O fenômeno climático El Niño voltou ao centro das atenções dos investidores. Com previsão de influenciar o clima da América Latina durante os próximos meses, o evento pode provocar mudanças importantes na economia brasileira e, consequentemente, no desempenho de diversos setores da Bolsa de Valores.
Santander aponta ações que podem se beneficiar do El Niño
Relatório do Santander aponta quais ações brasileiras podem se beneficiar ou sofrer com o El Niño 2026/27 e explica os impactos na economia.
De acordo com um relatório do Santander, o El Niño 2026/27 não deve provocar um choque uniforme em todo o mercado. Em vez disso, o banco recomenda uma estratégia baseada na seleção cuidadosa de empresas capazes de se beneficiar das mudanças climáticas ou demonstrar maior resiliência operacional.
Na prática, isso significa que alguns setores podem registrar crescimento de receitas, enquanto outros enfrentarão custos maiores, redução da produção e desafios logísticos.
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Como o El Niño pode afetar a economia brasileira

O El Niño altera o padrão das temperaturas e das chuvas em diversas regiões do planeta. No Brasil, seus efeitos costumam variar conforme a localização.
Segundo o Santander, o país apresenta uma das dinâmicas climáticas mais complexas da América Latina.
Enquanto o Sul tende a registrar chuvas acima da média e maior risco de enchentes, o Norte e parte do Nordeste normalmente enfrentam períodos mais secos, afetando atividades agrícolas e a disponibilidade de água.
Essa diferença regional faz com que o impacto econômico também seja desigual.
Santander prevê inflação maior nos alimentos
Na avaliação do banco, o efeito do El Niño deve aparecer principalmente no custo de vida dos brasileiros.
As estimativas apontam para:
- redução de aproximadamente 0,6 ponto percentual no Produto Interno Bruto (PIB);
- alta de cerca de 0,35 ponto percentual no IPCA cheio;
- pressão de aproximadamente 2,4 pontos percentuais sobre os preços dos alimentos.
Isso ocorre porque secas e excesso de chuvas podem reduzir a produtividade agrícola, afetando principalmente grãos, frutas, verduras e legumes.
Mesmo que a inflação geral permaneça relativamente controlada, os alimentos podem sofrer aumentos mais expressivos.
Por que o mercado de ações reage ao El Niño?
Empresas listadas na bolsa dependem diretamente das condições climáticas em diversos setores.
Entre os impactos mais comuns estão:
- mudanças no consumo das famílias;
- aumento dos custos de produção;
- dificuldades logísticas;
- alterações na geração de energia;
- redução da produtividade agrícola.
Por esse motivo, investidores costumam revisar suas carteiras quando eventos climáticos extremos ganham força.
Quais ações podem se beneficiar do El Niño?
Segundo o Santander, algumas companhias tendem a apresentar desempenho mais favorável durante períodos de temperaturas acima da média.
Empresas de bebidas
Uma das principais recomendações do banco é a Ambev (ABEV3).
A justificativa é relativamente simples: temperaturas mais altas costumam aumentar o consumo de:
- cervejas;
- refrigerantes;
- água;
- bebidas prontas para consumo.
Além disso, o calor pode impulsionar as vendas inclusive em meses que normalmente apresentam menor demanda.
Distribuidoras de energia
Outra tese considerada positiva envolve empresas de distribuição elétrica.
O uso mais intenso de:
- ar-condicionado;
- ventiladores;
- aparelhos de refrigeração;
eleva o consumo de energia nas áreas atendidas pelas distribuidoras.
Entre os destaques aparecem:
Equatorial (EQTL3)
Segundo o Santander, temperaturas elevadas podem aumentar o volume distribuído de energia, favorecendo as receitas reguladas.
Energisa (ENGI3)
A companhia também aparece entre as preferidas para aproveitar o aumento da demanda por eletricidade durante períodos mais quentes.
Saneamento também pode ganhar
O banco cita a Copasa (CSMG3) como uma empresa com potencial de apresentar resultados positivos.
Em cenários de calor intenso, o consumo de água tende a crescer, aumentando o volume faturado pelas companhias de saneamento.
Quais empresas exigem mais cautela?
Nem todos os setores devem atravessar o El Niño sem dificuldades.
O relatório identifica segmentos mais vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas.
Agronegócio
As empresas ligadas à produção agrícola podem enfrentar desafios importantes.
Entre elas está a SLC Agrícola (SLCE3).
Segundo o Santander, regiões importantes para a companhia, como Mato Grosso, Maranhão e Piauí, podem sofrer déficits hídricos capazes de comprometer:
- plantio;
- desenvolvimento das lavouras;
- produtividade.
