Ter direito a 30 dias de férias remuneradas é uma das principais garantias da legislação trabalhista brasileira. No entanto, um levantamento recente mostra que esse benefício nem sempre é aproveitado integralmente. Embora a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) assegure um mês de descanso após cada período de 12 meses de trabalho, apenas um em cada três trabalhadores utiliza todos os dias a que tem direito.
Por que a maioria dos trabalhadores não tira os 30 dias de férias previstos na CLT
Pesquisa mostra que apenas 33% dos brasileiros tiram 30 dias de férias. Entenda o que diz a CLT, as regras e os impactos dessa escolha.
Os dados, divulgados pela plataforma global de recursos humanos Deel em parceria com a Andreessen Horowitz, revelam um comportamento que vai além de uma escolha individual. Questões financeiras, mudanças na organização do trabalho e a flexibilização promovida pela Reforma Trabalhista influenciam diretamente a forma como os brasileiros utilizam suas férias.
O tema desperta atenção porque envolve direitos trabalhistas, saúde física e mental, produtividade nas empresas e até impactos econômicos. Entender por que tantos profissionais deixam de aproveitar o período completo ajuda trabalhadores e empregadores a tomar decisões mais conscientes.
Leia mais:
Bolsa Família pode ter novas regras para trabalhadores intermitentes

Apenas 33% dos trabalhadores utilizam os 30 dias de férias
O levantamento analisou mais de 1,5 milhão de registros de férias e licenças em aproximadamente 150 países. No Brasil, foram examinadas 993 solicitações de férias, principalmente de profissionais que atuam em startups e empresas de tecnologia.
Os resultados mostram que apenas 33% dos brasileiros tiram os 30 dias completos previstos na CLT.
Na prática, o índice médio de utilização das férias no país é de 72%, o que representa aproximadamente 22 dias de descanso por trabalhador.
Outro dado chama atenção: a mediana observada foi de apenas 20 dias, indicando que boa parte dos profissionais opta por vender parte das férias ou dividir o descanso em diferentes períodos ao longo do ano.
O que garante a legislação trabalhista
O direito às férias está previsto na Consolidação das Leis do Trabalho e também possui respaldo na Constituição Federal, que assegura férias anuais remuneradas com acréscimo de um terço sobre o salário.
Após completar 12 meses de trabalho, o empregado passa a ter direito ao chamado período de férias.
Além do descanso, a legislação determina que o trabalhador receba:
- remuneração correspondente ao período de férias;
- adicional constitucional de um terço sobre o salário;
- pagamento realizado antes do início do período de descanso.
Essas garantias buscam assegurar que o empregado possa realmente utilizar esse tempo para recuperação física, mental e convivência familiar.
O que mudou após a Reforma Trabalhista
A Reforma Trabalhista, promovida pela Lei nº 13.467/2017, alterou diversas regras relacionadas às férias.
Antes da mudança, o parcelamento era bastante restrito.
Atualmente, as férias podem ser divididas em até três períodos, desde que sejam respeitadas algumas condições:
- um dos períodos deve ter, no mínimo, 14 dias corridos;
- os demais não podem ser inferiores a cinco dias corridos cada.
A alteração deu maior flexibilidade tanto para empresas quanto para trabalhadores.
Na prática, muitos profissionais passaram a distribuir os dias de descanso ao longo do ano em vez de utilizar o período completo de uma única vez.
A venda de férias também influencia esse cenário
Outro mecanismo previsto na CLT é o chamado abono pecuniário, conhecido popularmente como venda de férias.
A legislação permite que o empregado converta até um terço do período de férias em dinheiro.
Quem possui direito a 30 dias pode, por exemplo:
- descansar 20 dias;
- vender 10 dias para o empregador.
Essa possibilidade existe há décadas e continua sendo amplamente utilizada, principalmente por trabalhadores que desejam reforçar o orçamento familiar.
Por que muitos brasileiros preferem não tirar os 30 dias
Os resultados da pesquisa mostram que diversos fatores ajudam a explicar esse comportamento.
