O setor de carnes brasileiro pode estar prestes a recuperar um de seus mercados mais rentáveis: os Estados Unidos. Após a imposição de tarifas adicionais que reduziram drasticamente o fluxo de exportações em 2025, o governo norte-americano começa a sinalizar uma possível revisão das medidas, o que reacende o otimismo entre produtores e exportadores do país.
Virada no mercado: EUA se preparam para voltar a comprar carne do Brasil
Após alta de tarifas, Estados Unidos avaliam retomar importação de carne bovina do Brasil, essencial para a indústria de hambúrgueres.
A expectativa foi reforçada por Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), durante o 2º Seminário Lide Agronegócio, realizado em São Paulo. Segundo ele, apesar do chamado “tarifaço” de 50%, os EUA continuam dependentes da carne bovina brasileira para manter a regularidade de sua produção interna de hambúrgueres e blends industriais.
“Eles recorreram ao Brasil porque não há outro país com volume e regularidade para suprir essa necessidade”, destacou Perosa.
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Ciclo pecuário dos EUA em baixa histórica

Menor rebanho em 75 anos pressiona indústria de proteína
Os Estados Unidos atravessam o menor ciclo pecuário em mais de sete décadas, com cerca de 80 milhões de cabeças de gado, ante 100 milhões em períodos considerados normais. Essa redução acentuada tem afetado diretamente o abastecimento interno de carne bovina, levando o país a depender de importações — e o Brasil se tornou peça-chave nessa equação.
Mesmo com a imposição da tarifa de 50%, o país ainda conseguiu exportar 200 mil toneladas de carne bovina aos EUA até julho de 2025, o mesmo volume registrado em todo o ano anterior. O setor esperava dobrar esse número até dezembro, mas a taxa total, que chega a 76% quando somados os encargos, inviabilizou boa parte dos embarques.
“Seguimos com alguns cortes competitivos e mandamos cerca de 10 mil toneladas no último mês”, afirmou o executivo.
A importância da carne brasileira para o mercado americano
Cortes específicos e qualidade superior mantêm a demanda
A carne bovina brasileira ocupa um papel singular no mercado global por atender nichos específicos e exigentes. De acordo com Perosa, o país se consolidou como fornecedor estratégico por conseguir oferecer cortes diferenciados para cada destino:
- Itália: cortes usados na produção da tradicional bresaola;
- China: dianteiro, aproveitado em pratos típicos e refeições rápidas;
- Estados Unidos: recorte do dianteiro, usado em misturas industriais e hambúrgueres.
A carne brasileira é reconhecida por ser mais magra e limpa, o que a torna essencial no blend das indústrias norte-americanas. Lá, os frigoríficos misturam o produto brasileiro — de menor teor de gordura — à carne local, mais gordurosa, para alcançar o padrão ideal de sabor e textura exigido pelos consumidores.
Perdas com tarifas e redirecionamento das exportações

Setor redireciona embarques, mas sente falta do mercado americano
Com o aumento das tarifas, o Brasil precisou redirecionar rapidamente parte de seus embarques para mercados asiáticos e para o Oriente Médio, que continuam com forte apetite por proteína bovina. Ainda assim, a perda dos Estados Unidos representou um golpe considerável para o faturamento do setor.
Segundo Perosa, o preço médio da carne vendida para os norte-americanos chegava a US$ 7,5 mil por tonelada, enquanto o mesmo corte é comercializado por cerca de US$ 5,7 mil na China. Essa diferença de quase US$ 2 mil por tonelada evidencia o peso financeiro da interrupção no comércio bilateral.
Mesmo com essa adversidade, o Brasil manteve sua posição de maior exportador mundial de carne bovina, consolidando o país como referência global em produtividade e qualidade.
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Caminhos diplomáticos para destravar o comércio
Abiec aposta em diálogo político e técnico
A Abiec vem mantendo conversas com autoridades e parlamentares dos Estados Unidos para encontrar uma solução negociada. O objetivo é demonstrar que o Brasil segue padrões sanitários e ambientais rigorosos, garantindo que o produto não representa risco ao mercado americano.
“Há espaço para entendimento entre os governos e acreditamos na retomada gradual do fluxo comercial quando as tarifas forem revistas”, afirmou Perosa.
Fontes do setor apontam que a pressão da própria indústria americana pode acelerar esse processo. A escassez de gado local, somada à necessidade de manter os estoques de carne processada, tem levado grandes redes de fast-food e distribuidores a cobrar do governo uma revisão das taxas.
Oportunidade de retomada e impacto no agronegócio brasileiro
Exportadores se preparam para nova fase de expansão
A expectativa é de que, uma vez revistas as tarifas, os embarques ao mercado norte-americano voltem a crescer de forma acelerada. O potencial é grande: os Estados Unidos importam, em média, mais de 1 milhão de toneladas de carne bovina por ano, sendo um dos três maiores compradores do mundo.
Para o Brasil, essa reaproximação representaria não apenas ganhos econômicos, mas também fortalecimento da imagem internacional do agronegócio nacional, frequentemente alvo de questionamentos ambientais. Especialistas afirmam que a retomada do comércio com os EUA pode servir de selo de qualidade e confiança para outros mercados ainda em negociação.
Imagem: Freepik

