Em meio à crescente popularidade dos serviços de entrega por aplicativos, uma parte da força de trabalho que movimenta essas plataformas permanece à margem das normas, invisível e vulnerável. Na cidade de São Paulo, entregadores excluídos do iFood encontram formas alternativas — e muitas vezes ilegais — de continuar trabalhando. Eles driblam exigências do sistema por pura necessidade de sobrevivência.
Entregador usa conta de bike para rodar de moto sem CNH pelo iFood
Entregadores excluídos do iFood usam contas de terceiros para continuar trabalhando. Veja como eles driblam regras e enfrentam riscos para sobreviver.
O caso de José, um entregador que utiliza a conta do irmão para seguir nas ruas, ilustra com clareza a precariedade da situação. Sem Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e com histórico criminal, ele afirma que está impedido de criar sua própria conta no aplicativo e, por isso, trabalha usando cadastro de terceiros.
“Hoje em dia, eu sobrevivo do iFood na conta dos outros, porque não posso ter a minha”, desabafa José.
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Segunda chance negada

O que é a “segunda chance” no iFood?
Após cometerem infrações classificadas como gravíssimas pelo iFood, os entregadores são desligados da plataforma e, em tese, teriam a possibilidade de solicitar uma “segunda chance”. No entanto, esse processo é opaco e raramente resulta em reabilitação. José afirma estar banido há seis anos, mesmo tendo apelado diversas vezes.
Infrações que levam à exclusão
Entre as causas mais comuns de banimento estão:
- Uso de documentos falsos
- Adulteração de GPS
- Emprestar a conta para terceiros
- Comer parte do pedido do cliente
- Não concluir entregas
- Comportamento agressivo
Muitos entregadores afirmam que, mesmo após tentarem se explicar, enviar e-mails a executivos do iFood ou buscar atendimento em pontos de apoio, não obtêm resposta ou chance de retorno.
A rotina de riscos e improvisos
Trabalho irregular, alimentação precária e longas jornadas
A cada dia de trabalho, José fatura entre R$ 120 e R$ 150, valor que sustenta suas três filhas pequenas. Para isso, ele percorre dezenas de quilômetros com uma moto, embora sua conta esteja cadastrada como ciclista. A cada checagem facial pedida pelo app, ele precisa encontrar o irmão para confirmar sua identidade.
A rotina é dura e pouco saudável. A dificuldade para se alimentar é constante e, segundo ele, pedalar até 100 km em um único dia era insustentável. “Eu terminava o dia arrebentado”, conta.
Falta de apoio institucional
Pontos de apoio improvisados ou superlotados são comuns. As tendas e parcerias anunciadas pela empresa nem sempre estão disponíveis em todas as regiões ou funcionam com regularidade. Em muitos casos, os entregadores precisam improvisar locais para descanso e refeições.
O que diz o iFood
Em nota ao Metrópoles, o iFood afirma que:
- Não incentiva comportamentos de risco
- Os tempos de entrega são baseados em condições realistas
- As campanhas de incentivo são opcionais
- Está comprometido em ampliar pontos de apoio em parceria com entidades públicas e privadas
Contudo, essas declarações contrastam com relatos frequentes de entregadores que afirmam trabalhar sob forte pressão de produtividade e em condições que os obrigam a buscar atalhos e burlar o sistema.
As estratégias dos entregadores excluídos

Fraude não é regra, mas é comum
Apesar de ilegal, o uso de contas de terceiros é amplamente conhecido no setor de entregas. Em grupos de WhatsApp e redes sociais, circulam tutoriais de como burlar o reconhecimento facial ou criar contas com dados de familiares.
A falta de oportunidades formais e a urgência econômica são os principais gatilhos para esse tipo de conduta. Muitos entregadores se arriscam para garantir o sustento da família.
A lógica do “trabalhar por conta”
Em teoria, o modelo do iFood e de outros aplicativos se baseia na autonomia: o entregador é um parceiro, não um funcionário. No entanto, na prática, a dependência da plataforma é total. A exclusão do sistema é equivalente a uma demissão sumária, sem direitos trabalhistas, aviso prévio ou chance de defesa clara.
A visão institucional
O que diz a Amobitec
A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa empresas como iFood, afirma que cada plataforma tem diretrizes próprias e não estimula jornadas extensas nem velocidade excessiva. Ainda assim, a entidade evita comentar casos individuais de exclusão e não fornece dados transparentes sobre o número de entregadores banidos ou reabilitados.
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Precarização estrutural
Invisibilidade digital e social
Entregadores como José vivem à margem de qualquer rede de proteção. Sem vínculo empregatício, sem acesso a direitos básicos e frequentemente criminalizados, são os operários do século XXI — essenciais, mas invisíveis. A exclusão de uma plataforma como o iFood equivale, para muitos, à exclusão do mercado de trabalho.
A ausência do Estado
Falta regulação eficaz. Falta acolhimento institucional. Falta, sobretudo, uma política pública que reconheça o entregador como trabalhador com direitos. O crescimento da economia de aplicativos trouxe dinamismo ao mercado, mas também aprofundou desigualdades e abriu espaço para novas formas de exploração.
Caminhos possíveis

Regularização e reabilitação
Especialistas defendem que plataformas como o iFood implementem processos mais transparentes de reavaliação de casos de exclusão. A criação de um canal de reabilitação com critérios objetivos, tempo determinado de penalidade e possibilidade de defesa pode humanizar o sistema.
Políticas públicas para proteção
É urgente discutir uma legislação que garanta ao entregador acesso a:
- Previdência social
- Seguro contra acidentes
- Jornada máxima segura
- Mínimo de remuneração por hora
O Congresso Nacional discute há anos a regulamentação do trabalho por aplicativos, mas sem avanços significativos até o momento.
Conclusão
A história de José não é um caso isolado, mas parte de um fenômeno crescente: a informalidade extrema em um setor formalizado digitalmente. A tecnologia aproxima, mas também exclui. Enquanto houver entregadores sendo empurrados para fora do sistema sem direito à defesa, haverá brechas sendo exploradas em nome da sobrevivência.
Mais do que punir, o desafio das plataformas e do Estado é encontrar formas de reintegrar, proteger e valorizar o trabalho desses profissionais que sustentam o serviço de entregas no país.
