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Facções criam bancos digitais para lavar bilhões usando fintechs clandestinas

Facções como PCC e CV usam fintechs clandestinas, criptoativos e laranjas para lavar dinheiro e driblar a fiscalização no Brasil.

Juliana PeixotoPor Juliana Peixoto5 min de leitura
Facções criam bancos digitais para lavar bilhões usando fintechs clandestinas

A revolução tecnológica no sistema financeiro brasileiro, impulsionada pela ascensão das fintechs, trouxe inovações importantes na democratização de serviços bancários.

Porém, esse avanço também abriu brechas perigosas: facções criminosas estão criando suas próprias plataformas de pagamento e bancos digitais para lavar dinheiro do tráfico de drogas, armas e outras atividades ilícitas.

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Imagem: SeventyFour / shutterstock.com

Com slogans como “liberdade financeira” e “controle total”, essas fintechs suspeitas atuam com forte presença nas redes sociais, usando imagens geradas por inteligência artificial para promover uma falsa sensação de modernidade e prosperidade. Elas prometem agilidade e anonimato — características que, na prática, funcionam como escudos para a ocultação de patrimônio ilícito.

De acordo com documentos obtidos pelo jornal O Globo, ao menos oito empresas são investigadas por operar como estruturas financeiras ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV). Em apenas seis anos, essas fintechs movimentaram cerca de R$ 28,2 bilhões, valor superior ao orçamento de cidades como Belo Horizonte.

A engenharia da lavagem digital

Contas bolsão, criptomoedas e laranjas

As fintechs envolvidas utilizam mecanismos sofisticados para dificultar o rastreamento de transações. Um dos principais instrumentos são as chamadas “contas bolsão”, que concentram valores de diversos clientes em uma única conta bancária, sem que os verdadeiros beneficiários apareçam formalmente nos extratos.

Além disso, muitas dessas empresas atuam com criptoativos, como o USDT (Tether), moeda digital atrelada ao dólar, tornando a fiscalização ainda mais complexa. Em alguns casos, os pagamentos eram recebidos por empresas de fachada em reais e convertidos em criptomoedas, movimentadas dentro e fora do Brasil.

Outro recurso comum é a fragmentação de valores, que evita alertas automáticos nos sistemas de controle. Pequenas transações são realizadas de forma sequencial para driblar o radar de órgãos como o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).

Os casos sob investigação

4tbank: o “primeiro banco cripto” do PCC

Entre os casos que mais chamam atenção está o da fintech 4tbank, criada oficialmente em nome de uma jovem de 24 anos, mas operada por seu padrasto, João Gabriel de Mello Yamawaki. A empresa movimentou R$ 500 milhões entre 2019 e 2023, sendo R$ 80 milhões em dinheiro vivo, segundo a Polícia Civil de São Paulo.

Yamawaki é acusado de integrar a estrutura financeira do PCC e estaria prestes a ser “batizado” na facção. Apesar da defesa afirmar que ele apenas geria a fintech e nega qualquer envolvimento com o crime organizado, autoridades apontam que a 4tbank também foi usada pelo Comando Vermelho, numa rara cooperação entre as duas maiores organizações criminosas do país.

2GO: movimentações internacionais e contas sancionadas

Outro caso de destaque envolve a 2GO Instituição de Pagamento, fundada em 2020. A empresa é suspeita de chefiar uma rede ilegal de pagamentos que teria lavado R$ 6 bilhões, com transações registradas em pelo menos 15 países. Um relatório do Coaf revelou que a fintech também movimentou cerca de US$ 80 milhões com contas sancionadas por Israel, reforçando as suspeitas de irregularidades.

O ex-diretor da empresa, Cyllas Salerno Júnior, nega qualquer ilegalidade. Sua defesa classificou as acusações como “infundadas e desprovidas de respaldo técnico-jurídico”.

Outras fintechs sob o radar

Entre outras empresas com atuação semelhante estão a T10 Tecnologia e a I9Pay, que também operavam com contas bolsão e foram suspensas pela Justiça. Ambas alegam não ter qualquer envolvimento com organizações criminosas e afirmam cumprir as normas do Banco Central.

A resposta institucional

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Imagem: The Yuri Arcurs Collection – Freepik

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Coaf e Banco Central intensificam fiscalização

Diante do crescimento acelerado de operações suspeitas, o Coaf registrou um número recorde de alertas relacionados a “arranjos e instituições de pagamento”. Somente no primeiro semestre de 2025 foram 85.829 comunicações, superando o total do ano anterior.

O Banco Central afirma que vem aprimorando sua regulação e intensificando o monitoramento de instituições com suspeitas de irregularidades. No entanto, a pulverização das fintechs e a facilidade de criação de empresas do tipo dificultam o controle rigoroso.

A nova face do crime financeiro

Uma estratégia moderna e globalizada

Especialistas alertam que a aliança entre o PCC e o Comando Vermelho representa uma evolução logística e estratégica do crime organizado no Brasil. “É mais vantajoso criar seu próprio banco do que depender de laranjas”, explica o promotor Lincoln Gakyia. “A movimentação é global e passa por ativos digitais que escapam das regras tradicionais”.

A análise é reforçada pelo professor Antonio Nicaso, da Universidade Queen’s, no Canadá, que estuda o crime organizado internacional. Para ele, o modelo brasileiro reflete estratégias já vistas em máfias como a ‘Ndrangheta, do sul da Itália. “As organizações estão cada vez mais tecnológicas e investem em plataformas clandestinas”, afirma.

Conclusão

O uso de fintechs clandestinas por facções criminosas representa um desafio urgente para a segurança pública e para o sistema financeiro brasileiro. A combinação de tecnologia de ponta, estrutura empresarial sofisticada e alianças entre grupos rivais escancara a fragilidade da atual regulação frente à inovação digital.

Enquanto o país assiste à explosão das fintechs, é preciso garantir que o avanço não se transforme em um atalho para o crime organizado. O caso das “fintechs do crime” serve como alerta para que autoridades e sociedade civil exijam transparência, fiscalização eficaz e responsabilidade no uso das novas tecnologias financeiras.

Imagem: UnImages / Shutterstock.com

Juliana Peixoto

Autor

Juliana Peixoto

Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.

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