Falar sobre fraudes dentro das empresas é sempre um tema delicado e complexo. Apesar de sua ocorrência ser frequente em organizações de todos os portes, muitas vezes os casos não são devidamente documentados ou punidos. A omissão, por vezes, contribui para a perpetuação de práticas ilegais e antiéticas que impactam diretamente os resultados, a reputação e a sustentabilidade da organização.
Quais fraudes mais acontecem nas empresas? Confira
Entenda o que são fraudes nas empresas, os principais tipos, como identificar os sinais e as melhores práticas para prevenção e combate.
Neste artigo, abordamos o que são fraudes corporativas, como elas ocorrem, quais são os principais tipos, os sinais de alerta e as estratégias eficazes de prevenção e combate, segundo especialistas das áreas jurídica e de auditoria.
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O que é uma fraude empresarial?
Segundo o advogado trabalhista Mourival Boaventura Ribeiro, sócio da Boaventura Ribeiro Advogados, “fraude pode ser definida como a prática de qualquer ato ardiloso, enganoso, de má-fé, com o intuito de lesar ou ludibriar outrem, ou de não cumprir determinado dever”.
No ambiente empresarial, isso pode significar desviar recursos, alterar documentos, manipular registros contábeis ou abusar da confiança depositada pelos empregadores, colegas ou parceiros comerciais.
Quem comete fraudes dentro das empresas?
De acordo com José Augusto Barbosa, sócio da Audcorp, especializada em auditoria corporativa, as fraudes geralmente são praticadas por funcionários ou terceiros que mantêm algum tipo de relacionamento com a empresa. Os principais responsáveis por essas ações são:
- Colaboradores internos (em especial das áreas financeira e operacional)
- Terceirizados com acesso a processos e sistemas
- Parceiros comerciais ou fornecedores
O cenário se agrava quando há falhas de controle interno, ausência de auditoria frequente ou cultura organizacional permissiva.
Principais indícios de fraudes empresariais
Segundo Barbosa, os primeiros sinais de alerta podem ser detectados por meio de inconsistências nos registros e processos. Entre os principais indícios, estão:
Diferenças contábeis e financeiras
- Discrepâncias entre contas a receber/pagar e o saldo real
- Custos de produção incompatíveis com as metas operacionais
- Fluxo de caixa irregular ou com entradas e saídas não justificadas
Informações cruzadas com inconsistências
- Divergência entre relatórios contábeis e informações prestadas por clientes, fornecedores ou terceiros
Inventários e estoques sem correspondência
- Diferenças entre o inventário físico e os registros no sistema
- Desvios de estoque não explicados
Falta de documentação adequada
- Ausência de comprovantes ou notas fiscais em transações financeiras
- Recibos falsificados ou incompletos
Quais são os principais tipos de fraudes corporativas?

José Augusto Barbosa destaca que as fraudes costumam ocorrer, sobretudo, nas áreas onde há movimentações financeiras, como setor de compras, estoque e contas a receber. A seguir, os 10 tipos mais comuns:
1. Furto
Envolve a retirada não autorizada de bens da empresa. Pode ir desde pequenos materiais de escritório até equipamentos valiosos.
2. Apropriação indébita
O colaborador, de posse legítima de um bem da empresa, passa a utilizá-lo como se fosse de sua propriedade, como no caso de notebooks ou veículos corporativos.
3. Desvio financeiro
É uma das fraudes mais danosas e comuns. Ocorre quando um colaborador redireciona valores da empresa para contas pessoais, frequentemente em contextos onde há ausência de controle sistêmico.
4. Desperdício voluntário
Funcionários desmotivados ou negligentes permitem o desperdício de recursos ou materiais, gerando prejuízos significativos à empresa.
5. Corrupção
Pode se manifestar em forma de:
- Suborno: pagamento para agir de forma desonesta;
- Propina: para liberação de atividade ou contrato;
- Superfaturamento: emissão de nota com valor superior ao efetivamente gasto.
6. Fraudes com gastos pessoais
Envolve o uso indevido de recursos da empresa para fins particulares, como:
- Uso de carro da empresa em compromissos pessoais;
- Utilização do cartão corporativo para despesas não autorizadas;
- Abastecimento de veículo particular com vale combustível empresarial.
7. Falsificação de comprovantes
Consiste na perda ou adulteração de recibos com o objetivo de aumentar valores para reembolso.
8. Despesas não autorizadas
Inclui gastos excessivos em viagens corporativas ou compra de serviços e produtos sem necessidade ou aprovação prévia.
9. Reembolso duplicado
A mesma nota é usada mais de uma vez para reembolso, geralmente em empresas sem controle digital ou verificação automatizada.
10. Despesas disfarçadas
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Quando o colaborador pede para o fornecedor emitir nota de produto ou serviço diferente do que foi consumido, como forma de esconder gastos com bebidas alcoólicas ou outros itens não permitidos.
Como as empresas devem agir diante de uma fraude?
Segundo o advogado criminalista André Damiani, sócio da Damiani Advogados Associados, a resposta à fraude deve ser imediata e em duas frentes:
No âmbito trabalhista
- Aplicação de sanções disciplinares;
- Demissão por justa causa, conforme a gravidade do ato;
- Abertura de sindicância interna para apuração dos fatos.
No âmbito criminal
- Registro de boletim de ocorrência;
- Abertura de inquérito policial;
- Ação penal contra o colaborador ou terceiro envolvido.
Como prevenir fraudes dentro das empresas?

1. Políticas internas e compliance
Mourival Ribeiro defende a criação de normas de compliance claras, com foco em:
- Transparência nos processos financeiros;
- Estímulo à conduta ética;
- Disseminação de regulamento interno acessível a todos os colaboradores.
A cultura organizacional deve reforçar que desvios de conduta não serão tolerados, e que medidas corretivas serão tomadas.
2. Controles e auditorias
- Relatórios financeiros devem sempre estar acompanhados de notas fiscais;
- Realizar auditorias internas regulares e independentes;
- Nunca permitir que a mesma pessoa autorize e execute um pagamento.
Segundo José Augusto Barbosa, “o auditor contábil, ao perceber falhas como essas, já deve alertar sobre o risco iminente de fraude”.
3. Canal de denúncias
Criar um canal seguro e anônimo para denúncias é essencial para que colaboradores sintam-se à vontade para relatar irregularidades.
4. Monitoramento de processos
Manter ferramentas tecnológicas que permitam a rastreabilidade das ações e o cruzamento de dados contábeis e operacionais.
5. Código de ética
André Damiani reforça que “algumas empresas só pensam em gestão de riscos quando já estão mergulhadas em uma crise”. Ter um código de ética moldado à realidade da empresa é essencial para evitar esse cenário.
Imagem: Freepik