Necessidade de aumentar a renda
Para muitos trabalhadores, vender parte das férias representa uma oportunidade de receber um valor adicional em um período de maior necessidade financeira.
Em momentos de inflação elevada, aumento do custo de vida e maior endividamento das famílias, essa alternativa torna-se ainda mais atrativa.
Mudanças no modelo de trabalho
A adoção do trabalho híbrido e remoto também modificou a percepção sobre descanso.
Alguns profissionais relatam sentir menor necessidade de longos períodos de afastamento quando parte da rotina já ocorre em casa.
Especialistas, porém, alertam que trabalhar remotamente não substitui o descanso efetivo.
Exigências profissionais
Em determinados setores, especialmente aqueles com equipes reduzidas ou alta demanda operacional, alguns trabalhadores preferem fracionar as férias para minimizar impactos nas atividades da empresa.
Embora essa decisão seja permitida pela legislação, ela nem sempre representa a melhor alternativa do ponto de vista da recuperação física e emocional.
O Brasil oferece uma das legislações mais favoráveis ao trabalhador
Quando comparado a diversos países, o Brasil figura entre aqueles que concedem maior quantidade de férias remuneradas.
Segundo o levantamento, apenas a França apresenta um período superior, com cerca de 34 dias anuais de descanso.
A diferença, entretanto, está no aproveitamento desse direito.
Enquanto os franceses utilizam aproximadamente 88% do período disponível, os brasileiros ficam em torno de 72%.
Isso demonstra que oferecer um direito não significa, necessariamente, que ele será plenamente utilizado.
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Descansar não é apenas um benefício, mas uma necessidade
Diversos estudos sobre saúde ocupacional demonstram que períodos adequados de descanso reduzem riscos importantes relacionados ao trabalho.
Entre os principais benefícios estão:
- redução do estresse;
- prevenção da síndrome de burnout;
- melhora da concentração;
- aumento da criatividade;
- maior produtividade após o retorno;
- redução dos afastamentos por problemas de saúde.
Do ponto de vista das empresas, incentivar o uso adequado das férias também contribui para melhorar o clima organizacional e reduzir custos relacionados ao adoecimento dos colaboradores.
Mesmo sem usar todos os dias, brasileiros fazem férias longas
Apesar da tendência de vender parte das férias ou dividir o período, os brasileiros continuam figurando entre os trabalhadores que mais realizam descansos consecutivos.
Segundo a pesquisa, 62% dos profissionais fazem pelo menos um período de 11 dias seguidos de férias durante o ano.
O percentual supera países frequentemente associados ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional, como:
- Suécia (55%);
- Dinamarca (51%).
Esse dado indica que, mesmo com o fracionamento permitido pela legislação, muitos trabalhadores ainda priorizam um período significativo de descanso contínuo.
Empresas também precisam cumprir obrigações legais
O direito às férias não depende apenas da vontade do empregado.
A legislação estabelece responsabilidades para o empregador, que deve conceder o descanso dentro do chamado período concessivo.
Além disso, o pagamento da remuneração das férias, acrescida do adicional constitucional de um terço, deve ocorrer antes do início do afastamento.
O descumprimento dessas regras pode gerar ações trabalhistas, multas e outras consequências previstas na legislação.
Por isso, especialistas recomendam que empresas mantenham planejamento antecipado das escalas de férias, evitando conflitos operacionais e riscos jurídicos.
O que considerar antes de vender parte das férias

Optar pelo abono pecuniário pode representar um reforço importante no orçamento familiar.
Entretanto, essa decisão também reduz o período disponível para descanso.
Antes de abrir mão de parte das férias, especialistas recomendam avaliar fatores como:
- estado de saúde física e emocional;
- nível de estresse acumulado;
- situação financeira da família;
- necessidade de recuperação após longos períodos de trabalho.
Em muitos casos, o ganho financeiro imediato pode não compensar os benefícios proporcionados por um período maior de descanso.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:
