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Endividamento recorde: os motivos por trás dos 80 milhões de brasileiros com dívidas

Endividamento no Brasil bate recorde: 80 milhões de pessoas e 8 milhões de empresas estão com dívidas e crédito cada vez mais caro.

Juliana PeixotoPor Juliana Peixoto6 min de leitura
endividamento

O Brasil vive um momento delicado em sua economia doméstica: o número de endividamento atingiu um recorde histórico em 2025. São 78,8 milhões de pessoas físicas e 8,1 milhões de empresas com dívidas ativas, segundo dados do Serasa Experian.

Mesmo com a melhora do emprego formal e o crescimento da renda média, o aumento do custo do crédito e a escalada dos juros elevaram a inadimplência a um novo patamar.

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O retrato da inadimplência no país

Inadimplência empresarial
Imagem: Zadorozhnyi Viktor / shutterstock.com

Os números revelam uma tendência de deterioração contínua da capacidade de pagamento. Em janeiro de 2025, o país registrava 74,6 milhões de inadimplentes; em agosto, esse número saltou para 78,8 milhões — o maior nível da série histórica. A média de dívida por consumidor é de R$ 6.267,69, e cada inadimplente tem cerca de quatro pendências ativas.

As dívidas estão concentradas principalmente em bancos e cartões de crédito (27,27%), seguidas por contas de serviços essenciais, como água e luz (20,83%), e instituições financeiras não bancárias (19,51%).

Juros altos e crédito caro

Um dos principais fatores que explica o endividamento crescente é a política monetária. A taxa Selic, que era de 2% ao ano em 2020, subiu para 15% em junho de 2025. Apesar da previsão de cortes graduais, os economistas estimam que ela deve encerrar 2026 ainda próxima de 12%.

Essa elevação encarece o crédito, aumenta o custo das dívidas e torna difícil a renegociação. “O problema não é apenas o endividamento, mas o fato de que muitas famílias não conseguem manter o pagamento em dia”, explica o economista Flávio Ataliba Barreto, do FGV/Ibre.

Segundo ele, o impulso ao endividamento veio do avanço dos empréstimos não consignados e do uso intenso do rotativo do cartão de crédito, modalidade cujos juros médios atingiram 451% ao ano em 2025.


Empresas também sofrem com o peso das dívidas

O cenário negativo não se restringe às famílias. As empresas brasileiras enfrentam um dos períodos mais críticos desde o início da pandemia. Em agosto de 2025, 8,1 milhões de CNPJs estavam negativados, o que representa quase um terço das empresas ativas do país.

Em janeiro, eram 7,1 milhões. A alta constante mostra que, mesmo com a retomada da economia, muitos negócios continuam enfrentando dificuldades de caixa. O valor médio das dívidas empresariais subiu de R$ 21,6 milhões em 2024 para R$ 24,6 milhões em 2025.

Setores mais afetados

As pendências estão concentradas em serviços (31,9%), bancos e financeiras (23,4%), e comércio (17%). Segundo Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, “a dificuldade em honrar compromissos é reflexo da desaceleração da demanda e do crédito mais caro”.

Ela explica que a tendência é de redução de investimentos e contratações em 2026, já que as empresas estarão focadas na preservação do caixa diante de juros ainda altos e de um cenário eleitoral incerto.

As micro e pequenas empresas, responsáveis por 93% dos negócios ativos no país, devem ser as mais impactadas. Sem acesso facilitado a linhas de crédito e com margens apertadas, elas enfrentam desafios para manter a operação e evitar demissões.


De 2017 a 2025: uma escalada gradual da dívida

O endividamento das famílias brasileiras vem crescendo de forma contínua há quase uma década. Em 2017, o índice estava em 58% da renda familiar; hoje, chega a 79%. A inadimplência — ou seja, o atraso no pagamento — está em torno de 30%.

Durante a pandemia, o cenário se agravou. Houve queda de renda, desemprego e inflação elevada, o que levou muitas famílias a recorrerem ao crédito fácil dos cartões e das fintechs. Quem tinha reservas financeiras acabou as consumindo ao longo dos anos seguintes, sem conseguir recompor o orçamento.

Mesmo programas como o Desenrola Brasil, encerrado em 2024, que renegociou milhões de dívidas, não foram suficientes para reverter a tendência. “O alívio foi temporário. O problema estrutural é o custo do crédito e a falta de educação financeira”, ressalta Barreto.


O papel da psicologia no endividamento

endividamento
Imagem: Andrey_Kuzmin / shutterstock.com

Além dos fatores econômicos, especialistas apontam que o comportamento do consumidor também tem peso relevante. O economista Flávio Barreto explica que a expansão dos bancos digitais e o aumento da oferta de cartões de crédito reforçaram viéses cognitivos que dificultam o controle financeiro.

Viés do presente e contabilidade mental

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Muitas pessoas tendem a valorizar o presente e subestimar o futuro — gastando o que não têm para obter prazer imediato. Outro erro comum é a chamada contabilidade mental, quando o consumidor não percebe o peso de várias parcelas pequenas somadas no orçamento.

“Quando o limite do cartão é visto como extensão da renda, cria-se uma ilusão de poder de compra. As pessoas acreditam que podem gastar mais, quando na verdade estão comprometendo meses de salário”, observa o especialista.

Esse comportamento acaba impactando diretamente o consumo das famílias, que representa 62% do PIB brasileiro. Com o orçamento apertado e mais pessoas inadimplentes, o consumo tende a cair, o que prejudica o crescimento econômico.


Caminhos para 2026: juros, crédito e educação financeira

As projeções para o próximo ano não são otimistas. A expectativa é que a Selic encerre 2026 em torno de 12%, o que ainda manterá o crédito caro. Além disso, a incerteza fiscal e o aumento da dívida pública podem dificultar a queda sustentada dos juros.

Para as famílias, o momento exige disciplina financeira e reavaliação de prioridades. Especialistas recomendam identificar despesas essenciais, cortar supérfluos e evitar o uso do crédito rotativo.

Como reconstruir o equilíbrio financeiro

Barreto aconselha três passos básicos para 2026:

  1. Reorganizar o orçamento – identificar gastos fixos e variáveis.
  2. Renegociar dívidas – buscar condições mais vantajosas com credores.
  3. Evitar crédito caro – preferir compras à vista e poupar parte da renda.

Ele também reforça a importância de criar uma reserva de emergência, mesmo que pequena, para lidar com imprevistos sem recorrer a empréstimos.

Imagem: kitzcorner / Shutterstock.com

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Juliana Peixoto

Autor

Juliana Peixoto

Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.

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