Nos últimos anos, o crescimento exponencial do serviço de delivery em São Paulo e Rio de Janeiro tem sido acompanhado por uma preocupante escalada de crimes cometidos por falsos entregadores.
Falsos entregadores causam aumento de crimes; polícias de SP e RJ se mobilizam
Crimes por falsos entregadores levam SP e RJ a aprovar leis com QR Code, chip e rastreamento nas bags, mas eficácia ainda é questionada.
Utilizando-se de coletes, mochilas térmicas e veículos característicos do setor, criminosos abordam vítimas, roubam e desaparecem misturados entre entregadores legítimos, dificultando a identificação pelas autoridades.
Para combater esse problema, os governos de São Paulo e Rio de Janeiro sancionaram recentemente leis que impõem novas regras para a identificação dos profissionais do setor e tentam aumentar a fiscalização, com o uso de tecnologia e cadastro obrigatório.
Porém, especialistas em segurança pública apontam que essas medidas podem não ser suficientes sem um reforço policial e o uso avançado de inteligência artificial (IA).
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Crescimento do delivery e a nova onda de crimes

A popularização dos aplicativos de entrega criou um cenário favorável para que criminosos se passem por entregadores e pratiquem assaltos em áreas urbanas.
O modus operandi é simples: o falso entregador, com uniforme e equipamento parecido com o real, se aproxima das vítimas e anuncia o roubo. Em seguida, se mistura rapidamente entre os demais entregadores, dificultando a atuação policial.
Casos como o ocorrido em março de 2022, no bairro de Moema, em São Paulo, evidenciam o tamanho do desafio para a segurança pública.
Novas leis em São Paulo e Rio de Janeiro
São Paulo: QR Code e chip para identificação
Em maio de 2025, o governador Tarcísio de Freitas sancionou a Lei nº 18.105/2025, que estabelece que mochilas, baús e demais equipamentos usados nas entregas deverão conter um QR Code e um chip para comprovar a relação entre o entregador e a empresa.
Além disso, os serviços de entrega deverão manter cadastro atualizado dos prestadores.
A regulamentação da lei ainda está em andamento, mas a expectativa é que a medida facilite a fiscalização e o rastreamento das entregas, criando um controle maior sobre os profissionais.
Rio de Janeiro: restrição na distribuição das bags
Já no Rio, a lei sancionada em 16 de julho de 2025 pelo governador Cláudio Castro restringe a entrega das bolsas térmicas apenas às plataformas digitais autorizadas, que devem distribuir gratuitamente os equipamentos.
Além disso, as bolsas terão identificação individual do prestador de serviço, e as empresas serão responsáveis por manter registros atualizados.
A regulamentação deve ser concluída em até 90 dias e detalhará as especificações técnicas e procedimentos de fiscalização.
Limitações e críticas às novas medidas
Especialistas em segurança pública, como o professor e policial aposentado Alan Fernandes, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, avaliam com cautela a eficácia das novas leis.
Segundo ele, facilitar a identificação por meio de QR Codes pode não ser suficiente para coibir os crimes, já que consumidores dificilmente confirmariam a autenticidade do entregador, o que pode até facilitar a ação criminosa.
O professor Rafael Alcadipani, da FGV-SP, reforça que as leis são apenas uma parte da solução e que o aumento do efetivo policial e o investimento em tecnologia são indispensáveis.
“Tudo ajuda levando em conta a situação que vivemos, mas precisa de um efetivo policial maior. É importante que essas empresas assumam mais responsabilidade, mas também que haja mais policiais e mais tecnologia para a polícia”, analisa.
Proposta no Senado estagnada
Um projeto de lei semelhante, apresentado pelo senador Giordano (MDB-SP), que propõe a identificação dos entregadores, está parado na Comissão de Assuntos Sociais desde maio de 2023, o que retarda uma possível unificação das medidas em âmbito federal.
