Após o forte impacto da pandemia e a consolidação do transporte individual como alternativa cotidiana, as empresas de ônibus no Brasil enfrentam o desafio de reconquistar passageiros.
Empresas de ônibus investem em frota nova e mais velocidade para reconquistar passageiros
Setor de transporte coletivo aposta em frota nova e mais agilidade para recuperar passageiros perdidos.
A queda no número de usuários levou o setor a investir em renovação de frota, novas tecnologias e em propostas para garantir mais previsibilidade e eficiência ao serviço, tudo para competir com aplicativos, mototáxis e carros particulares. Em algumas cidades, essas estratégias já dão sinais de sucesso.
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A crise de público e a ascensão dos transportes individuais

Durante a pandemia, o número de passageiros de ônibus despencou nas principais capitais brasileiras. Com a adesão ao home office e às aulas online, menos pessoas dependiam do transporte coletivo. Hoje, cinco anos depois, apenas Brasília conseguiu recuperar totalmente o patamar de usuários anterior à crise sanitária.
Esse novo cenário foi agravado pelo crescimento de alternativas individuais. Segundo a pesquisa Origem e Destino do Metrô, em 2024, 51,2% das viagens motorizadas na Grande São Paulo foram feitas por carros ou motos, em 2017, os transportes coletivos dominavam com 54,1%.
Aplicativos de mobilidade e o mototáxi também cresceram. Mesmo proibido na cidade de São Paulo, o mototáxi é comum em municípios da região metropolitana e em outras capitais. Para trajetos curtos, o custo é semelhante ao da tarifa de ônibus, tornando-o competitivo.
A busca por conforto e velocidade
“Sabemos que uma parcela das pessoas, normalmente as de renda mais elevada, opta pelo automóvel em razão do conforto. Outra parcela migrou para as motocicletas em razão do tempo de viagem”, explicou Edmundo Carvalho Pinheiro, novo presidente do Conselho Diretor da NTU.
Ele também destaca um fenômeno recente: “a perda de atratividade dos ônibus nas viagens de curta distância, de até 5 km, nas quais o transporte por aplicativo consegue ter preço acessível”.
Com mais carros nas ruas, surgem consequências urbanas: piora no trânsito, aumento da poluição e pressão sobre a infraestrutura viária. A expansão de avenidas, longe de resolver, pode até agravar o problema — como se viu na Marginal Tietê, que recebeu pistas adicionais em 2010 e logo voltou a registrar congestionamentos intensos.
Modernização como estratégia de reconquista
Para mudar esse cenário, empresas de ônibus lançaram um plano ambicioso. Ele envolve:
- Renovação da frota com veículos mais confortáveis, modernos e silenciosos;
- Investimento em tecnologias para acelerar as viagens e otimizar a operação;
- Propostas de novos modelos contratuais que tragam segurança jurídica e mais financiamento ao sistema.
“Nossa missão é tornar o transporte público mais atraente, competitivo e capaz de enfrentar os desafios das cidades do século 21”, afirmou Pinheiro. “Quem migrou para o transporte individual não volta com discurso, volta com entrega, em forma de conforto, segurança, confiabilidade e tarifa justa.”
O avanço dos ônibus elétricos
Um dos principais focos da renovação de frota é a eletrificação dos veículos. Os ônibus elétricos são mais silenciosos, não poluem e oferecem maior conforto aos passageiros. São Paulo lidera essa transição, embora enfrente obstáculos, como a dificuldade em obter energia suficiente nas garagens para recarregar a nova frota.
O custo ainda é um entrave: enquanto um ônibus a diesel padrão custa cerca de R$ 800 mil, um elétrico pode chegar a três vezes esse valor. Por isso, o setor pede mais apoio governamental e melhores condições de financiamento.
Quem paga a conta? O debate sobre subsídios

Para que a modernização aconteça, são necessários investimentos pesados. As empresas defendem que o poder público entre com subsídios mais robustos e que os contratos de concessão sejam revistos para garantir equilíbrio financeiro.
O modelo proposto inclui duas tarifas: uma paga pelo usuário e outra, maior, que seria recebida pelas empresas para cobrir os custos reais do sistema. Essa abordagem é usada em São Paulo, onde o gasto com subsídios em 2024 foi de R$ 6,7 bilhões.
Nas cidades em que a remuneração depende apenas do valor arrecadado nas catracas, a queda de demanda gera um rombo financeiro que impede qualquer investimento futuro.
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Exemplos de sucesso: Brasília e Goiânia
Duas cidades se destacam como exemplos positivos de recuperação do transporte coletivo.
Brasília:
- Hoje transporta 108% do número de passageiros pré-pandemia;
- Possui frota com idade média de apenas 2,1 anos;
- O governo investiu R$ 914 milhões em subsídios em 2024, cobrindo 74% do custo do sistema;
- Tarifas seguem congeladas desde 2020.
Goiânia:
O prefeito Sandro Mabel propôs a “metrônização” do sistema de ônibus: modernizar a rede ao ponto de se assemelhar a um metrô de superfície. Entre as medidas:
- Renovação de 1.200 ônibus;
- Reforma de 7.000 paradas;
- Implementação de sistema que dá prioridade aos ônibus nos semáforos;
- Controle da central de operações do sistema de trânsito pelas empresas de ônibus.
“Fazer uma nova linha de metrô de 6 km vai demorar não sei quantos anos. Em 30 ou 60 dias, eu metrônizo uma linha dessas”, declarou Mabel.
Uma virada ainda possível?
O transporte público vive um momento de inflexão no Brasil. Com o apoio dos governos, a retomada de passageiros pode ser acelerada. Mas para isso, será necessário mais do que promessas: será preciso entregar eficiência, conforto e inovação de verdade.
O desafio é claro: mostrar aos brasileiros que o ônibus pode ser, sim, a melhor escolha.
Com informações de: Exame