Os analistas ressaltam que a distribuição das chuvas costuma ser mais importante do que o volume total precipitado.
Frigoríficos
A Minerva (BEEF3) também aparece entre as empresas que merecem atenção.
Em períodos prolongados de seca, a qualidade das pastagens diminui, elevando o custo da pecuária no médio e longo prazo.
O Santander estima que cada aumento de R$ 15 por arroba no preço do gado pode reduzir significativamente o EBITDA da companhia, caso os demais fatores permaneçam estáveis.
Transporte e logística
O setor logístico também pode sofrer impactos relevantes.
Hidrovias do Brasil (HBSA3)
A redução do nível dos rios no Norte do país pode comprometer a navegação de barcaças utilizadas para transportar grãos.
O relatório destaca especialmente a situação do Rio Tapajós, que historicamente apresenta níveis abaixo da média durante eventos de El Niño.
Com menor profundidade, o transporte fluvial perde eficiência e eleva custos.
Rumo (RAIL3)
A operadora ferroviária vive um cenário mais complexo.
Por um lado, pode captar parte da carga desviada das hidrovias.
Por outro, enfrenta riscos como:
- menor produção agrícola;
- redução das exportações;
- paralisações causadas por excesso de chuvas no Porto de Santos.
Bancos e seguradoras também entram no radar
Embora o impacto seja considerado indireto, algumas instituições financeiras também podem sentir os efeitos do fenômeno.
Banco do Brasil (BBAS3)
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A principal preocupação está relacionada ao crédito rural.
Caso produtores enfrentem perdas significativas nas lavouras, aumenta o risco de inadimplência em determinadas regiões.
BB Seguridade (BBSE3)
Segundo o Santander, enchentes, incêndios florestais, secas e perdas agrícolas podem elevar o pagamento de sinistros.
O seguro rural aparece como uma das áreas que merecem maior atenção.
Caixa Seguridade (CXSE3)
Mesmo sem forte atuação em seguro agrícola, a companhia pode registrar aumento nas indenizações relacionadas a:
- seguros residenciais;
- seguros habitacionais;
- seguros de vida;
- seguros prestamistas.
Eventos climáticos extremos costumam elevar esse tipo de demanda.
IRB (IRBR3)
No segmento de resseguros, grandes eventos climáticos representam riscos relevantes para os resultados financeiros da empresa.
Empresas que exigem posição neutra
Nem todas as ações possuem perspectiva claramente positiva ou negativa.
O Santander recomenda cautela em alguns casos.
Geradoras de energia
Empresas como:
- Auren (AURE3);
- Copel (CPLE3);
- Axia Energia (AXIA3);
dependem diretamente das condições hidrológicas.
Chuvas acima da média podem aumentar os reservatórios e reduzir o preço da energia no mercado de curto prazo.
Por outro lado, secas prolongadas podem provocar exatamente o efeito contrário.
Essa imprevisibilidade dificulta uma recomendação mais objetiva.
Sabesp
A companhia de saneamento paulista também apresenta um cenário misto.
Temperaturas elevadas aumentam o consumo de água, favorecendo a receita.
Entretanto, caso uma estiagem prolongada afete os reservatórios do Sudeste, poderão surgir limitações operacionais e custos adicionais para garantir o abastecimento.
Estratégia do Santander prioriza diversificação
O principal recado do relatório é que o El Niño não deve ser tratado como um evento capaz de impulsionar ou derrubar toda a bolsa brasileira.
Em vez disso, o banco recomenda uma carteira diversificada, considerando:
- diferenças entre regiões do país;
- impactos específicos em cada setor;
- capacidade operacional das empresas;
- exposição ao agronegócio;
- dependência das condições climáticas.
Essa abordagem busca reduzir riscos e aproveitar oportunidades que surgem justamente em momentos de maior volatilidade.
O que investidores devem acompanhar nos próximos meses?

Além da evolução do próprio El Niño, especialistas recomendam monitorar indicadores que podem alterar rapidamente o comportamento das ações.
Entre eles estão:
- projeções de safra divulgadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab);
- evolução da inflação dos alimentos;
- nível dos reservatórios das hidrelétricas;
- volume de chuvas nas principais regiões agrícolas;
- decisões de política monetária e comportamento dos juros.
Como eventos climáticos costumam produzir impactos graduais, a expectativa é que seus efeitos sejam incorporados ao mercado ao longo dos próximos meses, tornando a seleção de empresas um fator ainda mais importante para investidores que desejam reduzir riscos e aproveitar oportunidades na bolsa brasileira.
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