
Uma CBDC voltada ao atacado, e não ao varejo
Ao contrário do que muitos imaginam, o Drex não será um dinheiro digital usado no cotidiano para compras comuns, como alimentos ou serviços. Ele é uma moeda digital de atacado, com funções voltadas para transações de grande porte e operações entre instituições.
Tokenização de depósitos bancários
Em vez de emitir um novo tipo de dinheiro diretamente ao público, o Drex tokeniza depósitos existentes mantidos pelos bancos. Isso preserva:
- o multiplicador bancário,
- a capacidade de concessão de crédito,
- a intermediação financeira tradicional.
Essa característica é considerada essencial pelo Banco Central para evitar impactos negativos na economia.
Por que o Drex evita a desintermediação bancária
Campos Neto alertou que a migração de recursos para carteiras digitais ou stablecoins pode reduzir a oferta monetária utilizada pelos bancos para conceder crédito. Essa perda afetaria diretamente:
- crescimento econômico,
- operações de financiamento,
- estabilidade monetária,
- capacidade de o Banco Central calibrar ciclos econômicos.
O Drex foi projetado justamente para impedir esse cenário. Como todo o lastro permanece no sistema bancário, a economia mantém estabilidade e previsibilidade.
Casos de uso práticos do Drex no mercado brasileiro
Tokenização como eixo central da digitalização financeira
A principal promessa do Drex é tornar processos burocráticos mais eficientes, seguros e baratos, criando transações imutáveis e liquidadas automaticamente na rede.
Veículos, imóveis e garantias digitais
Um exemplo dado por Campos Neto é a compra e venda de um carro: com um token que representa o veículo e outro representando o pagamento, a transação pode ocorrer sem intermediários, cartórios ou risco de fraude.
Outros setores devem ser beneficiados:
- registro de imóveis,
- crédito com garantias reais,
- operações do Minha Casa, Minha Vida,
- títulos judiciais,
- ativos financeiros tokenizados (RWA).
Integração com Pix e Open Finance
A fase atual do Drex busca sinergia com ferramentas já consolidadas:
- Pix, para liquidação instantânea;
- Open Finance, para compartilhamento de dados;
- sistemas de autorregulação bancária.
Segundo Campos Neto, o Brasil está muito próximo de criar uma “tríplice revolução digital”: tokenização + Open Finance + inteligência artificial.
O impacto da revisão tecnológica na agenda financeira do país
O Brasil segue na liderança da inovação
A reestruturação não representa um retrocesso, mas uma correção estratégica. O BC busca garantir que o Drex seja funcional, seguro e compatível com o ambiente regulatório.
Um modelo mais maduro e alinhado à realidade do mercado
Com uma arquitetura mais robusta, o Drex:
- aumenta previsibilidade,
- reduz riscos operacionais,
- atrai instituições privadas,
- facilita integrações futuras.
A visão de futuro para o ecossistema financeiro
Campos Neto reforçou que o Drex deve impulsionar:
- eficiência nas transações,
- redução de custos,
- modernização dos sistemas internos dos bancos,
- avanço no crédito digital.
Esse alinhamento tecnológico prepara o país para uma economia cada vez mais orientada a dados e ativos tokenizados.
Não perca nenhuma oportunidade de crédito e pagamento: acesse agora nossas últimas notícias no Seu Crédito Digital.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
