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Endividamento cresce: apostas on-line já comprometem renda de 3 em cada 10 mineiros

Pesquisa aponta que 28% dos mineiros já atrasaram o aluguel por causa de apostas on-line, com maior impacto entre famílias de baixa renda.

Juliana PeixotoPor Juliana Peixoto6 min de leitura
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O hábito de apostar em sites e aplicativos tem se tornado um fenômeno social e econômico em Minas Gerais — e com consequências preocupantes. Uma pesquisa inédita da Loft, em parceria com a Offerwise, revelou que 28% dos mineiros já atrasaram ou conhecem alguém que atrasou o pagamento do aluguel devido a apostas ou jogos de azar on-line.

O levantamento ouviu 1.300 pessoas em todo o estado e mostrou que o impacto financeiro das apostas se espalha com velocidade, especialmente entre famílias de baixa renda e moradores do interior.

Segundo o estudo, 38% das pessoas das classes D e E afirmaram já ter sido afetadas diretamente pelo problema, enquanto 36% vivem fora da capital. Em Belo Horizonte, o índice é de 12%, e na região metropolitana, chega a 30%.

“O efeito das bets nas finanças dos mineiros se repete em todos os recortes de gênero, raça e escolaridade, mas é muito mais acentuado quando consideramos a renda familiar e a localização”, explica o gerente de dados da Loft, Fábio Takahashi.

Para ele, a vulnerabilidade é maior entre quem tem menor estabilidade financeira e vive longe dos grandes centros urbanos, onde o acesso a programas de educação financeira ainda é limitado.

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Um fenômeno recente, mas em crescimento acelerado

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Imagem: krisanapong detraphiphat / gettyimages.com

O estudo mostra que o boom das apostas é um fenômeno recente, mas de crescimento rápido. Mais da metade (52%) dos apostadores começaram a jogar há menos de um ano, o que indica que o comportamento ainda está se consolidando, mas já impacta orçamentos familiares.

Entre os apostadores, 32% gastam até R$ 50 por mês, enquanto 13% desembolsam até R$ 300. O dado mais alarmante, segundo a pesquisa, é que mesmo pessoas sem renda própria estão jogando: entre elas, 67% relataram prejuízo de até R$ 50, e 33% perderam até R$ 100.

“O impacto na moradia tende a crescer, considerando que boa parte desses inquilinos começou a jogar há pouco tempo”, alerta Takahashi.


Endividamento e a “fé no golpe de sorte”

Apostas como vetor de vulnerabilidade econômica

O economista Jonas Henrique analisa o fenômeno das apostas on-line como um reflexo da fragilidade estrutural das famílias de baixa renda.

“Não se trata apenas de gasto excessivo. É o desvio de recursos destinados ao consumo de necessidades básicas para sustentar um consumo de risco”, explica.

Segundo ele, as plataformas digitais de apostas criam um ambiente propício ao descontrole financeiro. O acesso facilitado por Pix, carteiras digitais e publicidade massiva estimula o comportamento impulsivo, muitas vezes mascarado sob o rótulo de entretenimento.

“O jogo está disponível 24 horas por dia, na palma da mão, com promessa de ganhos rápidos. Isso reduz a capacidade de planejamento e compromete o consumo essencial”, diz o economista.


A fé no acaso e a ilusão do lucro fácil

Para Henrique, há também um componente emocional e simbólico nas apostas: a ideia de que a sorte pode resolver o que o trabalho e o crédito não conseguem.

“Essa ‘fé econômica’ — acreditar que um prêmio pode mudar a vida — reforça o ciclo de vulnerabilidade. É uma forma de esperança financeira que se transforma em armadilha”, afirma.

De acordo com a pesquisa, 12% dos entrevistados admitiram já ter atrasado ou deixado de pagar o aluguel por causa das apostas, e outros 13% enfrentaram dificuldades para arcar com o valor integral.

Henrique alerta que esse padrão de comportamento pode pressionar o mercado de moradia e o crédito imobiliário, ao reduzir a capacidade de pagamento das famílias.

“Quando parte da renda é desviada para apostas, falta para despesas básicas. Isso afeta o aluguel, o financiamento habitacional e até o comércio local”, destaca.


Efeito dominó nas finanças das famílias mineiras

CPI das Bets
Imagem: Bruno Peres/Agência Brasil

A pesquisa indica que as apostas on-line estão se tornando um dreno silencioso da renda disponível. O problema, segundo especialistas, não está apenas na perda imediata, mas na recorrência dos gastos e na sensação de controle ilusório que o jogo transmite.

Para famílias que vivem de aluguel, cada real perdido nas plataformas digitais representa menos estabilidade financeira e maior risco de inadimplência.

Economistas alertam que esse comportamento pode impactar o mercado imobiliário, elevando índices de atraso no pagamento de aluguéis e pressionando administradoras e proprietários.

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Além disso, o endividamento crescente tende a refletir em outros setores, como o varejo e os serviços, já que o dinheiro gasto em apostas deixa de circular na economia local.


Percepção pública e demanda por regulação

Apesar de o vício em apostas se expandir rapidamente, a população mineira demonstra consciência crítica sobre os riscos do setor.

  • 55% acreditam que as apostas são nocivas à sociedade;
  • 78% dizem que aumentam o endividamento das famílias;
  • 83% defendem regras mais rígidas para o setor;
  • 81% reconhecem que a maioria das pessoas perde dinheiro.

Ainda assim, há uma contradição: 30% veem as apostas como uma forma de lazer saudável, e 28% acreditam que podem representar uma renda extra.

Essa ambiguidade, segundo Takahashi, reflete o discurso duplo em torno das plataformas: enquanto os apostadores enxergam diversão e oportunidade, os dados revelam perda e endividamento.

“Minas é um dos estados com maior rejeição às apostas on-line, mas o impacto delas é o mesmo do restante do país”, observa o gerente da Loft.


Caminhos para conter o avanço das dívidas

Especialistas defendem duas frentes urgentes de atuação:

  1. Regulação efetiva do setor de apostas, com limites de gasto, transparência nas operações e campanhas de conscientização;
  2. Educação financeira voltada ao público vulnerável, principalmente entre jovens e famílias de baixa renda.

“Sem regulação e sem educação financeira, a combinação de fácil acesso, propaganda e desespero econômico continuará produzindo inadimplência e instabilidade social”, resume o economista Jonas Henrique.

Enquanto o governo federal avança nas discussões sobre tributação e controle das plataformas de apostas, o desafio em Minas Gerais — e no Brasil — é impedir que o lazer digital se transforme em dívida real.

Imagem: Marko Aliaksandr / Shutterstock.com

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Juliana Peixoto

Autor

Juliana Peixoto

Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.

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