O endividamento das famílias brasileiras voltou ao centro do debate econômico em 2026. Dados recentes mostram que o número de brasileiros com contas em atraso segue elevado desde 2021, refletindo um problema que vai além de crises pontuais. Segundo análise do pesquisador Flávio Ataliba, do FGV Ibre, trata-se de uma questão estrutural, fortemente influenciada pelo histórico de juros altos no país.
Economista aponta juros elevados como causa do endividamento
Entenda por que o endividamento e a inadimplência avançam no Brasil e como juros altos impactam as famílias.
A avaliação foi apresentada no programa Mercado Aberto, do Canal UOL, e reforça um diagnóstico já observado por diferentes instituições: o Brasil convive há décadas com um custo de crédito elevado, que compromete a saúde financeira das famílias.
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O impacto da pandemia na renda das famílias
Queda de renda e aumento das dívidas
Durante a pandemia de Covid-19, milhões de brasileiros enfrentaram perda de renda, desemprego ou redução de jornada, o que intensificou o endividamento das famílias. Esse cenário levou muitas pessoas a recorrerem ao crédito para manter despesas básicas como alimentação, aluguel e contas de serviços, ampliando ainda mais o nível de endividamento no país.
Esse movimento gerou um efeito cascata:
- Aumento do uso do cartão de crédito
- Crescimento do crédito pessoal
- Maior dependência de empréstimos consignados
Mesmo com programas emergenciais, como o auxílio do governo, o impacto não foi suficiente para conter o avanço do endividamento.
Crédito mais caro ao longo do tempo
Após o período inicial da pandemia, o cenário se agravou com a elevação das taxas de juros. A taxa básica, a Selic, subiu significativamente entre 2021 e 2023 para conter a inflação.
Esse aumento teve efeito direto:
- Parcelas de dívidas ficaram mais caras
- Juros rotativos do cartão atingiram níveis elevados
- Renegociações se tornaram mais difíceis
Na prática, o que já era uma dívida administrável passou a ser um problema crescente.
Por que o problema é considerado estrutural
Histórico de juros elevados
O Brasil possui um dos maiores custos de crédito do mundo. Mesmo em períodos de queda da Selic, o spread bancário permanece elevado, o que significa que o consumidor paga juros muito acima da taxa básica.
Esse fenômeno ocorre por fatores como:
- Risco de inadimplência elevado
- Baixa concorrência no sistema financeiro
- Custos operacionais e tributários
O resultado é um ciclo difícil de quebrar: juros altos aumentam a inadimplência, e a inadimplência elevada mantém os juros altos.
Baixa educação financeira
Outro ponto destacado por especialistas é a falta de educação financeira da população. Muitos brasileiros ainda:
- Não controlam o orçamento mensal
- Utilizam crédito rotativo sem planejamento
- Desconhecem taxas e encargos
Sem planejamento, o crédito deixa de ser uma ferramenta e se torna uma armadilha.
Informalidade e renda instável
A alta taxa de informalidade no Brasil também contribui para o problema. Trabalhadores sem renda fixa têm maior dificuldade em:
- Planejar pagamentos
- Acessar crédito mais barato
- Manter regularidade financeira
Isso aumenta o risco de atraso e inadimplência.
Inadimplência em alta: o retrato atual
Dados de entidades como a Serasa Experian e a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo mostram que milhões de brasileiros seguem inadimplentes.
Entre os principais fatores estão:
- Comprometimento elevado da renda com dívidas
- Inflação acumulada em itens essenciais
- Dificuldade de renegociação
Em muitos casos, famílias destinam mais de 30% da renda ao pagamento de dívidas, o que compromete o consumo e o crescimento econômico.
O papel dos bancos e do sistema financeiro
Spread bancário e custo do crédito
O spread bancário, diferença entre o custo de captação e o que é cobrado do cliente, é um dos maiores do mundo no Brasil. Isso eleva significativamente o custo final do crédito.
Mesmo com avanços como:
- Open Finance
- PIX
- Maior digitalização bancária
O impacto na redução de juros ainda é limitado para o consumidor final.
Renegociação e programas de incentivo
Nos últimos anos, iniciativas como mutirões de renegociação e programas governamentais buscaram aliviar o endividamento.
Entre os exemplos estão:
- Feirões de negociação de dívidas
- Programas de incentivo à regularização
- Condições especiais para pagamento à vista
Apesar disso, muitos consumidores ainda enfrentam dificuldades para sair do vermelho.
Como o endividamento afeta a economia
Redução do consumo
Famílias endividadas consomem menos, o que impacta diretamente setores como:
- Comércio
- Serviços
- Indústria
Esse efeito reduz o crescimento econômico e pode afetar a geração de empregos.
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Ciclo de baixo crescimento
O endividamento elevado cria um ciclo negativo:
- Famílias endividadas reduzem consumo
- Empresas vendem menos
- Economia desacelera
- Renda diminui
- Endividamento aumenta
Esse ciclo reforça a visão de que o problema é estrutural.
O que pode ser feito para reduzir o endividamento
Medidas de política econômica
Especialistas apontam algumas soluções possíveis:
- Redução sustentável da taxa de juros
- Incentivo à concorrência bancária
- Ampliação do acesso ao crédito mais barato
Essas medidas dependem de estabilidade econômica e controle da inflação.
Educação financeira
Investir em educação financeira é essencial para mudar o comportamento do consumidor.
Práticas recomendadas incluem:
- Planejamento do orçamento mensal
- Evitar uso excessivo do crédito rotativo
- Priorizar pagamento de dívidas com juros mais altos
Uso consciente do crédito
O crédito deve ser utilizado com estratégia. Algumas orientações práticas:
- Evitar parcelamentos longos com juros
- Comparar taxas antes de contratar
- Manter reserva de emergência
Perspectivas para os próximos anos
O cenário para o endividamento no Brasil depende de fatores como:
- Trajetória da Selic
- Crescimento da renda
- Políticas públicas de crédito
Caso os juros permaneçam elevados por muito tempo, a tendência é de manutenção do nível alto de inadimplência.
Por outro lado, avanços institucionais e tecnológicos podem ajudar a reduzir o custo do crédito no médio prazo.
Conclusão
O avanço do endividamento no Brasil não é um fenômeno recente nem pontual. Ele resulta de uma combinação de fatores estruturais, como juros altos, renda instável e baixa educação financeira.
A pandemia apenas acelerou um problema que já existia. Como destacou Flávio Ataliba, a raiz da questão está no modelo de crédito e nas condições econômicas do país.
Para reverter esse cenário, será necessário um esforço conjunto entre governo, instituições financeiras e consumidores, com foco em sustentabilidade financeira e acesso a crédito mais justo.
INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:
