Desde o início de agosto de 2025, a decisão dos Estados Unidos de elevar para 50% as tarifas de importação sobre uma ampla gama de produtos brasileiros tem movimentado tanto Brasília quanto grandes multinacionais americanas.
Amazon, Coca-Cola e GM se juntam ao Brasil para negociar exceções em tarifas dos EUA
Amazon, Coca-Cola, GM e Brasil articulam exceções às tarifas de 50% dos EUA, buscando reduzir custos e proteger cadeias produtivas.
Companhias como Amazon, Coca-Cola, GM e Caterpillar se uniram ao governo brasileiro em uma articulação para buscar exceções setoriais e ajustes que reduzam os impactos mais imediatos.
A medida, que combina uma sobretaxa de 40% com a aplicação de uma tarifa recíproca de 10%, foi recebida como um “tarifaço” e vem impondo custos adicionais relevantes a diferentes cadeias de suprimentos. Apesar de preservar alguns setores estratégicos, como aeronaves civis e parte do agronegócio, a maioria dos bens industriais e alimentos processados entrou na lista.
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Apoio das multinacionais ao Brasil
Em encontros recentes com autoridades brasileiras, representantes de grandes companhias americanas sediadas no Brasil manifestaram apoio à linha de negociação. A estratégia busca preservar contratos, evitar rupturas logísticas e manter linhas de produção operando tanto em território norte-americano quanto brasileiro.
Documentos oficiais confirmam a presença de Amazon, Coca-Cola, GM e Caterpillar nas reuniões e o alinhamento com a posição brasileira de defesa de flexibilizações. A pressão parte de diferentes frentes — varejo, indústria de alimentos, bebidas, automotivo e máquinas —, todas vulneráveis a aumentos abruptos nos custos.
Ajustes parciais em Washington
A Casa Branca, por sua vez, vem publicando alterações técnicas e atualizações em anexos de exclusões, sem revogar o núcleo da medida. A mais recente ordem executiva, válida desde 8 de setembro, atualizou o Anexo II de produtos excluídos, permitindo algum fôlego a setores estratégicos.
O que muda nas regras tarifárias
Estrutura do tarifaço
A regra vigente combina duas camadas:
- Tarifa recíproca de 10%, aplicada como contrapartida a medidas brasileiras;
- Sobretaxa de 40%, introduzida como medida extraordinária de proteção.
O total de 50% de alíquota extra se aplica a partir de agosto, com exceções pré-definidas para nichos considerados críticos aos EUA. Entre os poupados estão alguns insumos agrícolas e aeronaves civis.
Impactos setoriais
- Café: exportações brasileiras para os EUA caíram fortemente em agosto, redirecionando embarques para Europa e Ásia.
- Indústria automotiva: fabricantes enfrentam alta nos custos de componentes importados do Brasil, pressionando preços finais nos EUA.
- Químicos e eletrônicos: linhas de produção já registram atrasos e ajustes em cronogramas.
- Papel e têxteis: setores relatam risco de perda de competitividade frente a fornecedores asiáticos.
A estratégia brasileira e a Lei da Reciprocidade
OMC como arena diplomática
Em agosto, o Brasil abriu consultas formais na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas. O processo foi aceito pelos EUA, mas tende a se arrastar. Enquanto isso, o Itamaraty concentra esforços em demonstrar impactos concretos na própria economia americana, reforçando o argumento de que a medida prejudica empregos e aumenta preços internos.
Resposta interna regulada
No campo doméstico, o governo regulamentou a Lei da Reciprocidade Econômica, criando base legal para contramedidas proporcionais. Um comitê interministerial foi instituído para avaliar eventuais retaliações, mas a orientação oficial é manter a via negociada como prioridade.
Como avançam as exceções tarifárias

Critérios de exclusão
Empresas e associações setoriais têm buscado mapear códigos tarifários mais críticos, especialmente onde não há alternativa doméstica viável nos EUA. As brechas se concentram em três frentes:
- Produtos listados em anexos de exclusão;
- Mercadorias já em trânsito quando a medida entrou em vigor;
- Revisões administrativas em ordens executivas.
O argumento central é que a tarifa encarece a produção nos EUA sem gerar benefício competitivo, afetando diretamente consumidores e indústrias locais.
Papel da aduana americana
A Customs and Border Protection (CBP) continua publicando instruções para empresas, orientando sobre classificação de mercadorias, comprovação de elegibilidade e atualização de procedimentos. Essa abertura burocrática tem sido explorada por grupos empresariais com apoio diplomático brasileiro.
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O cálculo político em Washington
A Casa Branca enfrenta pressão de dois lados:
- Setores industriais americanos, que pedem ajustes para evitar paralisações;
- Ala protecionista do Congresso, que defende manter o tarifaço integral.
Com isso, a decisão final sobre novos ajustes tende a ser gradual e seletiva, criando incerteza para cadeias produtivas. O governo brasileiro evita retaliações imediatas, mas sustenta que pode recorrer à reciprocidade se não houver avanços significativos.
O papel das multinacionais na mesa de negociação
Amazon e Coca-Cola
Para o varejo e o setor de alimentos e bebidas, o risco central está no repasse de preços ao consumidor americano. Insumos agrícolas, aditivos e embalagens vindos do Brasil são sensíveis ao choque tarifário.
General Motors e Caterpillar
Na indústria automotiva e de bens de capital, a preocupação recai sobre componentes essenciais para linhas de produção. Custos mais altos reduzem competitividade de veículos e maquinário fabricados nos EUA, enfraquecendo exportações americanas.
Estratégia conjunta
O alinhamento entre multinacionais e governo brasileiro reforça o argumento de que as tarifas podem ter efeito contrário ao pretendido, fragilizando cadeias produtivas globais em vez de protegê-las.
Perspectivas
O embate tarifário ainda está longe de uma solução definitiva. Enquanto o Brasil mantém diplomacia ativa na OMC e negociações diretas com Washington, multinacionais seguem pressionando por ajustes técnicos que aliviem impactos imediatos.
O cenário mais provável é de exceções pontuais e setoriais, sem a derrubada integral do tarifaço. Até lá, cadeias produtivas permanecem em alerta, e a relação comercial Brasil-EUA se equilibra entre a tensão política e a necessidade de pragmatismo econômico.
Imagem: rafastockbr/shutterstock.com

