A percepção crescente de que o Banco Central (BC) pode ter encerrado o atual ciclo de aperto monetário — ainda que uma nova alta não esteja completamente descartada — reforça o otimismo do mercado com a possibilidade de início de cortes na taxa Selic ainda em 2025. Esse cenário já provoca movimentos nos juros futuros, especialmente nos contratos de médio e longo prazo, refletindo uma reavaliação das expectativas dos agentes financeiros.
Juros futuros despencam após sinal verde do BC para cortes na Selic — entenda o que muda
Mercado reage à expectativa de que o Banco Central pode cortar a Selic em 2025, com impacto nos juros futuros e divisão entre economistas.
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BC pode estar sinalizando fim do aperto

O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, na última reunião, elevar a taxa básica de juros, como era amplamente esperado pelo mercado. No entanto, a sinalização mais branda no comunicado que acompanhou a decisão levou muitos analistas a entenderem que o ciclo de alta pode ter chegado ao fim.
Segundo José Faria Júnior, sócio da Wagner Investimentos, “em termos de flexibilização, é possível que o primeiro corte ocorra ainda este ano, já que raramente o Copom faz alteração antes de seis meses após o seu último movimento de juros (alta ou baixa)”.
Essa leitura alimenta as apostas de que o Copom possa abrir espaço para iniciar a flexibilização monetária já em dezembro, especialmente se o cenário inflacionário continuar a se comportar dentro das metas estipuladas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Oscilações nos juros futuros
Na manhã de quinta-feira, 8 de maio, os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) refletiam o alívio nas projeções de juros:
- O DI para janeiro de 2026 subiu levemente para 14,770%, frente aos 14,739% do ajuste anterior.
- O contrato para janeiro de 2027 recuou para 13,975%, ante 14,013%.
- Já o DI de janeiro de 2029 caiu para 13,435%, frente aos 13,541% da véspera.
Essa movimentação indica que o mercado começa a precificar uma trajetória de afrouxamento monetário a partir do fim deste ano.
Divergência entre economistas
Apesar da leitura majoritária de que o ciclo de alta está próximo do fim, há ainda divergências importantes sobre os próximos passos do Banco Central. O economista-chefe do Banco Bmg, Flávio Serrano, destaca que o Copom não descartou uma nova alta residual, de 0,25 ponto percentual, na reunião de junho. Ao mesmo tempo, Serrano reforça que o BC deixou em aberto a possibilidade de iniciar cortes já em dezembro.
Essa incerteza é reforçada pela ausência de um “forward guidance” — ou orientação prospectiva — mais clara no comunicado da última reunião. Dessa forma, os próximos indicadores de inflação e atividade econômica ganharão ainda mais peso nas decisões futuras.
Projeções do Bank of America
O Bank of America (BofA) mantém sua projeção de estabilidade da Selic em 14,75% até o final de 2025, com início do ciclo de cortes apenas a partir de dezembro. A instituição considera que o Copom seguirá cauteloso diante das incertezas fiscais e do comportamento da inflação no segundo semestre.
Para o BofA, o cenário internacional também deve pesar sobre as decisões do BC. Com o Federal Reserve ainda adotando uma política restritiva nos Estados Unidos, há menos espaço para cortes antecipados no Brasil sem comprometer o câmbio e as expectativas inflacionárias.
O que sustenta a possibilidade de corte da Selic?

Inflação sob controle
A inflação, embora ainda pressionada em alguns núcleos, tem mostrado desaceleração nos últimos meses. O IPCA acumulado em 12 meses segue abaixo de 5%, e as expectativas de mercado convergem para o centro da meta de 3% nos anos seguintes.
Com a atividade econômica mostrando sinais de desaceleração, especialmente no setor industrial e nos investimentos, o espaço para um alívio na política monetária se amplia.
Crescimento fraco e crédito travado
Outro fator relevante é a retração no crédito, especialmente para pessoas físicas, que enfrentam juros elevados e restrições no acesso a financiamentos. A manutenção de uma Selic alta por mais tempo pode comprometer ainda mais o consumo e os investimentos, prejudicando o crescimento econômico em 2025.
Esse quadro pressiona o Banco Central a buscar um ponto de equilíbrio entre o controle da inflação e a necessidade de estimular a atividade econômica.
Contexto fiscal e expectativas
A política fiscal do governo federal e o andamento das reformas no Congresso também serão decisivos. Caso o arcabouço fiscal se mostre crível e eficaz em conter o crescimento da dívida pública, o BC terá mais margem para iniciar um ciclo de flexibilização da Selic com menor risco de deterioração das expectativas de inflação.
Como o mercado se posiciona
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Reação dos investidores
Os investidores já começam a ajustar suas carteiras com base na expectativa de queda futura da Selic. Títulos prefixados e atrelados à inflação (NTN-F e NTN-B, respectivamente) passaram a atrair mais interesse, com queda nas taxas de retorno exigidas pelo mercado secundário.
O movimento é típico em momentos de inflexão da política monetária: à medida que os juros futuros recuam, os preços dos títulos sobem, beneficiando quem já estava posicionado neles.
Fundos e aplicações de renda fixa
Fundos de renda fixa de prazo mais longo e carteiras diversificadas em ativos indexados ao IPCA devem ganhar atratividade nos próximos meses, à medida que o mercado antecipa os cortes da Selic. Já os fundos DI e aplicações atreladas ao CDI, que performam bem em momentos de juros altos, podem começar a perder competitividade gradualmente.
O que esperar das próximas reuniões do Copom?

Junho: manutenção ou alta residual?
Na próxima reunião do Copom, marcada para junho, o mercado segue dividido entre a expectativa de manutenção da Selic ou uma última alta residual de 0,25 ponto percentual. A decisão dependerá, sobretudo, do comportamento da inflação de abril e maio, além de dados sobre o mercado de trabalho e a arrecadação fiscal.
Dezembro: início do ciclo de cortes?
A reunião de dezembro é vista por muitos analistas como a janela mais provável para o início da flexibilização. Se as condições macroeconômicas se mantiverem favoráveis, com inflação controlada e ambiente fiscal estável, o Copom poderá dar início a um ciclo gradual de cortes, provavelmente começando com um ajuste de 0,25 ponto percentual.
Considerações finais
O cenário de possível corte na Selic ainda em 2025 abre novas perspectivas para a economia brasileira. Embora o Banco Central mantenha a cautela e não ofereça sinalizações explícitas, o mercado já antecipa um movimento de flexibilização, refletido na curva de juros e nas estratégias dos investidores.
O equilíbrio entre combate à inflação e estímulo ao crescimento será o principal desafio do Copom nos próximos meses. As decisões futuras dependerão não apenas de dados econômicos, mas também da condução da política fiscal e do cenário internacional.