A importância do policiamento focado
O conceito de “policiamento por manchas criminais”, amplamente estudado nos Estados Unidos, mostra que direcionar o policiamento para áreas com maior incidência de crimes traz resultados mais eficazes do que ações generalizadas.
Alan Fernandes destaca:
“Pode parecer trivial, mas é importante colocar policiais onde o crime acontece. Há inúmeros trabalhos científicos que comprovam que o policiamento focado em hotspots traz resultados muito melhores.”
Cadastro integrado e rastreamento
O delegado Maurício Druziani, responsável pela prisão da “Mainha do Crime”, quadrilha que financiava roubos por meio de falsos entregadores, defende que o cadastro dos entregadores esteja vinculado às delegacias.
Ele argumenta que, assim como vigilantes privados são fiscalizados, os entregadores poderiam ser monitorados mais de perto.
Druziani também ressalta o valor do rastreamento por chip para analisar os trajetos feitos pelos motociclistas, o que pode auxiliar no combate aos crimes, mesmo em regiões com poucas câmeras de segurança.
A visão das categorias profissionais e associações
Associação de motofretistas autônomos (AMABR)
Edgar Francisco da Silva, conhecido como Gringo, presidente da AMABR, critica as novas legislações. Para ele, as medidas representam “burocracia” e não atacam o problema de raiz.
“Já existe a lei federal 12.009/09 que regula o motofretista e motoboy. Se ela fosse aplicada corretamente, não haveria assalto por falso entregador.”
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Gringo também reclama da falta de diálogo com os profissionais no desenvolvimento das normas e da dificuldade de fiscalização.
Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec)
A Amobitec, que representa empresas de aplicativos, considera as leis “de difícil execução e fiscalização” e alerta que elas podem ser mais prejudiciais do que benéficas, ao criarem custos excessivos e intervenções indevidas no mercado.
No entanto, a entidade reforça a disposição para o diálogo com o governo e tem promovido ações conjuntas visando a segurança dos entregadores e usuários.
O papel da tecnologia e da inteligência artificial
Tanto Alan Fernandes quanto Rafael Alcadipani apontam que o uso da inteligência artificial pode ser uma ferramenta mais efetiva para o combate ao crime do que apenas a legislação.
A experiência de Londres, que testou câmeras inteligentes no metrô para detectar comportamentos suspeitos, serve como exemplo. Apesar das preocupações com privacidade, o uso da IA pode permitir a antecipação e prevenção de crimes.
Alcadipani observa:
“Investir em câmeras inteligentes que reconheçam movimentos e comportamentos suspeitos pode aumentar muito a eficiência da segurança pública.”
Fernandes destaca a utilidade da IA para reconhecimento de placas de veículos envolvidos em crimes, citando casos em São Paulo onde o mesmo veículo foi usado em múltiplos assaltos.
Desafios e próximos passos na regulamentação

A Casa Civil de São Paulo reconhece a complexidade do tema e afirma que busca equilíbrio na regulamentação, considerando os interesses de consumidores, profissionais e empresas.
Fraide Sales, secretário-executivo da pasta, afirma que a lei visa garantir segurança e fiscalização efetiva, principalmente porque muitas entregas atualmente não contam com rastreamento adequado.
No Rio de Janeiro, a regulamentação deverá definir os padrões técnicos das bolsas e os mecanismos de fiscalização, apontando para um aperfeiçoamento das medidas já aprovadas.
Conclusão
O combate aos crimes praticados por falsos entregadores em São Paulo e Rio de Janeiro envolve múltiplos desafios, desde a identificação eficaz dos profissionais até a ampliação do policiamento e o uso de tecnologia avançada.
As leis recentes representam um passo importante, mas ainda incompleto, diante da complexidade do problema. Para que sejam realmente eficazes, precisam ser acompanhadas por maior investimento em segurança pública, integração entre órgãos e empresas, e inovação tecnológica.
Sem essas ações conjuntas, os riscos para consumidores e entregadores legítimos devem continuar crescendo, refletindo na segurança das grandes metrópoles brasileiras.
