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Entregador usa conta de bike para rodar de moto sem CNH pelo iFood

Entregadores excluídos do iFood usam contas de terceiros para continuar trabalhando. Veja como eles driblam regras e enfrentam riscos para sobreviver.

Melissa BarbosaPor Melissa Barbosa5 min de leitura
iFood

Em meio à crescente popularidade dos serviços de entrega por aplicativos, uma parte da força de trabalho que movimenta essas plataformas permanece à margem das normas, invisível e vulnerável. Na cidade de São Paulo, entregadores excluídos do iFood encontram formas alternativas — e muitas vezes ilegais — de continuar trabalhando. Eles driblam exigências do sistema por pura necessidade de sobrevivência.

O caso de José, um entregador que utiliza a conta do irmão para seguir nas ruas, ilustra com clareza a precariedade da situação. Sem Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e com histórico criminal, ele afirma que está impedido de criar sua própria conta no aplicativo e, por isso, trabalha usando cadastro de terceiros.

“Hoje em dia, eu sobrevivo do iFood na conta dos outros, porque não posso ter a minha”, desabafa José.

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Segunda chance negada

Ifood
Imagem: Sidney de Almeida/ Shutterstock.com

O que é a “segunda chance” no iFood?

Após cometerem infrações classificadas como gravíssimas pelo iFood, os entregadores são desligados da plataforma e, em tese, teriam a possibilidade de solicitar uma “segunda chance”. No entanto, esse processo é opaco e raramente resulta em reabilitação. José afirma estar banido há seis anos, mesmo tendo apelado diversas vezes.

Infrações que levam à exclusão

Entre as causas mais comuns de banimento estão:

  • Uso de documentos falsos
  • Adulteração de GPS
  • Emprestar a conta para terceiros
  • Comer parte do pedido do cliente
  • Não concluir entregas
  • Comportamento agressivo

Muitos entregadores afirmam que, mesmo após tentarem se explicar, enviar e-mails a executivos do iFood ou buscar atendimento em pontos de apoio, não obtêm resposta ou chance de retorno.

A rotina de riscos e improvisos

Trabalho irregular, alimentação precária e longas jornadas

A cada dia de trabalho, José fatura entre R$ 120 e R$ 150, valor que sustenta suas três filhas pequenas. Para isso, ele percorre dezenas de quilômetros com uma moto, embora sua conta esteja cadastrada como ciclista. A cada checagem facial pedida pelo app, ele precisa encontrar o irmão para confirmar sua identidade.

A rotina é dura e pouco saudável. A dificuldade para se alimentar é constante e, segundo ele, pedalar até 100 km em um único dia era insustentável. “Eu terminava o dia arrebentado”, conta.

Falta de apoio institucional

Pontos de apoio improvisados ou superlotados são comuns. As tendas e parcerias anunciadas pela empresa nem sempre estão disponíveis em todas as regiões ou funcionam com regularidade. Em muitos casos, os entregadores precisam improvisar locais para descanso e refeições.

O que diz o iFood

Em nota ao Metrópoles, o iFood afirma que:

  • Não incentiva comportamentos de risco
  • Os tempos de entrega são baseados em condições realistas
  • As campanhas de incentivo são opcionais
  • Está comprometido em ampliar pontos de apoio em parceria com entidades públicas e privadas

Contudo, essas declarações contrastam com relatos frequentes de entregadores que afirmam trabalhar sob forte pressão de produtividade e em condições que os obrigam a buscar atalhos e burlar o sistema.

As estratégias dos entregadores excluídos

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imagem: Divulgação/Ifood

Fraude não é regra, mas é comum

Apesar de ilegal, o uso de contas de terceiros é amplamente conhecido no setor de entregas. Em grupos de WhatsApp e redes sociais, circulam tutoriais de como burlar o reconhecimento facial ou criar contas com dados de familiares.

A falta de oportunidades formais e a urgência econômica são os principais gatilhos para esse tipo de conduta. Muitos entregadores se arriscam para garantir o sustento da família.

A lógica do “trabalhar por conta”

Em teoria, o modelo do iFood e de outros aplicativos se baseia na autonomia: o entregador é um parceiro, não um funcionário. No entanto, na prática, a dependência da plataforma é total. A exclusão do sistema é equivalente a uma demissão sumária, sem direitos trabalhistas, aviso prévio ou chance de defesa clara.

A visão institucional

O que diz a Amobitec

A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa empresas como iFood, afirma que cada plataforma tem diretrizes próprias e não estimula jornadas extensas nem velocidade excessiva. Ainda assim, a entidade evita comentar casos individuais de exclusão e não fornece dados transparentes sobre o número de entregadores banidos ou reabilitados.

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Precarização estrutural

Invisibilidade digital e social

Entregadores como José vivem à margem de qualquer rede de proteção. Sem vínculo empregatício, sem acesso a direitos básicos e frequentemente criminalizados, são os operários do século XXI — essenciais, mas invisíveis. A exclusão de uma plataforma como o iFood equivale, para muitos, à exclusão do mercado de trabalho.

A ausência do Estado

Falta regulação eficaz. Falta acolhimento institucional. Falta, sobretudo, uma política pública que reconheça o entregador como trabalhador com direitos. O crescimento da economia de aplicativos trouxe dinamismo ao mercado, mas também aprofundou desigualdades e abriu espaço para novas formas de exploração.

Caminhos possíveis

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Imagem: casa.da.photo/Shutterstock.com

Regularização e reabilitação

Especialistas defendem que plataformas como o iFood implementem processos mais transparentes de reavaliação de casos de exclusão. A criação de um canal de reabilitação com critérios objetivos, tempo determinado de penalidade e possibilidade de defesa pode humanizar o sistema.

Políticas públicas para proteção

É urgente discutir uma legislação que garanta ao entregador acesso a:

  • Previdência social
  • Seguro contra acidentes
  • Jornada máxima segura
  • Mínimo de remuneração por hora

O Congresso Nacional discute há anos a regulamentação do trabalho por aplicativos, mas sem avanços significativos até o momento.

Conclusão

A história de José não é um caso isolado, mas parte de um fenômeno crescente: a informalidade extrema em um setor formalizado digitalmente. A tecnologia aproxima, mas também exclui. Enquanto houver entregadores sendo empurrados para fora do sistema sem direito à defesa, haverá brechas sendo exploradas em nome da sobrevivência.

Mais do que punir, o desafio das plataformas e do Estado é encontrar formas de reintegrar, proteger e valorizar o trabalho desses profissionais que sustentam o serviço de entregas no país.

Melissa Barbosa

Autor

Melissa Barbosa

Melissa Barbosa é Redatora SEO e Designer no portal Seu Crédito Digital. Estudante de Jornalismo, possui sólida experiência em Marketing de Conteúdo, com foco em estratégias de SEO, comunicação digital e identidade visual. Apaixonada pelo universo da informação e da criatividade, une técnica e sensibilidade para transformar dados e tendências em conteúdos relevantes, que ajudam o público a entender melhor o cenário econômico, os benefícios sociais e os serviços digitais que impactam o dia a dia do brasileiro.

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