O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) abriu uma ofensiva contra 12 entidades envolvidas em um esquema bilionário de fraude contra aposentados, mas deixou de fora três organizações que mais arrecadaram com descontos de mensalidade sobre benefícios previdenciários. As entidades poupadas têm vínculos políticos diretos com nomes do alto escalão do governo federal, de diferentes espectros ideológicos.
Investigação do INSS poupa instituições ligadas a figuras de Lula e Bolsonaro
Entidades com vínculos políticos, como Sindnapi e Conafer, ficaram fora da investigação do INSS sobre esquema bilionário de fraude contra aposentados.
Segundo apuração da Controladoria-Geral da União (CGU) e do Tribunal de Contas da União (TCU), essas três instituições movimentaram bilhões de reais nos últimos anos, com crescimentos de faturamento considerados “atípicos” e até “suspeitos”. Ainda assim, o INSS optou por não incluí-las nos processos administrativos de responsabilização abertos no dia 5 de maio de 2025.
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Sindnapi: irmão de Lula na vice-presidência

A primeira entidade poupada é o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Força Sindical (Sindnapi). O sindicato tem como vice-presidente Frei Chico, irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A entidade figura como a terceira maior arrecadadora de mensalidades descontadas diretamente de aposentadorias entre 2019 e 2024.
Crescimento expressivo no faturamento
Durante esse período, o Sindnapi arrecadou R$ 259,2 milhões e teve um salto de 78% na receita com mensalidades durante a pandemia. O relatório da CGU apontou potencial conflito de interesses e chamou atenção para a atuação empresarial do responsável pela entidade.
Apesar das cifras milionárias e dos indícios de irregularidade, o sindicato ficou fora da lista de alvos da chamada “Operação Sem Desconto”, conduzida pela Polícia Federal (PF) e posteriormente assumida pela CGU.
Conafer: vínculo com ex-ministro de Bolsonaro
A Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), por sua vez, foi a segunda entidade que mais arrecadou: R$ 484,8 milhões no mesmo intervalo de tempo. De acordo com a CGU, a confederação foi a que mais cresceu: seus descontos sobre aposentadorias aumentaram 57.000% entre 2019 e 2023.
Ligações políticas e suspeitas de repasses
A Conafer tem ligações com José Carlos Oliveira (PSD), ex-ministro da Previdência no governo de Jair Bolsonaro (PL) e ex-presidente do próprio INSS. Segundo a investigação, empresas ligadas à confederação teriam feito transferências suspeitas para a campanha de Oliveira à Câmara Municipal de São Paulo em 2024, quando ficou como suplente.
Contag: R$ 2 bilhões em arrecadação
No topo da lista está a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que arrecadou R$ 2 bilhões entre 2019 e 2024 por meio de descontos diretos nos benefícios de aposentados. A entidade é presidida por Aristides Veras Santos, irmão do deputado federal Carlos Veras (PT-PE).
Exclusão sem explicações
Mesmo com esses números expressivos e o histórico de denúncias, a Contag também não foi alvo do pacote inicial de investigações do INSS. A reportagem solicitou ao Instituto os critérios usados para selecionar as entidades investigadas, mas não houve retorno até o momento.
A atuação da CGU e o avanço da Operação Sem Desconto

Após a repercussão das denúncias, a Controladoria-Geral da União decidiu avocar os processos, justificando a necessidade de “harmonia e coesão” nas apurações. O movimento se deu um dia após o INSS divulgar a lista das 12 entidades que seriam responsabilizadas administrativamente.
Segundo a CGU, o foco das investigações deve ser ampliado, incluindo instituições que movimentaram valores elevados e que têm relação direta com denúncias documentadas pela imprensa.
O papel da imprensa e o impacto das reportagens
O escândalo envolvendo as fraudes contra aposentados foi revelado por meio de reportagens publicadas pelo portal Metrópoles, a partir de dezembro de 2023. Foram 38 matérias citadas oficialmente na representação que motivou a operação da Polícia Federal.
As denúncias resultaram na queda do presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e do ministro da Previdência, Carlos Lupi. As investigações da CGU e da PF continuam em andamento, com novas frentes de apuração sendo abertas.
Quem são as entidades investigadas oficialmente
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As 12 entidades inicialmente responsabilizadas pelo INSS são:
- Associação de Suporte Assistencial e Beneficente para Aposentados Servidores e Pensionistas do Brasil (Asabasp)
- Appn Benefícios (Aapen, ex-Absp)
- Associação dos Aposentados e Pensionistas dos Regimes Geral da Previdência Social (AAPPS Universo)
- Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (AAPB)
- Associação Brasileira dos Aposentados Pensionistas e Idosos (Asbrapi)
- Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (Cebap)
- União Nacional de Auxílio aos Servidores Públicos (Unaspub)
- Associação no Brasil de Aposentados e Pensionistas da Previdência Social (Apbrasil)
- Associação de Aposentados Mutualista para Benefícios Coletivos (Ambec)
- Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA)
- Caixa de Assistência aos Aposentados e Pensionistas (Caap)
- Associação de Proteção e Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (Apdap Prev/Acolher)
O que dizem as entidades poupadas
Logo após a deflagração da Operação Sem Desconto, tanto o Sindnapi, quanto a Conafer e a Contag divulgaram notas negando qualquer irregularidade em seus processos de filiação e reafirmaram que os descontos aplicados em aposentadorias são legais e consentidos pelos filiados.
Entretanto, dados da CGU e do TCU indicam que milhares de aposentados alegaram nunca ter autorizado os descontos e, em muitos casos, sequer tinham conhecimento da existência dessas entidades.
Perspectivas para os próximos passos da investigação

Com a CGU no comando dos processos, a expectativa é que a investigação seja ampliada para além das 12 entidades iniciais, podendo alcançar as organizações que até agora foram poupadas.
O Ministério Público Federal (MPF) acompanha de perto as denúncias e deve se manifestar em breve sobre a possível inclusão de entidades com vínculos políticos nas novas fases da operação.
A sociedade aguarda respostas claras e imparciais sobre quem se beneficiou ilegalmente dos descontos em aposentadorias, e quais medidas serão adotadas para ressarcir os prejudicados.
Conclusão
O avanço das investigações sobre as fraudes bilionárias envolvendo descontos indevidos nas aposentadorias de segurados do INSS evidencia a complexidade e a gravidade do esquema, que conta com ramificações políticas e institucionais. A exclusão de entidades com forte influência e ligações com figuras públicas de alto escalão da primeira leva de responsabilizações levanta questionamentos sobre a imparcialidade e o alcance real das apurações. Diante da mobilização da Controladoria-Geral da União e da repercussão pública, espera-se que as investigações avancem com transparência, responsabilizando todos os envolvidos — independentemente de vínculos políticos — e garantindo a restituição dos direitos dos aposentados lesados. A integridade da previdência social e a proteção dos beneficiários devem ser prioridades absolutas.
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