O uso da inteligência artificial generativa, como o ChatGPT, vem crescendo vertiginosamente entre estudantes universitários.
ChatGPT atrapalha ou ajuda? Estudantes que usam aprendem menos?
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Embora a ferramenta ofereça facilidades inegáveis para a redação de textos e resolução de tarefas, surgem dúvidas cada vez mais frequentes sobre os efeitos desse uso na aprendizagem real. Afinal, estudantes que utilizam IA para escrever aprendem menos?
Essa é a pergunta que vem intrigando educadores, pesquisadores e especialistas em neurociência. Um estudo recente conduzido por pesquisadores do MIT ganhou destaque por sugerir que o uso do ChatGPT em tarefas acadêmicas pode estar ligado a uma menor atividade cerebral e a produções menos críticas e originais. Mas o debate está longe de ser conclusivo.
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Experimento do MIT: ChatGPT vs cérebro humano

Como foi conduzido o estudo?
O estudo preliminar realizado por uma equipe do Massachusetts Institute of Technology (MIT) envolveu 54 estudantes da região de Boston. Eles foram divididos em três grupos:
- Grupo 1: Usou o ChatGPT para escrever textos.
- Grupo 2: Usou mecanismos de busca.
- Grupo 3: Escreveu com base apenas em seus próprios conhecimentos.
Os participantes realizaram três sessões de escrita com intervalos ao longo de alguns meses. A equipe utilizou eletroencefalogramas para medir a atividade cerebral durante o processo.
Quais foram os resultados?
Os textos produzidos com o auxílio do ChatGPT apresentaram desempenho inferior em comparação aos dos demais grupos. Além disso:
- Menor conectividade cerebral: Estudantes que usaram IA mostraram menor conexão entre áreas do cérebro.
- Memória de curto prazo afetada: Mais de 80% dos usuários de IA não conseguiram lembrar trechos dos textos que haviam acabado de escrever.
- Copiar e colar: Ao final da terceira sessão, muitos alunos pareciam apenas replicar informações da IA sem interpretação crítica.
- Textos “sem alma”: Avaliadores identificaram facilmente os textos escritos com IA devido à ausência de profundidade, originalidade e reflexão pessoal.
Olhar dos professores: o que mudou em sala de aula?
Relato da professora Jocelyn Leitzinger
A professora Jocelyn Leitzinger, da Universidade de Illinois, compartilhou uma experiência reveladora: ao pedir que os alunos escrevessem sobre episódios de discriminação que viveram, ela percebeu que muitos textos apresentavam histórias genéricas com personagens fictícios — frequentemente chamadas “Sally”.
A conclusão? Alunos estavam terceirizando a própria vivência para a IA. “Eles nem escreviam sobre suas vidas”, relatou.
Leitzinger estima que cerca de 50% de seus 180 alunos usaram o ChatGPT de forma inadequada em trabalhos, inclusive para discutir temas éticos sobre a própria IA — criando um paradoxo.
Redação sem erros, mas sem essência
Outro ponto levantado por Leitzinger é a mudança no tipo de erro cometido. Antes do ChatGPT, erros gramaticais e ortográficos eram comuns. Agora, os textos estão tecnicamente corretos, mas empobrecidos em termos de criatividade, argumentação e pensamento crítico.
O que dizem os especialistas em neurociência?
Limitações do estudo
A neurocientista Ashley Juavinett, da Universidade da Califórnia em San Diego, alerta para a necessidade de cautela. Embora os dados sejam interessantes, ela destaca que o estudo não oferece rigor metodológico suficiente para afirmar que o ChatGPT causa impacto negativo direto no cérebro.
Além disso, a amostra é pequena, e os efeitos a longo prazo ainda são desconhecidos.
Possibilidades positivas
Curiosamente, quando o grupo que nunca havia usado ChatGPT foi exposto à ferramenta pela primeira vez, demonstrou aumento de conectividade cerebral. Isso indica que o uso consciente e moderado da IA pode estimular novas formas de raciocínio, desde que o estudante já tenha desenvolvido habilidades cognitivas básicas.
IA e educação: ferramenta ou atalho?
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Comparações com a calculadora
A chegada da IA nas salas de aula é comparada por alguns especialistas com a introdução da calculadora. À época, professores temiam que alunos deixassem de aprender matemática básica. Com o tempo, no entanto, a calculadora se tornou uma ferramenta complementar ao ensino, desde que usada no momento apropriado.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao ChatGPT. Se utilizado antes do domínio das habilidades de escrita e pensamento crítico, pode prejudicar a formação do aluno. Mas, quando integrado de maneira planejada, pode ampliar a capacidade de produção, análise e síntese.
Escrever é pensar
“Escrever é pensar; pensar é escrever”, defende Leitzinger. A escrita exige organização mental, seleção de ideias e argumentação. Se esse processo é terceirizado à IA, o aluno pode estar abrindo mão justamente da etapa essencial do aprendizado.
Como lidar com o ChatGPT na educação?

Papel dos educadores
Diante desse novo cenário, educadores precisam revisar suas estratégias. Propostas de atividades mais pessoais, orais ou baseadas em experiências reais podem dificultar o uso indevido da IA. Além disso, é fundamental debater abertamente os limites e as possibilidades da ferramenta em sala de aula.
Importância da alfabetização digital crítica
A escola deve formar estudantes capazes de usar a IA com ética, criticidade e autonomia. Isso significa compreender como a tecnologia funciona, reconhecer seus vieses e avaliar quando é apropriado utilizá-la.
Conclusão: o problema não é a ferramenta, mas o uso que se faz dela
O ChatGPT, assim como outras tecnologias, não é inerentemente bom ou ruim. O impacto na aprendizagem dependerá da forma como for inserido no contexto educacional.
Enquanto alguns estudos apontam para riscos de superficialização do conhecimento, outros sugerem que, se bem empregado, o ChatGPT pode até estimular novas conexões cognitivas. O ponto central é garantir que a ferramenta seja usada como um apoio, e não como substituto do raciocínio humano.
Imagem: Tapati Rinchumrus / shutterstock.com
